Arquivo para Teatro

Começou o mês dos ingressos a preço popular no Rio

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 19/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Questão de utilidade pública.  Começou hoje a venda da temporada de preços populares no Rio. Sessenta e oito espetáculos aderiram à campanha “Teatro para todos” neste ano. Os ingressos vão custar de R$ 5 a R$ 25. Os postos de venda aparecem na imagem abaixo.

Estão na lista espetáculos que já são sucesso popular há tempos. Muita coisa que já atraiu  multidões ao teatro para aquela gargalhada relazada. Entre os quais: “Como passar em concurso público”, “Minna mãe é uma peça”, “Lente de aumento” e “Nós na Fita”. Muitos que também fizeram sucesso noutra faixa de humor, como “A História de nós 2”, “Clandestinos”, “Farsa da boa preguiça”, “Os difamantes”. Entre os drama, estão la “Inveja dos Anjos” e “O zoológico de vidro”. E há “Gorda”, que talvez fique num incômodo – e por isso mesmo interessante – limiar.

A campanha é da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro .

Se você tem um daqueles amigos que faz o gênero “Vá ao teatro – mas não me chame, porque é muito caro”, aproveite para carregá-lo. Dá até pra dar ingresso de presente!

Pra saber mais vá até: http://www.teatroparatodos.com.br/

PS.: Valeu a dica, Nina.

Anúncios

Jude Law é Hamlet na Broadway. O fantasma ronda

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 11/09/2009 by dramaticoblog

Não vou tecer comentários. Não vou ter chance de ver a  peça. Mas, para quem talvez tenha chance desse prazer, fica o aviso. Jude Law estréia “Hamlet”, na Broadway, dia 6 de outubro. É no Broadhurst Theatre. A peça vem de Londres, com um monte de elogios da crítica. Reproduzo em inglês para respeitar o que restou da língua do bardo. 

“A CAPTIVATING, MODERN PRODUCTION. JUDE LAW’S SCINTILLATING PORTRAYAL GOES RIGHT TO THE MARROW.”  (Daily Express)

“A SWIFT, CLEAR, WELL-STAGED VERSION OF SHAKESPEARE’S MOST EXCITING PLAY.” (The Guardian)

 

HAMLET-blast_2c

Jude Law é 'Hamlet'

Começo a sentir uma dó enorme de não poder tecer comentários. De não poder ver o espetáculo. Mas há de haver outras oportunidades de experimentar “Hamlet”. Até porque, é inevitável. 

“Hamlet”, a peça, é ela mesma um fantasma que fica rondando quem faz teatro, rondando e clamando por grandeza de atitude.

Em coisa de um ano, fui da leitura por puro prazer e curiosidade ao exercício escolar, mas fascinante, de interpretação de um minúsculo trecho. Entre um e outro, assisti à montagem de Aderbal Freire Filho, fiz uma prova teórica que exigia conhecimentos da obra, assisti a um documentário analítico da Royal Shakespeare Company sobre a história… E sem que houvesse grandes planos, ou que uma coisa tenha puxado a outra. Simplesmente aconteceu. O fantasma estava lá, na hora de sempre ou quando menos se esperava.

O pai-fantasma aqui, porém, não é o do príncipe, mas o da obra. O que Shakespeare tinha a dizer a quem se dedica ao teatro ficou cristalino em “Hamlet”. Como todo fantasma,  é uma voz do passado que fala no presente. E assusta.  Não só porque fala. Mas pelo que sabe. Sabe do que foi. E (arrepios!) parece continuar sabendo do que há. 

Para as suas revelações, serve o conselho do Livro das Revelações: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

“Peço uma coisa, falem essas falas como eu as pronunciei, língua ágil, bem claro; se é pra berrar as palavras, como fazem tantos de nossos atores, eu chamo o pregoeiro público pra dizer minhas frases. E nem serrem o ar com a mão, o tempo todo (faz gestos no ar com as mãos); moderação em tudo; pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – o que engrande-ce a ação. Ah, me dói na alma ouvir um desses lata-gões robustos, de peruca enorme, estraçalhando uma paixão até fazê-la em trapos, arrebentando os tímpanos dos basbaques que, de modo geral, só apreciam berros e pantomimas sem qualquer sentido. A vontade é man-dar açoitar esse indivíduo, mais tirânico do que Terma-gante, mais heródico do que Herodes. Evitem isso, por favor.”

Galpão vai encenar ‘Till’ nos Arcos e na Lagoa

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 04/09/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Num painel publicitário desses que cobrem os fundos das bancas de jornal topei com uma notícia das boas. O táxi passava rápido, mas quando meu olho raspou a palavra “Galpão”, o pescoço virou, num reflexo, para não perder o resto. Deu pra pescar: Grupo Galpão, Till, Lagoa, Arcos da Lapa, setembro.

Bingo!

'Till'

'Till'

Traduzindo depois de pesquisar:

A companhia de teatro Galpão, 27 anos de estrada, traz para o Rio neste mês seu novo espetáculo “Till, a saga de um herói torto”. O espetáculo, que bebe da fonte do teatro popupal medieval e foi concebido num processo que envolveu uma série de  consultas aos espectadores, será encenado ao ar livre, em dois dos cenários mais lindos da cidade e de graça. É um desses programas imperdíveis para quem quer arejar suas experiências como espectador de teatro (com o perdão do trocadilho embutido). Ou para quem jamais pisou num teatro e talvez nunca pise.

De 17 até 20, o palco será o Parque dos Patins.
Dias 24 e 25, será a vez dos Arcos da Lapa.

(No blog do elenco, Eduardo Moreira fala também de uma apresentação no dia 27, na Quinta da Boa Vista, mas ela não aparece na agenda do site do grupo)

Tudo de graça.

“Till Eulenspiegel”, de Luís Alberto de Abreu – autor, entre outros de “O Livro de Jó” – é de 1999. É um texto contemporâneo sobre um personagem folcórico germânico da Idade Média. A sinopse promete um desfile de tipos (a começar pelo personagem-título) que bem pode situar a obra como farsa medieval. A circunstância religiosa ainda reforça isso. Mas, na prática, o personagem comunica um tanto de Arlequim, Scapino, Macunaíma, João Grilo… E comunica com atualidade.

O pulo do gato é dar a um texto que bebe do medievo um ambiente fiel ao teatro popular medieval: é na rua e de graça, é aberto a todo tipo de intempérie e humor. A experiência certamente cria uma instabilidade que, imagino, pode ser aproveitada para enriquecer muito o espetáculo.
 
Sobre a rua desafiadora, Eduardo Moreira, integrante do grupo, resume no site do Galpão:  “Ela nos traz desafios de como apresentar o espetáculo para um público amplo e sem restrições de idade, classe social ou formação intelectual. Isso tem reflexos em todos os elementos de criação, como a dramaturgia, a cenografia, os figurinos e a música.”

A direção de “Till” é de Júlio Maciel. Cenário e figurinos são de Márcio Medina. A direção musical, de Ernani Maletta.

Para dar um gostinho, um pedaço da cena do parto, gravada pela platéia:

Pra ler mais sobre teatro medieval:

Teatro Medieval: tudo ao mesmo tempo agora

Duas pequenas jóias do teatro medieval

“Por um fio”: um delicado exercício de respeito ao drama

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 21/08/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

O que torna um texto dramático?

 Há poucos dias ouvi de um professor que a diferença era o diálogo.

 Tenho cá pra mim que foi necessidade de simplificação e um tanto de preguiça que o fez cometer tal sentença. Porque há tempos me é claro que o texto dramático prescinde de diálogo. E de muitas outras características artificialmente atribuídas a ele, por força deste ou daquele período histórico ou escola estética. Penduricalhos. Sem querer desmerecê-los. Mas são penduricalhos.

 Nas últimas semanas, duas experiências me fizeram ver isso com clareza ainda maior. Ando lendo “Três usos da faca”, de David Mamet. E assisti à peça “Por um Fio”, dirigida por Moacir Chaves.

POR_UM_FIO_

Por um fio

 A primeira parte do livro de Mamet é dedicada a demonstrar que o drama perpassa tudo. E que o procuramos em tudo. Seja ele de boa qualidade ou não. Está na pretensa unicidade que faz de uma história a manchete do jornal. Está no discurso ilusório e inespecífico dos políticos. Está até na maneira como nos queixamos da chuva ou do calor ou como relatamos os motivos de um atraso. O drama pode bem ser esse dom de tornar uma história única, digna de ser contada. E por isso, às vezes, é confundido com exagero – uma característica, na verdade, dos dramas de má qualidade.

 É aqui que as duas experiências começam a se entrelaçar. A peça em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, no Rio, fala de nada menos do que o que poderia ser considerado o mais dramático dos momentos humanos: a morte. (Vá lá que o nascimento é equiparável, mas como não guardamos memória dele, tentativas de descrever os estados de alma envolvidos ali são fantasia.)

 Mas se a morte é inexorável, se nos iguala a todos, se é, na verdade, um fato esperado da vida, o que a torna tão dramática assim? Uma explicação fácil é que não a aceitamos. Buscamos, cada um a seu modo, na fé ou no ceticismo, porto seguro longe da tormenta de sentimentos que paira acima da certeza de que iremos morrer. Somos biologicamente programados para a auto-preservação. Somos culturalmente forjados para o respeito à vida. Por conta disso, tentamos negar à morte a qualidade de desfecho. Prolongamos nossa existência, seja através da crença religiosa ou de legados humanos. E essa embate torna nossa relação com a morte ainda mais dramática, ainda mais cheia de conflito, ainda mais marcada pela ansiedade do devir.

 O poder desse conflito já resultou em incontáveis obras dramáticas, de toda sorte e qualidade. O teatro grego nasce justamente do culto a um Deus que foi morto e renasceu. A paixão e ressurreição de Cristo é possivelmente a encenação mais popular de todos os tempos. Sem contar as mortes pelo amor romântico, as mortes no campo de batalha, as mortes da mão de quem se confiava… Isso dá bom drama. Mas drama de má qualidade também. E se há um pecado freqüente nos dramas que bebem da morte é a embriaguez: tendem ao exagero, ao palavrório, à exacerbação… É difícil fugir dessa armadilha quando se tem a morte e seus estigmas como matéria-prima.

 “Por um fio” acerta justamente pelo comedimento. Escolhe tornar drama não o embate eterno e grandioso da humanidade contra a morte, mas as histórias pequenas, tão particulares e tão comuns ao mesmo tempo, de vários homens e mulheres diante da iminência do fim – que às vezes nem chega. Prescinde do tom de epopéia que muitas vezes é equivocadamente exigido dos dramas cotidianos – seja o da manchete do jornal, seja o da novela das oito. E, por isso mesmo, “Por um fio” é drama da melhor qualidade. E fecha o pano quando tem que fechar. Não prolonga o conflito, não infere acerca que vem depois – a não ser, algumas vezes, para falar dos vivos que ficam.

 A forma – tanto do livro do médico Drauzio Varella, quanto do espetáculo – apenas arredonda esse respeito à unicidade do conflito de cada pessoa diante da morte. Não é preciso exagerá-lo. Basta quase que apenas descrevê-lo e lá estará o drama, em toda a sua potência, cruel, duro, poético e sublime. As histórias curtas são narradas no palco por Regina Braga e Rodolfo Vaz. Não há caracterização de personagens, e os atores parecem eles mesmos estar lendo as histórias pela primeira vez, de tal forma que não vivem o drama, mas são afetados por ele como platéia. É um trabalho delicado e respeitoso – exatamente porque não exagera as histórias para torná-las mais especiais – ou, seja, artificialmente mais dramáticas. O cenário outonal, a iluminação precisa e a música que também prima pela discrição contribuem para essa empreitada de não apelar para o artifício.

 A primeira peça de Moacir Chaves a que assisti, “Bugiaria”, de 1999, já tocava a questão da natureza do texto dramático, levando para o palco relatos que não foram imaginados para o teatro. O texto da peça era uma transposição – com costuras, mas sem retoques – de documentos históricos sobre um processo de inquisição e sobre costumes antropofágicos indígenas. Em tese, nada menos teatral. Os resultados no palco mostraram o contrário e, já então, não seguindo pelo apelo dramático fácil dos julgamentos injustos (seja da crença do branco, seja do costume do índio). A encenação tomou o trilho da bufonaria e fez a dramaticidade do texto alcançar notas surpreendentes.

 Enxergar o drama de todas as coisas e respeitá-lo em sua unicidade, sem achar que é preciso engrandecê-lo, é um exercício de sabedoria e sensibilidade.

 Um PS básico:  Pouco depois de escrever esse texto, ouvi de um professor (outro, não o do início dessa crônica) que, quando ele assistiu a “Por um fio”, há alguns meses, a peça soou-lhe melodramática da metade para o fim, que o distânciamento impresso à atuação dos atores é muito instigante no início e depois resvala para um tom mais emotivo. Não concordo. Achei a interpretação contida e muito interessante por isso. Mas a reação da platéia na noite em que vi o espetáculo, tenho que admitir, lembrou capítulo final de novela das oito: foi reação de entrega total ao drama, sem cerimônia alguma. Teve choro, aplauso em cena aberta e comentários muito pessoais (em voz alta!) nos intervalos entre as histórias.  Fiquei irritada e ranzinza na hora, disparando olhares de censura em todas as direções. Pois é. Fiz um drama. Agora, acho certa graça. Da platéia e de mim. 

Outro PS.: Para mais sobre por que resumir que a distinção do texto dramático ao diálogo é  meio simplista, recomendo a leitura dos primeiros capítulos de “O Teatro Épico”, de Anatol Rosenfeld.

 SERVIÇO

“Por um fio”

 70 min

12 anos

Texto de Dráuzio Varella

Direção de Moacir Chaves

Com Regina Braga e Rodolfo Vaz

Teatro Sesc Ginástico (Avenida Graça Aranha ,187 , Centro)

Telefone: 2279-4027

Horário: Quinta a domingo, 19h. Até 13 de setembro

Ingresso: R$ 30,00 (qui. e dom.) e R$ 40,00 (sex. e sáb.)

Até 13 de setembro

Quatro indicações para quem se interessa por dramaturgia

Posted in Cursos e oficinas, Debates e encontros, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 19/08/2009 by dramaticoblog

Dramaturgia Contemporânea – O site “quer aproximar os artistas do teatro dos novos autores” e divulgar uma “novíssima safra de textos que traduzem as ansiedades e transformações do século 21”. Propõe-se a dar  “acesso a vigorosa produção da dramaturgia contemporânea”.

Workshop Introdução às Técnicas Dramatúrgicas, com Marici Salomão Dias 26, 27 e 28 de agosto. A oficina marca o início das atividades deste semestre do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. Marici coordena o núcleo, dedicado à descoberta e desenvolvimento de novos autores, que passam por um processo de seleção. Esse workshop de 3 dias, porém, é aberta ao público, mas há limite de vagas e é preciso inscrever-se.
Inscrições até 20 de agosto.

Dramaturgias, no CCBB do Rio Hoje é o quarto dos sete encontros mensais do projeto, que promove leituras dramatizadas de textos teatrais. O texto desta quarta é Kiev, de Sergio Blanco, autor uruguaio radicado em Paris. É uma releitura contemporânea do clássico “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekov. Não por acaso, a direção de Moacir Chaves, que montou a obra original no ano passado. No elenco: Elisa Pinheiro, Gillray Coutinho, Monica Biel, Peter Boos e Diego Molina. Mediação de Roberto Alvim.  Começa às 18h30. Entrada franca. Senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h de hoje.

 
Dramaturgias, no CCBB de São Paulo Em São Paulo, o projeto Dramaturgias dedica-se este ano a autores franceses. Hoje, leitura do texto Le Frigo – A Geladeira e Loretta Strong, de Copi, com Márcio Vito. Direção de Thomas Quillardet. Às 19h30. Entrada franca, com senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h. Após a leitura, o elenco e o diretor promovem um bate-papo com a platéia para discutir a dramaturgia contemporânea nacional e francesa.

Fernando Bohrer volta ao palco com “Câmera”

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , , , on 18/08/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Vai ter fila de aluno e ex-aluno da CAL na porta. Um dos professores mais queridos da Casa de Artes de Laranjeiras, encarregado de dar o primeiro e decisivo empurrão nos estudantes  do primeiro período do curso profissionalizante de ator, vai voltar ao palco. E com toda vida e experiência de Fernando Bohrer, a gente sabe que ele encararia qualquer clássico com segurança. Pois não é para isso que ele está voltando a atuar, não. O professor está fazendo o que ensina copiosamente aos alunos: está se jogando.

O monólogo “Câmera” é o resultado de um processo altamente experimental de concepção de texto e construção de personagem. Não quero estragar surpresas, nem sei até que ponto convém falar.  Mas o que posso dizer é que o olho do Fernando brilhava que nem criança com brinquedo novo quando ele abria o caderninho com o texto que vinha co-escrevendo ou co-inventando com a jovem Pangéia cia.deteatro.  E o olho faiscava quando ele comentava a dificuldade de se comunicar com a realidade de um personagem cuja fala é construída num idioma (?!) obscuro para todos. Inclusive para ele. O processo não permitu uma interação verbal articulada e racional – como se dá até no mais banal dos papos ou na mais básica das leituras teatrais.  E essa loucura toda deixava o Fernando quase no escuro, mas quicando de uma ansiedade tão motivadora que contagiava só de ouvir.

Na peça, mestre Fernando Bohrer faz um pianista. E toca – o que certamente amplificou seu prazer no processo.

“Câmera” estréia dia 5 de setembro, no Gláucio Gil, e é a terceira parte de uma “Trilogia do espaço”.

Por enquanto, deixo vocês com o teaser: uma entrevista com o pianista Lvyon Kersch.

‘O Monólogo da Velha Apresentadora’ e a arte de fingir para si mesmo

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , on 12/08/2009 by dramaticoblog

O auto-engano é uma banalidade. Todo mundo finge para si mesmo. Seja na forma de uma racionalização arguta, uma justificativa furada ou uma fantasia desvairada. Algumas figuras, porém – sabe-se Deus por que dores da alma – agarram-se ao auto-engano como a uma droga e não conseguem se relacionar com o mundo de cara limpa.

Não falo aqui da loucura de fato ou qualquer outra situação que comprometa a capacidade de escolha. Nem das mentiras políticas, descaradas demais para enganar qualquer um.

Falo da euforia que se extrai de uma mentira social bem contada, do aplauso interno que sente quem acha ter conseguido enganar um mundo que, de outra maneira, não o aceitaria. É uma alegria vingativa – e que vicia. E é auto-engano porque ninguém chega lá com planos de revelar seus segredos e rasgar o personagem no meio do baile. A lógica (?!) aqui é: vingo-me da arrogância e intransigência do mundo, infiltrando-me nele camuflado, amoldando-me a seus gostos, tolhendo meus modos, seguindo suas regras. Finjo para mim mesmo, no fim das contas, que isso é uma vingança libertadora – quando, na verdade, entreguei meus pulsos às algemas. A intenção do “penetra”, reconheçamos, não era explodir uma bomba na festa. Era somente aproveitar o banquete. Enfim: compactuo com o que digo abominar. Vendo uma alma que, na verdade, era muito mais barata do que a etiqueta da minha consciência dizia ser. Uma pechincha dos infernos.

Guzik como Febe Camacho

Guzik como Febe Camacho

Estou dando toda essa volta porque auto-engano – vocábulo que eu não inventei; a coisa que é título de livro e tudo – foi uma expressão que ficou me rondando por dias a cabeça depois de ver “O Monólogo da Velha Apresentadora”, nos Satyros, com Alberto Guzik e Chico Ribas, com direção de Josemir Kowalic.  Eu sei que, para muita gente, é a virulência do texto de Marcelo Mirisola o que mais fisga, pondo na boca da nem tão fictícia Febe Camacho um monte de impropérios que costumam ser concebidos, mas jamais paridos em público. Ok, essa ousadia cria sim momentos hilários, que servem bem como crítica social afiada. Mas, para mim, não ficou aí.

O que me fisgou na peça, que reestreou dia 8, foi uma exposição impiedosa do auto-engano. Que delícia é ver a personagem desmontando em contradições na frente da gente. E mais delicioso ainda é perceber que ela juraria que não enxerga contradição alguma. E a gente ainda fica na dúvida se, àquela altura da vida, ela seria mesmo capaz de enxergar suas contradições. Pois se o casamento da hora foi de fachada, a piedade caridosa é preconceito mal disfarçado, o sorriso só se abre com o obturador das câmeras, a memória nostálgica é filtrada e ficcional, o aplauso arrancado a fórceps é recebido com orgulho… Enfim, sobra o que em cima dessa carcaça?

Parece que nada. Mas só parece. Olhada um pouco mais de perto, a velha apresentadora não é uma personagem achatada como a personagem pública que ela sustenta em cima do salto e embaixo da cabeleira loura. É uma personagem dentro de outra.

Vamos a ela. Febe Camacho vendeu a alma e outros atributos bem mais concretos de sua pessoa pro diabo a quatro. Acumulou fama, fortuna e umas memórias que fariam corar Nelson Rodrigues. Rodopiou até quando pode no baile da vida boa, onde se infiltrou mal disfarçada de celebridade queridinha da alta sociedade. Agora, vive seu fim de festa – o momento chega pra todos, afinal. A banda já parou de tocar, as cadeiras já estão sobre as mesas e alguém já varre os restos. Mas lá está Febe, trôpega, embriagada pela mentira em que vive, rodopiando para cada vez menos gente ver e aplaudir.

Não é isso, ao pé da letra, que você vai ver no palco. Tudo aí é metáfora. Mas acho que ajuda a entender em que estágio da vida Febe é surpreendida pelo seqüestro de sua empregada e acusada pelos bandidos de falta de consciência social porque se recusa a pagar o resgate. É como se o seqüestrador fizesse as vezes de um garçom que surpreende a velha dormindo e babando na mesa ao fim da festa e cutuca para ver se ela ainda está viva.  Acordada no susto, ela esbraveja, esperneia, quer saber se essa nova ordem do mundo – que já não lhe dá importância, nem lhe presta muito respeito – tem noção de com quem está falando.

A personagem dentro da outra é a que se debate com todas as forças que lhe restam para manter de pé seu castelo de Caras, tentando jamais demonstrar que já sente a estrutura ruir sobre sua cabeça.

Alberto Guzik, ator e crítico teatral, tem o mérito de construir essa personagem-matrioska, com fingimentos dentro de fingimentos, sem amparo de nada além de uma peruca e batom. A roupa é a mesma com que ele entra em cena, como ele mesmo, e trava um rápido diálogo com a platéia. Febe surge no corpo de Guzik sem transição, sem efeito externo. Numa troca de postura e pronto, ela está lá.

Febe divide a cena com o assistente de palco interpretado por Chico Ribas, que sustenta uma divertida tensão na relação com a velha apresentadora. O assistente é domador de um leão desdentado. Mas ora bolas, ele sabe que ainda é um leão – e raivoso. Um passo em falso, e é o pescoço dele que pode sangrar com a patada. A postura pé-no-chão do assistente serve de contraponto aos desvarios de Febe, e esse equilíbrio rende gargalhadas.

Os 45 minutos da peça passam voando.

Depois do espetáculo, tive chance de bater um bom papo com o Guzik. Matei mil curiosidades. Criei outras tantas. Fiz muitas perguntas, sorvendo avidamente um tantinho dos 60 anos de teatro que ele comemora com “O Monólogo…” Perguntei, perguntei.  E não esgotei minhas interrogações. Sobre o prazer com que ele encara a empreitada de viver a Febe Camacho, no entanto, não me restou qualquer dúvida. Não ficou interrogação. Não há engano. E a platéia percebe isso.

 

SERVIÇO

MONÓLOGO DA VELHA APRESENTADORA

 Espaço dos Satyros Um

Texto: Marcelo Mirisola

Direção: Josemir Kowalick

Elenco: Alberto Guzik e Chico Ribas

Trilha sonora: Ivam Cabral

Iluminação: Rodolfo García Vázquez

Assistência de direção: Chico Ribas

Quando: Sábados, 19hs, e domingos, 18h30

Onde: Espaço dos Satyros Um, pça Roosevelt, 214

Quanto: R$ 20,00; R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)

Lotação: 70 pessoas

Duração: 45 min

Classificação: 14 anos

Gênero: Comédia

Reestréia: até 27 de setembro