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Vai tentar o teste para “Gypsy”? You gotta get a gimmick, baby…

Posted in Teatro, Teatro Musical with tags , , , , on 23/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

– Você vai fazer o teste pra “Gypsy”?

Acho graça de quantas vezes tenho ouvido essa pergunta nas últimas semanas. E antes que alguém pense que isso tem algo a ver comigo, explico. Não tenho ouvido a pergunta porque acham que eu deva fazer o teste. Tenho ouvido a pergunta porque não se fala de outro processo de produção nos corredores daquela escola lá nas Laranjeiras.

E não deve ser só lá. Os testes foram divulgados em anúncio de revista, email-market, banner no site oficial de Charles Möeller e Claudio Botelho… Não dava pra passar despercebido. Não era para passar despercebido, claro. Era para causar alvoroço. E causou.

Vai ter fila. E torço para quem haja uma boa fila, qualificada, que realmente reflita o imenso interesse que o teatro musical tem despertado nas novas gerações de atores – mérito, óbvio e inconteste, dessa dupla de diretores.

Mas, também por conta dos sucessos em série dos musicais de Möeller e Botelho, é bem provável que haja gente sem noção nessa fila. Muitas Roses, Junes e Louises devem passar pelas audições, cada uma cumprindo seu papel, em vidas muito reais – e muito cheias de ilusão.

Não me interessa sacudir ninguém pra acordar do sonho de ver-se no elenco da primeira montagem brasileira de “Gypsy”, musical levado ao palco pela primeira vez em 1959, por Jule Styne, Stephen Sondheim e Arthur Laurents. É um sonho mais do que genuíno para quem ama o teatro. Möeller e Botelho julgam ser este o maior dos musicais da Broadway (no vídeo abaixo, os diretores e as atrizes Totia Meirelles e Adriana Garambone comentam o musical.) E só isso já seria mais do que suficiente para se presumir que vão tentar superar a precisão e a eficiência de tudo o que já levaram ao palco. Fazer parte disso é um privilégio. É um sonho mesmo.

Mas, sugiro – apenas sugiro – pés no chão.

Não que eu tenha condição de dar conselho. Quase tudo o que eu conheço de teatro musical – quase nada – é o que vivi como espectadora.  “Sete”, “Gota d’água”, “A Noviça Rebelde”, “Wicked”, “Avenida Q”, “Gloriosa”, “O despertar da primavera”, “Aquarelas do Ary”, “Beatles num céu de diamantes”… Estou certamente esquecendo alguma coisa. E não incluo na lista o que vi em versão para cinema. ( “West site story”, visto aos 12 anos, em vídeo, me marcou profundamente…) De qualquer forma é pouco. Pouquíssimo.

E confesso que também tenho a memória de uma certa bizarrice, uma aparência de fantasia de carnaval, alimentada por umas imagens meio esparsas, não muito convictas, de coisas como “O fantasma da ópera” e “Cats”. Pode ser preconceito do tipo não-vi-e-não-gostei. Pode ser.

Há três meses, porém, ando ganhando novas e surpreendentes memórias. Nomes como “Gypsy”, “Chicago”, “A chorus line”, “Dreamgirls”, “Fame”, “South Pacific”, “The Producers”, “Hair”, entre uma infinidade de outros, começaram a ganhar mais sentido. Mirna Rubim, craque absoluta do ensino do canto, e Menelick de Carvalho, diretor teatral que vem fazendo sua carreira na ópera, estão dando uma oficina sobre teatro musical, na qual me inscrevi por impulso. A oficina está consumindo o que me restava de tempo livre nessa vida – lá se foram meus sábados! Mas também está me abrindo janelas e arejando a cabeça. Ao mesmo tempo, o curso constrói, de dentro (das minhas cordas vocais modestas e do meu corpo exausto) para fora um profundo respeito aos musicais. Em dezembro, vamos nos divertir, transformando o que aprendemos no curso em um despretensioso espetáculo sobre a Broadway, uma costura de canções de grandes musicais que falam justamente sobre o show business.

Uma das músicas é tirada de “Gypsy”. Chama-se “You gotta get agGimmick”. Quem está preparando seu currículo para enviar para a Aventura Entretenimento (as inscrições vão até dia 3 de dezembro) deveria ouvi-la.

Você pode assistir ao vídeo (tirado da versão para o cinema, de1962) e apenas achar graça dos truques das stripers. E rir da frieza com que elas falam que não é preciso talento para fazer o que fazem. Ou você pode enxergar que, por trás da ironia, o que elas falam é muito real – e isso tem sido uma das maiores lições das aulas com Mirna e Menelick. Para fazer diferença numa fila de “200 garotas mais jovens e magras que eu” – como diz a moça de “Climbing uphill”  em “The last five years” – é preciso ter algo a mais.

Se você se inscreveu na seleção de “Gypsy”, estou presumindo que saiba cantar e dançar – nem tente se não souber e leve a sério os pré-requisitos. Mas não é só isso. Não será uma corneta ou uma roupa luminosa. Não será algo externo. E nem será técnica apenas. O que faz diferença é a verdade com que você seja capaz de exprimir-se, cantando, dançando ou atuando. É sua arte, afinal.

Pode ser que nem isso garanta sucesso na audição, muito menos um lugar no elenco de “Gypsy”. Mas, com certeza, quem for com esse espírito terá colaborado para que não se veja nessa seleção algo que lembre um concurso de misses, um show de calouros ou um desfile de egos inflados. Honestidade não é truque. Mas é um baita “gimmick”.

E pra fechar a tampa da discussão sobre como se faz, deixo Patti Lupone, 35 anos de Broadway, ganhadora do Tony de 2008 pelo papel de Rose, neste musical. Melhor que todas as minhas mil palavras, é ver e ouvir essa mulher cantando. Um assombro.

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