Arquivo para Claudia Mele

“Agora!” – uma viagem ao outro hemisfério do teatro de improviso

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , on 11/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Um certo tipo de teatro de improviso – às vezes mais show de humor do que teatro – floresceu nos últimos anos e conquistou platéias gigantescas. O fenômeno, paralelo à popularização da stand-up comedy, se alimenta da criatividade de espetáculos como “Z.É. (Zenas Emprovisadas)” e  “Improvável“. Quem já viu “Whose line is it any way” (ainda passa em algum canal??) nem precisa de explicação sobre do que se trata. Pra quem não viu, como explicar?…

É um jogo. Tem regras definidas aos olhos do público. Os atores são os jogadores. Há um convidado, normalmente também ator, que atua ora como apresentador, ora como árbitro. O desafio imposto aos atores é encenar de improviso situações criadas a partir de algum tipo de interação com o público – o que acaba resultando numa série de esquetes (??) concebidas a toque de caixa e apresentadas de uma maneira mais ou menos convencional.

A massificação de todo tipo de tendência cultural costume produzir resultados de qualidades variáveis. É natural. Do pouco que vi desse tipo de teatro, porém, não posso resumir minhas impressões de outra forma: eu me diverti horrores!!!! Chorei de rir!!!

AGORA!_CASADAGLÓRIA

Agora!

Num outro hemisfério do improviso, porém, está “Agora!”. Esse faz rir. E chorar. E chocar. E surpreender. Depende… O espetáculo está em cartaz na Casa da Glória, aos sábados. Foi concebido e é dirigido pela Claudia Mele, que conheci numa sala de aula da CAL (aquela casa lááá no alto das Laranjeiras…), tentando explicar ao longo de um período inteiro, pra 30 neófitos do curso de atuação, que raios é o tal método viewpoints! Sim, ela tentava arduamente… Primeiro, com palavras. Diante das caras de interrogação, mais umas palavras. Depois de mais caras de interrogação, ela desistia e partia para a ação. Quer dizer, nós partíamos, tentando fazer o que não tínhamos entendido bem. Mas, não por acaso, isso era aula de preparação corporal, não de compreensão de texto… O que passara reto acima da cabeça e da nossa capacidade racional de compreender, era rapidamente capturado quando, em vez da mente apenas, a gente usava o corpo todo. Não que a gente acertasse sempre. Pelo contrário. (E não sei de onde a Claudia tirou tanta paciência…). Mas ficou algo no corpo. Algo forte. Uma janela aberta para um estado de percepção do espaço, do tempo e do outro que é capaz de produzir imagens poéticas, fortes, inusitadas e até engraçadas. Tudo de improviso.

Para não ficar devendo uma explicação decente do que seja o método viewpoints, tema de interesse de muita gente boa – a Cia dos Atores e Henrique Diaz, por exemplo – transcrevo o que diz a Claudia na descrição de um curso que ela vai dar.

“Viewpoints é definido como um sistema de improvisação que oferece caminhos que permitem ao artista cênico a percepção e melhor compreensão da dimensão psicofísica de suas ações e da sua relação com o espaço, com o outro e com o grupo. Através de um trabalho relacional de tempo/espaço o ator desenvolve a sua percepção, memória, atenção, escuta, sensibilização além do estado de prontidão para a ação no momento presente.”

Boiou? Afunde. Fazendo.

Ou vá num sábado deste mês, às 19h, na Casa da Glória, ver o que Claudia, uma trupe de atores, bailarinos, atores -bailarinos e músicos estão aprontando em 50 minutos contados de improviso e poesia. Há mais do que viewpoints ali, mas o método é a base. Não espere o riso fácil dos espetáculos de improviso mais populares. Mas a rapidez e a sagacidade dos atores podem render gargalhadas. Bem como a sensibilidade pode fazer você puxar o lenço. (A Claudia mesma quase puxou, no fim da estréia, lembrando sua fonte de inspiração, “A farra dos atores”.)

Também há regras. Também há jogos. Também há temas centrais. E os motes também partem da imprevisível participação da platéia, a quem os atores-bailarinos fazem, bruscamente, perguntas de uma profundidade desconcertante. (Não vou adiantar nenhuma delas. Só confesso que, por um certa vergonha que em si me dá vergonha – pois é, vai entender?… – , menti descaradamente quando indagada sobre um dos temas… Improvisei, digamos assim!)

Mas o corpo do espectador e sobretudo do ator-bailarino-músico, em “Agora”, é tão importante quanto a palavra. Talvez até mais. E o conjunto de atores-bailarinos-músicos se relaciona não apenas porque troca e complementa piadas entre si e com o público, mas porque tenta ocupar o espaço e o tempo como uma massa viva única, que se faz e se desfaz a todo instante, usando o público, muitas vezes como seu suporte. (Preste atenção que, no flyer, um sinal de adição ocupa o espaço entre os nomes. Se foi sem querer, foi verdadeiro ainda assim.)

Se dá sempre certo como espetáculo? Se sempre funciona como teatro e entretenimento? Não tenho a menor idéia! É improviso, ora bolas! Só sei que, naquela tarde-noite do sábado passado, “naquele agora”, digamos assim, funcionou para mim e para uma platéia amistosa que encarou o calor saariano com bravura para ver aquela máquina mover-se, dissolver-se, recompor-se…

Acompanhei o espetáculo nascer pelos relatos esporádicos de Fernanda Huffel, colega da CAL e nova na trupe. Lembro do quanto me parecia instigante, nos relatos dela, essa instabilidade como pressuposto para o espetáculo acontecer, esse imediatismo que confere ao todo a improbabilidade de um moto-contínuo. É, Fê… Foi bonito de ver.

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