Eu ando com muito medo de Virginia Woolf!!!

Posted in Dramaturgia, Teatro with tags on 10/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Uma peça anda me rondando a cabeça e me atolando a agenda nos últimos dias. Minha sorte é ser uma das peças mais bem escritas de todos os tempos, com personagens tão contundentes e reais que é impossível empurrar com a barriga a tarefa de fazer uma ceninha que seja desse texto. (Mesmo que seja apenas uma apresentação para um professor e o restante dos colegas de classe numa sala de aula lááá no alto das Laranjeiras…)

A peça é “Quem tem medo de Virgina Woolf?” (1962). Os personagens, George, Martha, Nick e Benzinho. O autor é Edward Albee, possivelmente o maior dramaturgo vivo, expoente do realismo americano da segunda metade do século XX.

Sobre Albee e o que ele pretende ao escrever para o palco, diga ele mesmo. Numa entrevista do ano passado, de que você pode ver um trecho aí embaixo, o autor volta a uma das metáforas mais didáticas – se não óbvias – para descrever qual a função do teatro em que ele acredita: teatro é espelho. Shakespeare já dizia isso pela boca de Hamlet e muitos repetiram isso ao longo dos séculos.

A diferença, no caso de Albee, é o que se enxerga no espelho. O espelho é  cristalino. E, ainda assim, mostra uma feiura, um azedume que muitas vezes a gente não tem estômago para enxergar.  A imagem às vezes é tão bruta que é fácil colocar a culpa no espelho, dizer que ele distorce, aumenta, entorta as coisas. Mas a verdade é que quem faz isso é quem está do lado de cá do vidro. É o nosso olhar sobre a vida real que muitas vezes ilude.

Em “Quem tem medo de Virgina Woolf?”, sem dó da platéia, Albee foi capaz de virar do avesso as expectativas do sonho americano – essa fórmula de enquadramento que prova por A + B se você é ou não feliz e bem-sucedido, sendo A o dinheiro e os bens e B o casamento e a família. Curioso, Albee lança mão justamente de um jogo de espelhos que confunde e exaspera os dois casais de personagens, que vivem quase uma propaganda de vodca em mão dupla: eu sou você amanhã, eu sou você ontem.

Não que Benzinho tenha qualquer chance de virar uma Martha… Talvez faltem-lhe quadris, para usar uma figura do texto. Nem que Nick, por mais inteligente que seja, vá alcançar o grau de sagacidade que se vê no sarcasmo de George. Além disso, Nick e Benzinho não são um casalzinho apaixonado e unido por um amor ainda fresco. Eles se conhecem há anos, casaram-se por uma certa conveniência e a relação dá sinais precoces de desgaste.  Mas ainda se iludem, ainda têm forças para manter trancado o baú de mágoas e ressentimentos que o tempo só faz abarrotar.

A diferença está no fato de que George e Martha já não enfeitam o que vêem. Não por acaso, a frase de abertura, pronunciada ao abrirem-se as portas daquela casa é um teatral:

– Que pocilga!

Talvez eles sintam falta do tempo em que ainda era possível se iludir. E talvez por isso tenham se entregado ao longo dos anos a um jogo particular de ilusão, a uma fantasia absoluta, mas vivida apenas na privacidade do casal. Tornada pública, a fantasia do filho cai na vala comum de todas as outras ilusões imprestáveis. Tornada pública, revela-se irremediavelmente como fantasia. Por isso, é preciso matá-la.

A cena que tenho pela frente – a da “guerra total” –  é uma das mais fortes da peça. (Aí em cima, o trecho, no filme de 1966, com Elizabeth Taylor e Richard Burton). Claro que não vai ficar realmente bom – por mais que eu tenha um ótimo parceiro de cena e por mais que seja uma delícia para quem estuda atuação ficar repetindo e repetindo essa cena um monte de vezes (né, Daniel?????) . Digamos que, sim, eu tenho medo de Virgina Woolf, de “screw” completamente a cena, só para usar uma palavra que a adaptação da peça para o cinema jogou nas grandes telas americans pela primeira vez.

Mas medo é pra se encarar.

Ao menos, uma coisa é certa: na intenção, a cena vai ficar verdadeira. Isso porque, nessas semanas de estudo, o teatro do senhor Albee vem cumprido muito bem, ao menos dentro da minha cabeça, o papel que o autor tanto pretende: não passar despercebido, não ser engolido com facilidade, não ser confortável.

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Shakespeare e La Barca, sonhos e delírios: umas divagações…*

Posted in Dramaturgia, História do teatro, Teatro with tags on 05/11/2009 by dramaticoblog

Análise comparativa do sonho em  “Sonho de uma noite de verão” e “A vida é sonho” 

(ou, um “prefácio”**)

 

Cilene Guedes  (cileneg@gmail.com)

 

Nascido de práticas religiosas dadas à alteração da consciência – embebido no vinho de Dionísio, embriagado pelo desvario de seu culto -, o teatro é, em essência, uma entrega a uma outra dimensão de realidade. O real, no teatro, é um não-ser, por um momento, para fazer-se de outra coisa. É uma ilusão. É sonho. Mas como os sonhos, tão ilusórios, carregam na sua fantasia verdades profundas sobre quem somos, o que sentimos e o que desejamos, o teatro, como arte, é um sonho lúcido, manipulável. É realidade suspensa, pendurada por uma corrente que prende platéia e ator: o pacto, sempre consciente, de emprestar os sentidos ao irreal. E (por que não?) ao sonho.

Titania and Bottom, de Henry Fuseli - 1790 (aproximadamente)

Com isso em mente, analisar por comparação dois dos mais importantes textos do teatro que coincidem justo na exploração do tema “sonho” torna-se quase um exercício de metalinguagem. De um lado, “Sonho de uma noite de verão”, uma das obras mais leves e espirituosos de William Shakespeare. De outro, “A vida é sonho”, a mais célebre peça de Pedro Calderón de La Barca, expoente, ao lado de Lope de Veja, de um período áureo do teatro espanhol.

“Sonho de uma noite de verão” foi concebida na última década do século XVI. “A vida é sonho”, ainda no início do século XVII. Apesar de inseridas num mesmo período histórico, as obras percorrem caminhos muito distintos na exploração de como o homem se relaciona ou pode se relacionar com sua capacidade de sonhar. Aqui, entenda-se sonho em seu sentido estrito, de atividade mental durante o sono, mas também como meta e objetivo, ou ainda como fantasia.  

A peça de La Barca se pauta na doutrina da predestinação. Segismundo nasceu para ser tirano e nada, em hipótese, poderia mudar seu caráter e destino. Vive isolado e acorrentado numa torre, sem conhecer sua condição de príncipe. Está preso à ilusão de que a vida é só aquilo – o que não deixa de ser um pesadelo. Seu pai, o rei Basílio, oscila entre o temor de ver o mau agouro cumprido e o desejo de, pela lógica, ter vencido a profecia, educando o filho da melhor maneira possível, por intermédio de seu nobre servidor Clotaldo. A maneira segura que o rei encontra de testar o caráter de Segismundo é trazê-lo ao mundo real durante o sono para que, se devolvido também dormindo, pudesse ser consolado pela ilusão de que tudo não passara de um sonho. Revelando-se tirano, como previsto, Segismundo é reconduzido à torre-prisão. Quando uma rebelião tenta libertá-lo e lhe dar o trono que Basílio já reservava a um estrangeiro, Segismundo entrega-se confuso ao que acha ser novamente um sonho. Conquista o trono, reconcilia-se com o pai e dá início ao que a obra dá a entender que será um reino de paz e justiça. Sentindo-se incapaz de distinguir sonho e realidade, Segismundo escolhe fazer o bem, temendo que qualquer ato de tirania o devolvesse a qualquer momento à torre e ao que seria sua condição real.

Shakespeare também explora o paralelismo de sonho e realidade, mas criando dois mundos que convivem: o mundo encantado das fadas e elfos e o mundo concreto dos reis, enamorados e pobretões. O mundo concreto desconhece a interferência do mundo encantado eu seus destinos – ou no mínimo o grau em que isso se dá. O mundo encantado diverte-se confundindo nos mortais a noção de realidade e sonho. A fantasia é tamanha que o público pode achar por onde compreender o todo da peça como um único sonho passado diante de seus olhos.

Em “A vida é sonho”, apesar do mote da predestinação, são os homens que decidem seus destinos. A trama se desenrola a partir de escolhas humanas e um alto grau de racionalidade. Basílio entende por ciência a astrologia em que se ampara para temer a tirania do filho. Na morte da mulher, encontra evidência dura de que as estrelas acertavam. E tanto não é religiosa sua relação com esse conhecimento, que Basílio por fim ousa ir contra o que diziam os céus, escolhendo testar se fez uma escolha justa ou não ao isolar o filho, pondo-o à prova numa experiência cuidadosamente controlada.

 Life is a Dream, Then You Wake Up

Até a tirania de Segismundo se explica humanamente. Por mais esforço que Clotaldo tenha feito para ensiná-lo o que é bom, a condição de cativo incubou em seu caráter um atroz desejo de domínio e vingança. Em última análise, a peça mostra, de maneira muito racional, que Basílio, tentando burlar a previsão, acabou por cumpri-la. Não tivesse o príncipe, preso à crença de estar sonhando, abandonado sua crueldade, e o destino teria na trama tratamento equiparável ao de uma tragédia grega.

Na obra de Calderón de La Barca, também é obra humana a manipulação dos sonhos. É Basílio quem urde o plano – Clotaldo o executa – que acaba por mergulhar a mente de seu filho na eterna incerteza de viver ou sonhar. Segismundo passa a viver dentro do que acredita ser um sonho consciente:  ele sabe (ou acha que sabe)  que tudo não passa de ilusão.

Claro que, dado o contexto histórico e artístico, não se pode compreender a peça de La Barca como uma ode à superioridade humana diante da instabilidade da vida. Muito ao contrário, é fruto da aceitação dessa incerteza – ainda que sem eximir o ser humano de responsabilidade. 

Na peça de Shakespeare, o homem se apequena, e seus sonhos se tornam joguetes. As paixões dos amantes oscilam ao sabor do desígnio do rei dos elfos  – e o servo executor aqui, é Puck, elfo/duente/goblin que se delicia com as traquinagens. Quando, após um troca-troca, dois jovens casais chegam à combinação que Oberon acha melhor, o encanto transforma a realidade (a confusão daquela noite) em sonho e em realidade uma ilusão (o amor instilado pela magia, não voluntariamente vivido). A rainha dos elfos é igualmente induzida a viver um pesadelo – apaixonar-se pelo tecelão-ator que ganhara cabeça de burro – e a acordar dele pensando que tudo não passara só de pesadelo mesmo. Ninguém a não ser Oberon e Puck em alguma chance de, na trama, distinguir sonho e realidade. Mas quando se vê que eles mesmos são seres de fantasia, o paradoxo se fecha gracioso. E ainda é completo pela encenação, dentro da peça, de um espetáculo teatral tão ruim que a ninguém diverte pela ilusão e, sim, pelo ridículo.

Nos personagens de Basílio e Oberon, encontram-se interessantes paralelos. Cabe aos dois o papel de manipuladores de sonhos. Oberon, ser encantado, aceita e promove a mistura de sonho com realidade. Basílio nem cogita que sonho e realidade se fundam: é um homem de ciência que cria as circunstâncias e mentiras que inventam para Segismundo um sonho. Um embate entre os dois revelaria algum vencedor? Quando vê que nas duas peças a opção dos autores é ressaltar o caráter ilusório da realidade, a balança pende para Oberon.

Pode-se dizer que, porque Segismundo se redime, Basílio foi bem-sucedido? Talvez não. O discurso febril do príncipe é uma admissão da condição intocável da verdade. E sua opção por fazer o bem é uma tentativa delirante de, a todo custo, não acordar de um sonho que não está tendo. Teria o racional Basílio ficado satisfeito com a incerteza na qual se ampara o bom comportamento de Segismundo? Basílio entrega ao filho o reino, sem que o espectador saiba ao certo se percebeu e aceitou em Segismundo o que bem poderia ser interpretado como loucura. Ou, no mínimo, uma algema frágil – em termos racionais – para seu ímpeto de tirano.

Oberon, por sua vez, daria os braços a Segismundo! Veria no desvario do príncipe uma profunda sabedoria, uma percepção superior da vida, segundo a qual tudo pode ser real – até os elfos! E tudo pode ser sonho. Não veria nisso prisão. O elfo-rei enxergaria no príncipe, quem sabe, um mortal à sua altura, corajoso o suficiente para não se importar com a diferenciação do que – mal sabem os homens – é indissociável.

Mas essas são apenas hipóteses. Suposições. Um exercício desse encontro de fantasia bem poderia divertir Puck – e talvez entreter uma platéia incauta e dada a entregar facilmente seus sentidos ao sonho.

 Novembro de 2009

 

*Este texto foi originalmente criado como trabalho para a disciplina História do Teatro II – do curso regular de formação de atores da CAL. A proposta de comparação foi do professor Daniel Schenker.

**Tendo curiosidade de saber prefácio do quê afinal de contas, é só abrir o PDF aqui. É work in progress. E está sendo muito divertido. Aceito sugestões e comentários a respeito.

Cortinas novamente abertas

Posted in Sem categoria on 04/11/2009 by dramaticoblog

Cilene Guedes (cileneg@gmail.com)

Após uns dias de silêncio e ainda à espera de quer o Ponto Dramático fique pronto…

Estamos de volta!

Nos posts dos próximos dias…

– A primeira montagem a gente nunca esquece: como foi estrear nas Satyrianas

– Teatro e/é sonho: um ensaio desvairado sobre o sonho em Shakespeare e La Barca

– SP escola de teatro:  você precisa conhecer esse projeto!

– Umas impressões sobre “Câmera”, “Viver sem tempos mortos”, “Deus é química” e mais…

 

See you.

Concurso cultural vale vaga em workshop com Robert Castle

Posted in Concursos, Cursos e oficinas, Teatro on 21/09/2009 by dramaticoblog

O site Teste de Elenco está promovendo um concurso cultural que dá vagas para um workshop com o ator e diretor Robert Castle, em São Paulo e no Rio.  Para participar é preciso gravar um vídeo encenando um pequeno monólogo. São dois trechos de peças de Tchekov (de “O Urso”, para atrizes, e de “Pedido de Casamento”, para atores).

Ano passado, Castle também ando por aqui dando oficinas, justo no período do Festival do Rio.

Professor por mais de 10 anos do Lee Strasberg Theatre Institute  em Nova York,  é um dos preparadores de elenco mais solicitados do mundo e tem uma constelação hollywoodiana de atores com quem trabalhou.

Concurso cultural

Concurso cultural

 

As vagas para São Paulo são para oficina que vai de 28 de setembro a 02 de outubro. No Rio, de 12 a 16 de outubro. Os prazos para inscrição são diferentes. Para o curso em São Paulo, até dia 24 (quinta-feira). Para o curso no Rio, até 4 de outubro. Importante: gente do Brasil todo pode participar, mas despesas com hospedagem e transporte ficam por conta do aluno.

‘Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!’ – antropofagia à moda Oficina

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , on 16/09/2009 by dramaticoblog

Por CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Antes de a peça começar, Zé Celso, autor, diretor e mestre de cerimônias do Oficina, pega o microfone para pedir aplausos. Não antecipados. Pede que se honrem figuras proeminentes do teatro, misturadas à platéia jovem que enche o Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio – onde se deu a estréia nacional da peça, neste mês. Não era questão de gentileza ou mera política de boa vizinhança do grupo que visitava a cidade, após uns dois anos. Era quase um prólogo, a enunciar que o tema da noite eram os grandes do teatro brasileiro. De outrora, é verdade. Anos 40 e 50. Mas nem por isso a longa noite madrugada adentro seria saudosista ou nostálgica. Ao contrário. “Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!” tem apelo para platéias mais jovens – especialmente os estudantes de artes cênicas -, não apenas pela enorme quantidade de informação histórico-poética sobre teatro e teatro brasileiro, mas pela irreverência e espontaneidade com que se apropria dessas informações.
 

Cacilda!!

Cacilda!!

Quando o espetáculo começa, o elenco está em cena e o clima, no figurino, nos telões e na trilha, é de Praia de Copacabana em tempos áureos. O público não percebe de cara, mas a entrada dele se dá através de cortinas que, durante o espetáculo, demarcarão um palco dentro do palco integral em forma de corredor largo, como costumam ter os espetáculos do Oficina. Cacilda Becker, jovem e sonhadora, emerge do centro da cena, após o público assistir ao último trecho da primeira peça da tetralogia, quando Cacilda parte de Santos para o Rio e São Paulo. Veja aí:
 

 
Nas seis a sete horas de encenação que se seguem, o público verá a personagem migrar também de coquete promissora a grande estrela do teatro, entregar-se a uma miríade de amores, dividir-se entre suas qualidades de anjo, vulcão e consciência, debater-se com as amarras do teatro de seu tempo e, enfim, parir o teatro moderno brasileiro, cuja maternidade é simbolicamente dividida com os personagens Estragão (de ‘Esperando Godot”, de Beckett), Mary Tyrone (de “Longa Jornada Noite Adentro”, De Eugene O’Neil) e Lúcia (de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues) – todos personagens que ela viveu em cena. A paternidade, de maneira um pouco mais prática, digamos assim, cabe ao encenador Zimbienski.
 
Referências ao teatro de todos os tempos estão espalhadas pela peça. Pura antropofagia. O filho de Cacilda é um Hamlet agressivo. Otelo cruza em cena com Grande Othelo, Jasão de uma Medéia real. Mary Tyrone vaga pelo palco no auge de sua trip de morfina, oferecendo o vestido de noiva para Cacilda, numa possível alusão à influência de O’Neil sobre Nelson. 
 
Cacilda!! conserva o tom de ópera carnavelesca de vários espetáculos do Oficina: grandioso, musical, festivo, pointiagudo, sexual, ritualizado… E inacabado. É cheio de arestas. Os atores principais ainda precisam de ponto. A luz falha. O letreiro no telão emperra. O figurino é vestido do avesso. O microfone atrapalha os atores. Zé Celso pára a cena para pedir correções. Entra no palco, interfere, dirige teatro como se fosse maestro diante de orquestra. O espetáculo inteiro pára para todos cantarem parabéns para a atriz principal, Anna Guilhermina, quando o relógio cruza meia noite. E tudo (in)acaba em festa.

Mas compreendo quem ache que, com menos horas e/ou mais precisão, o conjunto seria mais agradável. A sessão que vi começou às 19h e terminou à 1h.
 
Se é duro para o público, que dirá para a Anna Guilhermina, que raramente sai de cena. Sua Cacilda ainda tem muito de coquete. Ostenta um ímpeto juvenil que, imagino, apenas quem tenha conhecido a atriz nesses tempos poderia julgar fiel ou não à realidade. 

Não é dos espetáculos mais participativos do Oficina. A platéia é deixada quieta boa parte do tempo. Ao meu lado, colegas do curso de interpretação mal se continham de vontade de se lançar na brincadeira, que, dessa vez, ficou para o final, com batucada e dança.  (Mas vem mais Cacilda por aí. Os próximos espetáculos ainda não têm data de estréia, mas já têm tema definido: Cacilda no Teatra Brasileiro de Comédia, o TBC, e Cacilda em sua própria companhia, o Teatro Cacilda Becker.)

No fim das contas, Cacilda!!, no Rio, teve clima de ensaio geral.

Não por acasao, chama-se Oficina. Não Ateliê. Muito menos Escritório. É lugar de conserto, de ajuste constante. E é Oficina Uzyna, para de produção extensa, massiva. E é Oficina Uzyna Uzona, caótica, lasciva. Fica ainda mais divertido quando a gente sabe para onde está indo.

PS1: Pela duração da maratona e a profusão típica dos espetáculos do Oficina, obviamente uma infinidade de observações fica de fora de qualquer texto que se queira escrever sobre o espetáculo. Deixo-as para outros espectadores. 

PS2:Vai aí a ficha técnica (na verdade, um pedaço dela…)

 

Autoria
José Celso Martinez Corrêa e Marcelo Drummond

Direção
José Celso Martinez Corrêa

Elenco
Anna Guihermina
Acauã Sol
Adão Filho
Adriana Capparelli
Ana Abbot
Anthero Montenegro
Ariclenes Barrosso
Camila Mota
Cellia Nascimento
Fabianna Serroni
Freddy Allan
Hector Othon
Juliane Elting
Letícia Coura
Lucas Weglinski
Luiza Lemmertz
Marcelo Drummond
Marcio Telles
Mariano Mattos Martins
Naomy Scholling
Rodolfo Dias Paes (Dipa)
Sylvia Prado
Vera Barreto Leite

Músicos
Adriano Salhab
Guilherme Calzavara
Ito Alves
Marcos Leite
Rodrigo Jubeline
Zé Pi

Jude Law é Hamlet na Broadway. O fantasma ronda

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 11/09/2009 by dramaticoblog

Não vou tecer comentários. Não vou ter chance de ver a  peça. Mas, para quem talvez tenha chance desse prazer, fica o aviso. Jude Law estréia “Hamlet”, na Broadway, dia 6 de outubro. É no Broadhurst Theatre. A peça vem de Londres, com um monte de elogios da crítica. Reproduzo em inglês para respeitar o que restou da língua do bardo. 

“A CAPTIVATING, MODERN PRODUCTION. JUDE LAW’S SCINTILLATING PORTRAYAL GOES RIGHT TO THE MARROW.”  (Daily Express)

“A SWIFT, CLEAR, WELL-STAGED VERSION OF SHAKESPEARE’S MOST EXCITING PLAY.” (The Guardian)

 

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Jude Law é 'Hamlet'

Começo a sentir uma dó enorme de não poder tecer comentários. De não poder ver o espetáculo. Mas há de haver outras oportunidades de experimentar “Hamlet”. Até porque, é inevitável. 

“Hamlet”, a peça, é ela mesma um fantasma que fica rondando quem faz teatro, rondando e clamando por grandeza de atitude.

Em coisa de um ano, fui da leitura por puro prazer e curiosidade ao exercício escolar, mas fascinante, de interpretação de um minúsculo trecho. Entre um e outro, assisti à montagem de Aderbal Freire Filho, fiz uma prova teórica que exigia conhecimentos da obra, assisti a um documentário analítico da Royal Shakespeare Company sobre a história… E sem que houvesse grandes planos, ou que uma coisa tenha puxado a outra. Simplesmente aconteceu. O fantasma estava lá, na hora de sempre ou quando menos se esperava.

O pai-fantasma aqui, porém, não é o do príncipe, mas o da obra. O que Shakespeare tinha a dizer a quem se dedica ao teatro ficou cristalino em “Hamlet”. Como todo fantasma,  é uma voz do passado que fala no presente. E assusta.  Não só porque fala. Mas pelo que sabe. Sabe do que foi. E (arrepios!) parece continuar sabendo do que há. 

Para as suas revelações, serve o conselho do Livro das Revelações: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

“Peço uma coisa, falem essas falas como eu as pronunciei, língua ágil, bem claro; se é pra berrar as palavras, como fazem tantos de nossos atores, eu chamo o pregoeiro público pra dizer minhas frases. E nem serrem o ar com a mão, o tempo todo (faz gestos no ar com as mãos); moderação em tudo; pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – o que engrande-ce a ação. Ah, me dói na alma ouvir um desses lata-gões robustos, de peruca enorme, estraçalhando uma paixão até fazê-la em trapos, arrebentando os tímpanos dos basbaques que, de modo geral, só apreciam berros e pantomimas sem qualquer sentido. A vontade é man-dar açoitar esse indivíduo, mais tirânico do que Terma-gante, mais heródico do que Herodes. Evitem isso, por favor.”

Galpão vai encenar ‘Till’ nos Arcos e na Lagoa

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 04/09/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Num painel publicitário desses que cobrem os fundos das bancas de jornal topei com uma notícia das boas. O táxi passava rápido, mas quando meu olho raspou a palavra “Galpão”, o pescoço virou, num reflexo, para não perder o resto. Deu pra pescar: Grupo Galpão, Till, Lagoa, Arcos da Lapa, setembro.

Bingo!

'Till'

'Till'

Traduzindo depois de pesquisar:

A companhia de teatro Galpão, 27 anos de estrada, traz para o Rio neste mês seu novo espetáculo “Till, a saga de um herói torto”. O espetáculo, que bebe da fonte do teatro popupal medieval e foi concebido num processo que envolveu uma série de  consultas aos espectadores, será encenado ao ar livre, em dois dos cenários mais lindos da cidade e de graça. É um desses programas imperdíveis para quem quer arejar suas experiências como espectador de teatro (com o perdão do trocadilho embutido). Ou para quem jamais pisou num teatro e talvez nunca pise.

De 17 até 20, o palco será o Parque dos Patins.
Dias 24 e 25, será a vez dos Arcos da Lapa.

(No blog do elenco, Eduardo Moreira fala também de uma apresentação no dia 27, na Quinta da Boa Vista, mas ela não aparece na agenda do site do grupo)

Tudo de graça.

“Till Eulenspiegel”, de Luís Alberto de Abreu – autor, entre outros de “O Livro de Jó” – é de 1999. É um texto contemporâneo sobre um personagem folcórico germânico da Idade Média. A sinopse promete um desfile de tipos (a começar pelo personagem-título) que bem pode situar a obra como farsa medieval. A circunstância religiosa ainda reforça isso. Mas, na prática, o personagem comunica um tanto de Arlequim, Scapino, Macunaíma, João Grilo… E comunica com atualidade.

O pulo do gato é dar a um texto que bebe do medievo um ambiente fiel ao teatro popular medieval: é na rua e de graça, é aberto a todo tipo de intempérie e humor. A experiência certamente cria uma instabilidade que, imagino, pode ser aproveitada para enriquecer muito o espetáculo.
 
Sobre a rua desafiadora, Eduardo Moreira, integrante do grupo, resume no site do Galpão:  “Ela nos traz desafios de como apresentar o espetáculo para um público amplo e sem restrições de idade, classe social ou formação intelectual. Isso tem reflexos em todos os elementos de criação, como a dramaturgia, a cenografia, os figurinos e a música.”

A direção de “Till” é de Júlio Maciel. Cenário e figurinos são de Márcio Medina. A direção musical, de Ernani Maletta.

Para dar um gostinho, um pedaço da cena do parto, gravada pela platéia:

Pra ler mais sobre teatro medieval:

Teatro Medieval: tudo ao mesmo tempo agora

Duas pequenas jóias do teatro medieval