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Cacilda!! e O Banquete – Zé Celso + Oficina, no Rio

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , on 02/09/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDEs (cileneg@gmail.com)

Dois espetáculos trazem para o Rio neste início de mês o teatro de Zé Celso Martinez Corrêa. Para quem gosta dos espetáculos-rituais-celebrações-maratonas do Oficina, é chance imperdível, porque não é toda hora que o grupo baixa na cidade. E é aqui que “Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!” vai ter estréia nacional. De bônus, vai ser possível ver “O Banquete”, outra montagem recente da companhia paulistana. 

Explicar “Cacilda!!” já seria por demais difícil se eu tivesse visto o espetáculo. Sem ver, então…

Bom, vamos a uma tentativa de simplificar: é a segunda parte da história da atriz Cacilda Becker, que o Oficina vai contar em quatro espetáculos. Ou é uma parte da história da atriz Cacilda Becker como desculpa para lembrar uma geração inteira do teatro brasileiro. Mais ainda, a geração que, como diz o Oficina, “pariu o teatro brasileiro moderno”. A peça-musical se concentra nas grandes companhias, atores e autores dos anos 40, especialmente do palco, mas também fazendo referência ao rádio e ao cinema. 

"Cacilda!!"

"Cacilda!!"

Sobre o jeito da companhia de Zé Celso de fazer isso,  melhor citar, em vez de tentar explicar. Esses são trechos do release um bocado poético que está lá no site do Oficina. Curtam:

A ambição:

“Escrita e dirigida por José Celso Martinez Correa e Marcelo Drummond, CACILDA!! estréia no Rio de Janeiro para despertar a primavera em nosso corpo de multidão, como aconteceu com a Tropicália em 1967, no mundo inteiro em 1968 e nos anos 40, com a geração de Cacilda Becker.  Mesmo durante a segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, tempo em que se passa a peça, no Rio de Janeiro, capital do Brasil, renascia a Primavera no corpo da geração que pariu a Cultura e o Teatro Brasileiro Moderno.”

Roteiro e encenação:

“Cacilda aos 20 anos de idade, chegava à Cidade Maravilhosa, onde um Coro imenso de protagonistas renascia na Arte de Dionísios nos Trópicos do Hemisfério Sul: Vila Lobos, Oscar Nyemeyer, Lina Bardi, Oswald e Mário de Andrade, da Cinédia, da Atlântida, as Escolas de Samba do Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga, os Artistas da Rádio Nacional que inventaram a Era de Ouro, do Samba, do Baião.

“O público entra pelas clássicas cortinas vermelhas de um Teatro, com saindo dos bastidores desta Arte. Nós e público brincamos então com o bebezinho ainda, teatro moderno brasileiro.

“A peça inicia-se com a cena de Cacilda saindo da Central do Brasil, dando continuidade ao 1º Ato de Cacilda! para o Rio de Janeiro. (…) vemos passar a vida de Cacilda Becker nos Anos 40 em meio a todas as personagens que movimentavam o Brasil e o mundo nessa época (…) as Cantoras do Rádio, Jean Sablon, cantor da 2º Guerra, recém chegado ao Brasil no Porto de Santos, escapado da captura da França pelos nazistas. O jovem repórter Tito Fleury, que na peça namora, noiva e se casa, quando faz “ O Vestido de Noiva”, o próprio Nelson Rodrigues, Grande Othelo, Ziembinski, Bibi Ferreira, Dona Alzira e a atriz Cleyde Yaconis…”

“As Cartas de Cacilda constituem o roteiro…”

“A peça tem como um dos pontos mais marcantes a intimidade dos bastidores, ensaios na vida e nos palcos, telas, rádios, dos mortais, que construíram antes de nós, essa delícia que vivemos hoje a da vida de artista.  É o teatro sendo teatro do teatro…”

Bom, por esse panorama, dá para perceber que a coisa promete ser uma aula imperdível para quem estuda teatro. Basta entregar-se àquele modo Oficina de contar suas histórias, que às vezes vira uma massaroca humana de cor, fúria, verbo, música, carne e fluidos corporais… Tudo estendido por horas e horas. Mas horas intensas. 

O elenco:

Anna Guilhermina – que atuou em”Vento Forte para um Papagaio Subir” , “Cypriano y Chantalan ” , “Os Bandidos”, de Shiller, e “As Bacantes” e que quase pariu em cena durante uma das apresentações de “Homem 1”, parte da maratona de “Os Sertões” – é a Cacilda que conduz o espetáculo. Luisa Lemmertz e Ana Abbot também interpretação a atriz.

“Bibi Ferreira estará em Camila Mota e Rita Hayworth em Sylvia Prado. As demais atrizes cantoras em cena são: Adriana Capparelli, Adriana Viegas, Cellia Nascimento, Fabianna Serroni, Juliane Elting, Letícia Coura, Naomy Scholling e Vera Barreto Leite.”

“O elenco masculino é formado por Marcelo Drummond que além de co-escrever e dirigir interpreta Ziembinsk, atuando ao lado de Acauã Sol, Adão Filho, Anthero Montenegro, Ariclenes Barroso, Freddy Allan, Lucas Weglinski, Márcio Telles, Mariano Mattos Martins, Rodolfo Dias Paes.”

(Veja a ficha técnica completa aqui)

 

Sobre “O Banquete”, recomendo o vídeo que a Marcia Abos gravou com ele para “O Globo”:  http://oglobo.globo.com/cultura/video/2009/12898/default.asp

 

Serviço:

ESTRELA BRAZYLEIRA A VAGAR – CACILDA!! (duas exclamações)

5, 6, 7, 12 e 13 de setembro, às 18 horas, no Espaço Tom Jobim, dentro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.
Custa R$ 40
Clientes do Cartão Petrobras, com acompanhante, pagam a meia.
O Banquete
9 e 10 de setembro, às 20 horas, Espaço Tom Jobim, Jardim Botânico
Custa R$ 40
Clientes do Cartão Petrobras, com acompanhante, pagam a meia.

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Fernando Bohrer volta ao palco com “Câmera”

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , , , on 18/08/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Vai ter fila de aluno e ex-aluno da CAL na porta. Um dos professores mais queridos da Casa de Artes de Laranjeiras, encarregado de dar o primeiro e decisivo empurrão nos estudantes  do primeiro período do curso profissionalizante de ator, vai voltar ao palco. E com toda vida e experiência de Fernando Bohrer, a gente sabe que ele encararia qualquer clássico com segurança. Pois não é para isso que ele está voltando a atuar, não. O professor está fazendo o que ensina copiosamente aos alunos: está se jogando.

O monólogo “Câmera” é o resultado de um processo altamente experimental de concepção de texto e construção de personagem. Não quero estragar surpresas, nem sei até que ponto convém falar.  Mas o que posso dizer é que o olho do Fernando brilhava que nem criança com brinquedo novo quando ele abria o caderninho com o texto que vinha co-escrevendo ou co-inventando com a jovem Pangéia cia.deteatro.  E o olho faiscava quando ele comentava a dificuldade de se comunicar com a realidade de um personagem cuja fala é construída num idioma (?!) obscuro para todos. Inclusive para ele. O processo não permitu uma interação verbal articulada e racional – como se dá até no mais banal dos papos ou na mais básica das leituras teatrais.  E essa loucura toda deixava o Fernando quase no escuro, mas quicando de uma ansiedade tão motivadora que contagiava só de ouvir.

Na peça, mestre Fernando Bohrer faz um pianista. E toca – o que certamente amplificou seu prazer no processo.

“Câmera” estréia dia 5 de setembro, no Gláucio Gil, e é a terceira parte de uma “Trilogia do espaço”.

Por enquanto, deixo vocês com o teaser: uma entrevista com o pianista Lvyon Kersch.

Reflexões de Antonio Fagundes

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro on 12/08/2009 by dramaticoblog
 

MÁRCIA ABOS (marciaabos@gmail.com)
 
Na coletiva para apresentar a peça “Restos” à imprensa, Antonio Fagundes estava muito simpático. Chegou numa sala de conferências da Faap cumprimentando todos os repórteres e fotógrafos e não quis se sentar na mesa. Evitou a formalidade e sentou-se no chão mesmo, pedindo aos jornalistas que se aproximassem. O gesto do ator, diretor e produtor deu o tom do bate-papo.
 
Fagundes contou que passou três anos sem atuar nos palcos. Nesse período, leu diversos textos dramáticos – incluindo Shakespeare e Moliére -, mas se apaixonou pelo monólogo “Restos” do norte-americano Neil LaBute.

– É uma linda história de amor que não é contada de forma tradicional. Além disso a dramaturgia de Neil LaBute tem sempre um jogo que nos surpreende – resumiu Fagundes, fazendo mistério sobre a tremenda reviravolta que a peça dá no final.

Fagundes vive um viúvo que reflete não somente sobre sua vida, um cigarro após o outro, mas, principalmente, como ele a transformou. Ora relatando o profundo amor, ora a grande perda, sugere uma intimidade com o espectador pela franqueza de seu depoimento, ao mesmo tempo em que se torna profundamente provocador, sem se afastar da temática central, que é universal. Seu personagem tece comentários sobre uma sociedade muitas vezes propensa à confissão pública e relatos emocionais, mais interessado em evidenciar como se pode dar forma ao próprio destino do que como ele pode moldar as pessoas.

Fagundes contou que está documentando os ensaios e bastidores da montagem e pretende colocar na internet vídeos que mostrem o processo de criação.

– Mostrar os bastidores é uma coisa que sempre quis fazer, mas antes da internet era muito complicado – disse.

Para montar o monólogo de Fagundes, há mais de 40 pessoas trabalhando.

– Às vezes acho que o público chega no teatro e pensa que estamos improvisando ao ver tudo pronto – explica Fagundes sobre seu desejo de mostrar que não é bem assim, colocar uma peça de pé leva meses de trabalho.

Sobre a escolha de textos, o processo de Fagundes é ler muito e selecionar o que cause impacto, sem se preocupar a priori com uma agenda. E depois sua busca é reproduzir em todo o processo de trabalho as emoções que teve na leitura inicial.

– É um texto impactante e quero preservar esse impacto.

O tarimbado ator revelou que ainda sofre de nervosismo em véspera de estreia.

– Fico muito nervoso. Com 43 anos de profissão, você sabe as possibilidades de erro e acerto e lidar com o acaso é um terror. Tudo que queríamos de bom está reunido, mas pode dar errado.

Comunicar-se com a platéia é sempre o objetivo central de Fagundes.

– Tenho necessidade de me comunicar com o público. Teatro antes de ser arte e cultura, é comunicação. Estou me dirigindo ao maior número de pessoas. Penso no ‘Seu José’ e ‘Dona Maria’ passando em frente ao teatro, que resolvem entrar para se abrigar da chuva e assistem à peça.

Mas a busca por se comunicar com todos não significa simplificar.

– Dar algo mastigado só afasta o público. Gosto de peças nas quais quem sai do espetáculo converse sobre ele nos cinco minutos de caminhada até o estacionamento.

Fagundes contou que gosta muito de teatro: chega a assistir de 70 a 80 espetáculos por mês.

– Vou a meia-noite se estiver trabalhando. Vejo teatro em ordem alfabética. 

Sobre textos de novos autores, Fagundes explicou que encontra dificuldades de aproximação, uma vez que não são peças publicadas e nem sempre cópias chegam a sua mão.

A diversidade do teatro em São Paulo foi elogiada por Fagundes, que lamentou o fato da cena carioca viver de ondas.

– Em São Paulo o público se exercita e torna-se mais sensível a mudanças. Semana passada tive o trabalho de contar e há 105 peças em cartaz no momento, dos gêneros mais diversos. No Rio há ondas: do musical, do besteirol, etc. Fica mais difícil para o público encarar algo diferente.

Conhecido por sua extrema pontualidade – quem chega atrasado aos espetáculos de Fagundes não entra e não tem direito a trocar o ingresso ou pedir o dinheiro de volta – o ator explicou suas razões.

– O público sempre foi disciplinado. A imensa maioria chega antes do horário. Digamos que 1.190 chegam no horário e 10 se atrasam e entram fazendo muito barulho. Resolvi peitar esses 10.

Para Fagundes, a crítica teatral no Brasil é “uma ação entre amigos”.

– Raríssimas pessoas lêem uma crítica de teatro. Fica uma ação entre amigos. Se falam bem de mim fico contente, ou fico bravo se falam mal e fica por isso mesmo. Não tem sentido a crítica se não houver repercussão. Não me lembro de nenhuma crítica tirar ou colocar um espetáculo em cartaz. É a indicação dos amigos que leva 90% do público.

P.S. Escrevi para o site do Globo um texto sobre a mesma coletiva. Fagundes falou que preferiu não captar recursos via lei Rouanet. Para ler, clique aqui.

SERVIÇO

RESTOS – Com Antonio Fagundes. Teatro FAAP – Rua Alagoas, nº 903 – Higienópolis, São Paulo, SP. Estreia 20/08/2009. Temporada até 29 de novembro. Horários: Quintas e Sextas, às 21h, Sábados, às 20h, e Domingos, às 18h. Site: http://www.faap.br/teatro Bilheteria: Quarta à Sexta, das 14h às 20h, sábado, das 14h às 19h, domingo, das 14h às 17h. Telefones: 11 – 3662-7233 ou 11 – 3662-7234. Preços: R$ 100. Capacidade: 506 lugares. Classificação Etária: 12 anos/ Duração: 70min. Infra-estrutura: Acesso para deficientes físicos e ar-condicionado. Vendas para grupos:  11 – 3437-5308

Chegue ao teatro com 30 minutos de antecedência; o espetáculo começa rigorosamente no horário marcado, não haverá troca de ingressos ou devolução de dinheiro em caso de atraso.

FICHA TÉCNICA

“Restos”, de Neil LaBute, com Antonio Fagundes
Tradução: Clarisse Abujamra
Encenação: Marcio Aurelio
Cenário: André Cortez
Figurinos: Ricardo Almeida
Assistente de Direção: Lígia Pereira
Assistente de Produção: Bruno Fagundes
Direção de Produção: Marga Jacoby
Realização: Fagundes Produções Culturais

Prepare-se: vem aí ‘A falecida vapt-vupt!’, de Antunes Filho

Posted in Espetáculos, Estreias, História do teatro, Teatro on 07/08/2009 by dramaticoblog

MÁRCIA ABOS – (marciaabos@gmail.com)

Estreia em 14 de agosto, às 21h, no Sesc Consolação,  ‘A falecida vapt-vupt!’, uma montagem do texto clássico de Nelson Rodrigues do Grupo Macunaíma de Teatro e do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), sob direção de Antunes Filho.

A visão de Antunes sobre as peças de Nelson Rodrigues costuma lançar novas luzes sobre a ainda obscura (incompreendida) obra de um dos maiores dramaturgos brasileiros.

Suas montagens de textos de Rodrigues influenciaram grandes encenadores, tais como Gabriel Villela, que recentemente dirigiu “Vestido de noiva” e revelou ser ‘herdeiro’ de Antunes.

Antunes já dirigiu em 1981 “Nelson Rodrigues, o eterno retorno” (Beijo no Asfalto, Os Sete Gatinhos, Álbum de Família e Toda Nudez Será Castigada), em 1984, “Nelson 2 Rodrigues” (Toda Nudez Será Castigada e Álbum de Família), em 1989, “Paraíso Zona Norte” (A Falecida e Os Sete Gatinhos ) e em 2008, “Senhora dos Afogados”.

Entrevistei Antunes Filho quando, depois de 19 anos, ele resolveu voltar a Nelson Rodrigues e dirigiu “Senhora dos afogados“. Uma frase do encenador ajuda a entender porque ele revolucionou a compreensão do universo rodrigueano:

“Quando comecei a fazer Nelson em 1965, seu teatro era tratado como comédia de costumes. Há a comédia de costumes, mas abaixo da superfície fervem os mitos”.

“A Falecida” foi escrita por Nelson Rodrigues em 1953 e inicia a fase chamada pelo crítico brasileiro Sábato Magaldi de Tragédias Cariocas, nas quais o dramaturgo se debruça sobre a realidade do homem comum do subúrbio do Rio de Janeiro.

O enredo é simples: Zulmira, mulher frustrada do subúrbio carioca e vítima de tuberculose deseja ter um enterro de luxo como redenção de sua precária condição. E surge daí uma peça magistral.

Abaixo, por sua importância, reproduzo na íntegra o texto de Antunes Filho sobre a montagem:

Sobre a porta de entrada na sala de ensaios do CPT há uma inscrição com as seguintes palavras de Kazuo Ohno:

De maneira nenhuma, pode-se dizer que não haja nada num palco vazio, num palco que se pise de improviso. Pelo contrário, existe ali, um mundo transbordante de coisas. Ou melhor, é como se do nada surgisse uma infinidade de coisas e de acontecimentos, sem que se saiba como e quando.

Não consigo ficar imune a devaneios com as palavras de David Bohm em seu livro “A totalidade e a ordem implicada – Uma nova percepção da realidade” :

“ a ordem implicada é particularmente adequada para o entendimento dessa totalidade ininterrupta no movimento fluente, pois na ordem implicada a totalidade da existência está dobrada dentro de cada região do espaço (e do tempo). Portanto, qualquer que seja a parte, o elemento ou o aspecto que possamos abstrair no pensamento, ele ainda envolve o todo dobrado em si e, por conseguinte, está intrinsecamente relacionado à totalidade (totality) de onde foi abstraído. Assim, a totalidade (wholeness) permeia tudo o que está sendo discutido, desde o começo.”

E conclui logo adiante: 

“Num organismo vivo cada parte cresce no contexto do todo, de modo que não existe independentemente, nem pode dizer que meramente “interage” com outras, sem que ela própria seja essencialmente afetada nessa relação.”

Instintivamente, em escala bastante reduzida, mas de maneira, creio, não inadequada, sou levado, por extensão, ao dobrado, às sobreposições que o cinema desde Méliès e a televisão depois (novelas, publicidades nos intervalos, etc…) exploram há muito tempo. Isso sem falar das notáveis imagens paralelas realizadas pela vídeo arte, manifestação que é considerada hoje a mais importante e contemporânea das artes.

Como se isolar ou isolar qualquer coisa na situação em que vivemos, bombardeados por todos os flancos com acontecimentos e informações hiper-reais? Os esbarrões e cotoveladas que se leva numa cidade tão populosa como São Paulo, os trilhões de celulares com seus torpedos e musiquinhas personalizadas que tocam aqui, ali, a todo momento, o fax, a internet com seus sites e blogs, etc, o ônibus que passa bloqueando a visão, a velha que sorri num cartaz na traseira do ônibus, satisfeita com seu novo cartão de crédito, placas e outdoors coloridos com mil ofertas, alguém sendo assaltado que mal avistamos, as interrupções comerciais em meio à dramática novela da TV: o carro último tipo subindo no topo do Everest, o helicóptero que com seu vôo fantástico resvala uma antiguíssima caravela pirata e num estupendo corte vemos a bordo caixas de um tradicional rum, a criança chorando na cozinha.

A nossa atenção, portanto a nossa consciência é bombardeada por todos os lados.

Não se consegue mais ter uma imagem isolada, pura, cristalina, sem todas essas interferências. O enamorado não consegue pensar em sua amada se não tiver um carro, um refrigerante em sobreposição. Vivemos absolutamente carregados de imagens e informações.

“A Falecida Vapt Vupt!” de Nelson Rodrigues é um espetáculo que pretende experimentar alguns ângulos dessa nova percepção e tornar aquilo que parece improvisado, uma interferência sem sentido, feio, anti-estético, numa componente fixa e significativa. Estar aberto a insólitas relações. 

Quando com dificuldade não conseguimos entender ou ver claramente um acontecimento, seja em lugar público, entre ombros e cabeças, ou num espetáculo teatral, a nossa imaginação vem sempre nos socorrer preenchendo os vazios.

Antunes Filho

E não resito a reproduzir também um texto da atriz Natalie Pascoal. Acho um barato o processo profundo de pesquisa do CPT. Esses textos são sempre uma ferramenta poderosa para nós, espectadores, que podemos, graças às informações neles contidas, aprofundar o nível de leitura do espetáculo.

“Um Turbilhão de Imagens”

Assim como os textos de Nelson Rodrigues quebram com o entendimento comum da realidade, contendo uma diferente noção de tempo, espaço, causa e efeito e buscando o homem no macro, na sua essência, a encenação de Antunes Filho para a peça “A Falecida” não poderia ser diferente. Ele coloca a vida caótica e entrecortada como o fulcro da estética da peça, que vem como inovação de todos os seus trabalhos já realizados. A proposta traz misturas de tempos e espaços, fazendo com que aos olhos do público se transforme em um verdadeiro holograma, como se fossem folhas de transparências sobrepostas umas nas outras.  Personagens dividem o palco sem interagirem: se cruzam e não se olham, falam ao mesmo tempo e não se escutam, uma cena imbrica na outra e como pano de fundo, um bar , assim como um visto nas ruas, cheio de clientes, especialmente em um dia de calor, é mantido em cena durante toda a peça indicando uma teia temporal e espacial. Cada integrante deste bar traz consigo uma história e um caráter não desenvolvido e devidamente exposto, mas que está, de alguma maneira, presente o tempo todo e apenas a indicação destes seres já proporciona à peça um universo de realidades múltiplas convivendo juntas num mesmo espaço, o palco. Em meio a este bar, surgem os ambientes da peça demarcados somente pelas ações das personagens que transitam se destacando do mesmo modo que uma estampa colorida em um tecido preto e branco, podendo ser elas, desta forma, uma representação de todos que nele estão, como se Zulmira, Tuninho, Timbira, fossem uma daquelas pessoas sentadas naquele e em tantos outros bares. Diante de tantas informações sonoras e visuais, o público como expectador, ou até como parte integrante de todo o cenário, terá sua atenção “sacudida” e será levado de um acontecimento ao outro sem que perceba e sem que tenha tempo de análises.

Ao mesmo tempo em que aparentemente tudo se coloca de forma simples e corriqueira, feito apenas com algumas mesas, cadeiras e atores, um turbilhão de imagens, sensações e movimentações ocorre na encenação que aparece como imagem da vida cotidiana onde somos bombardeados por tanta informação: seja na rua, quando estamos andando e milhares de coisas estão acontecendo a nossa volta como um assalto, uma pessoa gargalhando, carros passando, criança chorando; ou, seja em ambientes fechados, onde temos a televisão que é uma fonte de informações rápidas que podem mudar com um simples toque no controle remoto ou por um corte de comercial. Somos rodeados por tantas coisas que não temos tempo de aprender e olhar para nenhuma delas, quando focamos em algo logo somos interrompidos, cortados. Vivemos viciados em um dia-a-dia frenético, percebemos tudo e nada ao mesmo tempo, não se tem mais caminhos a percorrer, não se tem mais tempo nem distância, tudo acontece ao mesmo tempo, tudo está pronto e ao nosso alcance em um “piscar de olhos”. Participamos muitas vezes de ações que não são de vontade própria, que não são nossas, mas sim de interferências que acabam sendo incorporadas e que dão a ilusão de uma autenticidade. Comemos à frente da televisão, falando ao telefone e anotando algo sem perceber que estamos picotando nossa vivência de sensações. A completude de cada momento não existe mais, até mesmo nossos sonhos, nosso poema, são entrecortados e viciados pelo que vivemos, não temos mais espaço para criar e voar em nossa imaginação e nem sentir o que está tão próximo de nós.

Natalie Pascoal – Atriz do Grupo Macunaíma de Teatro

Chega a dar coceira de tanta vontade de assistir, né? O jeito é esperar mais uma semana!

Para terminar e saber mais sobre o encenador, uma short bio de Antunes Filho, de autoria crítico Sebastião Milaré:

Nascido em São Paulo, em 1929, Antunes Filho destacou-se em meio à primeira geração dos encenadores modernos do Brasil. Dirigindo grandes nomes da cena nacional, consolidou seu prestígio com espetáculos marcantes como “Yerma”, de García Lorca (1962), “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade (1964), “A Cozinha”, de Arnold Wesker (1968), “Peer Gynt”, de Ibsen (1971). Alcançou projeção internacional a partir de 1978 com a adaptação teatral do “Macunaíma”, de Mário de Andrade.

No decorrer do processo de adaptação e criação de “Macunaíma”, Antunes passou a sistematizar uma série de recursos técnicos para o ator, que havia descoberto ao longo de sua trajetória, buscando atualizar e adequar técnicas criativas, de várias escolas, à realidade cultural e ambiental do ator brasileiro.

Em 1981 realizou “O Eterno Retorno”, composto por quatro peças de Nelson Rodrigues, introduzindo como ferramentas teóricas do sistema a psicologia analítica, de Jung, e elementos da filosofia das religiões. Desse modo, o Grupo de Teatro Macunaíma desdobrou-se em companhia teatral e núcleo de estudos e pesquisas dramáticas, atraindo centenas de jovens atores sempre que se abriam testes de admissão. E assim uma importante escola de teatro começou a se configurar em São Paulo.

Em 1982 o SESC – Serviço Social do Comércio criou na sua unidade da Consolação o CPT – Centro de Pesquisa Teatral, entregando a direção a Antunes Filho e abrigando como núcleo principal o Grupo de Teatro Macunaíma.

A partir daí a pesquisa sobre técnicas de ator e estéticas cênicas se aprofundaram de modo surpreendente. Sempre inquieto, Antunes Filho buscou recursos em todas as áreas do conhecimento – incluindo a nova física – para fundamentar e consolidar seu processo criativo. Com o decisivo apoio do SESC, conseguiu sistematizar o método para o ator, enquanto criava repertório dos mais expressivos e brilhantes do teatro contemporâneo. Todavia, suas investigações estéticas continuam, como continua seu trabalho prospectivo sobre as técnicas já sistematizadas.

A concepção cênica de Antunes Filho capta um universo em contínuo movimento, correspondendo a um sistema interpretativo e criativo e buscando expressão nova, sempre à luz de novas teorias além de orientar, desde 1977, o “Prêt-à-Porter”, cenas que os próprios atores do CPT/ SESC escrevem, dirigem e atuam.

Recentemente a TV Cultura exibiu retrospectiva dos teleteatros realizados por Antunes Filho naquela emissora, na década de 1970. A retrospectiva revelou um momento de extraordinária criatividade, como poucas vezes a televisão brasileira viveu. Também no cinema Antunes Filho marcou presença, com a direção do longa-metragem ”Tempo de Espera” (1975), obra sobre alienação e racismo.

Entre os inúmeros prêmios recebidos em sua carreira figuram as mais importantes honrarias que destacam o talento do intelectual e artista brasileiro, entre os quais o Prêmio Multicultural Estadão, além de prêmios internacionais, como o concedido pela Associação Internacional de Críticos Teatrais, o prêmio de melhor diretor – Poeta da Cena – do Festival de Montreal e o Gallo de Oro, concedido pela Casa das Américas, de Cuba.

 Ficha técnica

“A falecida vapt-vupt!”, de Nelson Rodrigues.

Direção: Antunes Filho

Elenco:

Adriano Bolshi (Dr.Borborema/Pimentel)

André de Araújo (Torcedor/Crente Teofilista)

Andrell Lopes (Pai/Torcedor)

Angélica Colombo (Madame Crisálida/Mãe)

Bruna Anauate (Zulmira)

Cida Rodrigues (Crente Teofilista)

Eloísa Costa (Crente Teofilista)

Erick Gallani (Torcedor/Cunhado/Chofer)

Fred Mesquita (1º Funcionário)

Geraldo Mário (2º Funcionário)

João Paulo (Garçom)

Lee Thalor (Tuninho)

Marcos de Andrade (Timbira)

Michelle Boesche (Glorinha/Vizinha)

Tatiana Lenna (Cunhada/Vizinha/Torcedora)

Ygor Fiori (Torcedor/Crente Teofilista/Mordomo)

Participação das Mesas: Babu Rodrigues, Carol Meinerz, Fernando Aveiro, Natalie Pascoal, Osvaldo Gazoti, Rober Caligari, Roberto Borenstein, Rosângela Ribeiro, Rubens Gonçalves,Walter Granieri

Assistência de Direção: Michelle Boesche e Erick Gallani

Cenário e Figurinos: Rosângela Ribeiro

Assistência de Cenografia: Daniel Maeda, Eliane Pincov, Luara de Paula, Rober Caligari e Carla Massa

Costura: Noeme Costa

Iluminação: Davi de Brito

Assistência de Iluminação: Edson FM e Ederson Duarte

Operação de Luz: Davi de Brito e Edson FM

Fundo Sonoro: Raul Teixeira

Hino Teofilista: André de Araújo

Preparação de Corpo e Voz: Antunes Filho

Produção Executiva: Emerson Danesi

Secretaria CPT: Cleide Macedo e Rodrigo Audi

Uma co-produção CPT – Centro de Pesquisa Teatral, SESC e Grupo de Teatro Macunaíma (São Paulo, Brasil)

Serviço

Estreia em 14 de agosto. Temporada, até 12 de dezembro. Sextas às 21h e sábados às 19h e às 21h, no SESC CONSOLAÇÃO. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel: 11 3234-3000. Espaço CPT (sétimo andar). 70 lugares. Duração: 60 minutos. Recomendado para maiores de 12 anos. Preço: R$ 10 (inteira).

‘A gaivota’ do Piollin pousou no Rio

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , , on 07/08/2009 by dramaticoblog

O grupo paraibano Piollin está encenando sua versão de “A Gaivota”, no Rio, nesta semana. Vi o espetáculo em março do ano passado, no Festival de Teatro de Curitiba. Na ocasião, escrevi para o blog Viajandão, do site do Globo, sobre o forte que o texto me causara. Já não concordo com tudo o que escrevi. Mas não custa ser honesta com a memória.

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Recupero aqui o texto. Espero que ajude a quem se interessar em ir ver o espetáculo.

‘A gaivota’ de cada um

28 de março de 2008

Faz cinco dias que entrei numa livraria à procura de uma versão de bolso de “A Gaivota”. Não havia. O vendedor se ofereceu para me mostrar uma edição cara e linda. Fui pronta para matar a curiosidade e resistir à tentação. Caí como um pato. Bastou ver o livrinho para esquecer o preço – umas quatro vezes o que eu pagaria num Folio…

Na capa da belíssima edição da Cosac & Naify, lá estão todos os meus novos fantasmas camaradas: o elenco inteiro da primeira montagem da peça pelo Teatro de Arte de Moscou. A cena parece cuidadosamente urdida. Todos conversam uns com os outros, displicentemente. Deve ter sido Stanisláviski que dirigiu a fotografia. Ele, aliás, também está lá, divertindo parte do grupo com alguma observação espirituosa e agora intangível. Todos fingem não perceber a câmera. Menos o autor. Doutor Tchekhov está lá, óculos no rosto, me encarando.

Bem, que posso dizer, muito prazer…

Com avidez para não perder significados ocultos na história, fui direto ao posfácio de Rubens Figueiredo, de quem também é a tradução. Para aprender antes de ler. Para ler identificando pistas. Aprendo um bocado sobre o quanto doutor Tchekhov foi inicialmente inseguro com sua peça e o quanto sua obra, um dos marcos do teatro mundial, foi subestimada nas primeiras apresentações – que não foram as da trupe de Stanisláviski. Numa carta escrita pouco antes de encerrar o texto, ele descreve a peça como uma violação displicente a todas as convenções vigentes do teatro, com “muita conversa sobre literatura, pouca ação e cinco arrobas de amor”. Logo depois de encerrar o texto, diz que a peça apenas confirmava que ele era “um dramaturgo medíocre”.

Mas a perturbação de Tchekhov não me soa a capricho ou busca por adulação. Ele realmente não parece ter clareza da dimensão de sua obra. O tempo, às vezes, ajuda.

Devorei um quarto do livro voltando para casa. Outro quarto no avião que dois dias depois me trouxe para Curitiba. E lá foi minha imaginação, imergindo naquela paisagem do lago, na vida campestre da Rússia pré-revolucionária, nos artistas de alma torturada e hábitos levemente preguiçosos, nos egos inflados, esmagados, ou os dois, tudo descrito com uma delicadeza e uma simplicidade de falas que atordoam. (Como ele consegue?)

Foi com tudo isso na cabeça que saí da estação-tubo de ônibus (uma dessas que é a cara tudo-em-seu-devido-lugar de Curitiba), e entrei no Teatro Paiol para ver “A Gaivota – alguns rascunhos”, uma experimentação do Piollin. Trata-se do veterano grupo veterano de teatro de João Pessoa, formado em 1977, que ganhou reconhecimento mundo afora com “Vau de sarapalha” e revelou artistas como Luiz Carlos Vasconcelos.

A construção, poucos anos mais nova que a peça, é de 1906. Era um depósito de pólvora. Sua aparência circular lembra mais uma fortificação, como se uma imensa torre de castelo tivesse sido enterrada ali, apenas com o topo à mostra. Nos anos 70, o Paiol virou teatro. Um belo teatro que, dependendo do espetáculo, rouba a cena. Desta vez, havia história suficiente para prender a atenção dos dois jeitos.

Entro na arena à procura do meu lugar no gargarejo. (Aprendi a gostar do gargarejo e da liberdade de encarar os atores bem de perto durante as cenas.) Os atores já estão no palco, um círculo de madeira cravado no chão. Vestem roupas confortáveis em tons pastéis, de cortes desimportantes. Parecem roupas de ficar em casa. Vejo os cinco, sentados ou deitados no chão, em dois grupos, conversando aparentemente alheios. Umas banquetas. Umas frutas. Uns papéis. Um aquário com dois peixões coloridos. Passo os olhos naquilo tudo e, juro, “A Gaivota” já estava toda lá, resumida naquela pré-cena. (Tudo mesmo. Até um exemplar da edição que estou lendo… “A Gaivota” que me custou umas boas 32 pratas lá está, jogada no chão. Ouviria a mesma tradução que lia, só que com outro sotaque.)

E é mesmo isso o que o grupo faz ao longo de todo o espetáculo. Reduz, em busca de essência. Pinça da obra de Tchekhov seis dos personagens e trechos-chave dos atos. A impressão é de que a diretor – Haroldo Rego, que também assina a adaptação – trabalhou como um chef quem reduz um molho no fogo brando. Depois de depurada e apurada, “A Gaivota” foi ainda claramente diluída em vivências pessoais do grupo.

Como a peça de Tchekhov é uma dupla declaração de amor ao teatro e à escrita – mesmo quando deixa entrever os aspectos mais torturados de ambas as artes – não é de se estranhar o tom pessoal que a encenação adquire. Ora parece que eles falam sério, ora que é só brincadeira ou ilusão, quando interrompem a peça para contar do apego a uma caixa de remédios, dos medos doentios, da relação com a mãe. Também não dá para saber se é sério ou sem querer quando eles hesitam no texto, como se para entregar o fato de que aquelas palavras não lhes pertencem, já são do mundo do teatro e eles apenas as entregam de volta, via vento.

As soluções cênicas são simples e desapegadas do realismo da obra. Os laços afetivos que nos unem, emaranham e imobilizam são representados por um imenso elástico que os atores esticam e cruzam em todas as direções. A gaivota morta por motivo nenhum em pleno vôo é esse elástico quando frouxo e amontoado. O lago virou aquário. E a angústia do jovem escritor que busca reconhecimento é entregue de cara, bem no início da peça, quando o personagem (ou o ator?), com um saco plástico na cabeça, liga um ventilador no rosto. O plástico primeiro se apega ainda mais ao rosto, quase entra pela boca. Depois se desprende e voa.

A escolha do Piollin por montar “A Gaivota”, que já viaja pelo Brasil desde 2006, foi, segundo eles, para romper com a tendência dos grupos nordestinos de dedicarem-se quase exclusivamente aos temas regionais. Ao mesmo tempo em que desafiavam a noção de que cabe apenas aos grupos do Sul e Sudeste encenar grandes clássicos. Assim, Tchekhov ali fala cantando, sim – ao que minha audição etnocêntrica (perdoem, mas quem não sucumbe a isso de vez em quando?…) agarrou-se incomodamente.

Mas para quem estava bem no meio do livro, o que mais chocou e agradou foi a interpretação de Arkádina, a atriz madura, meio egocêntrica, altiva e ainda assim carente. A imagem de Arkádina na minha cabeça, claro, era a das fotos do livro. Uma mulher de uns quarenta e poucos, cheinha como era bonito na época, ares de diva num vestidão elegante. Pois não é que lá estava ela, em toda a sua pose, vestindo uma túnica surrada, calças compridas de pescador, uma echarpe vinho e um broche de borboleta… Tudo isso num corpo magro e careca de um homem de idade?… Mas era ela, sem dúvida, na pele do maravilhoso Everaldo Pontes (“A pedra do reino”, “Abril despedaçado”).

Repetindo aqui, não sou crítica. Então não se pode levar a sério demais o que digo que gosto ou que não gosto. E por isso mesmo posso falar (sem medo de que isso tenha quaisquer más conseqüências – sou inofensiva!) que, no conjunto, as interpretações foram irregulares, umas mais distanciadas do que as outras e a do protagonista solta, porque bem menos distanciada, bem mais ardente, entre elas.

E como as vivências pessoais de repente pareceram ainda mais divertidas e agradáveis de ouvir do que o próprio Tchekhov, talvez um pouco mais de Tchekhov, pra valer, em toda a sua carga, tivesse dado mais densidade ao espetáculo.

Hoje, diante do rio calmo que cruza a cidadezinha histórica de Morretes (a três horas de trem de Curitiba), terminei “A Gaivota”. Enquanto lia, achava graça. Dento da minha cabeça, meus fantasmas-camaradas agora tem um certo sotaque paraibano. (Fecha o pano)

 

Serviço:

‘A gaivota’ – Caixa Cultural, Teatro Nelson Rodrigues. Av. República do Chile 230, Centro. Tel: 2262-0942. De qua (05.08) a dom (09.08), 20h. R$ 10

Foto de divulgação

Estreia sexta-feira ‘Nunzio’, de Spiro Scimone, no Espaço Maquinaria

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , on 07/08/2009 by dramaticoblog

Convite para a estreia de 'Nunzio'

 

Spiro Scimone nasceu em 1964 em Messina, Sicília. Estudou numa escola de teatro em Milão, onde representou peças de Beckett, Mrozek e Havel ao lado de Francesco Sframeli.

Em 1994 escreveu a primeira peça, “Nunzio”, que foi adaptada para o cinema no filme “Due Amici” (2001) – ganhador do Festival de Veneza de 2002. Após Nunzio, Spiro escreveu “Café”, “A Festa” e “Il Cortile” .

Segundo os principais críticos teatrais europeus, as principais características encontradas nas peças de Spiro Sciomone são influências das observações de paradoxo cotidiano e na linguagem ágil do cinema mudo, com uma atmosfera de filme noir.

De acordo com a definição do crítico Franco Quadri, do jornal italiano La Repubblica, Spiro Scimone é a versão siciliana do dramaturgo britânico Harold Pinter.

Mais, muito mais sobre esta montagem, no site do Teatro de Narradores