Archive for the Espetáculos Category

Para salvar a Praça Roosevelt

Posted in Debates e encontros, Dramaturgia, Espetáculos, História do teatro, Teatro on 06/12/2009 by dramaticoblog

Por Márcia Abos (marciaabos@gmail.com)

Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo.

Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público.

Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar.

Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo).

Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro…

P.S. Em tempo, na noite deste domingo, 21h, os Parlapatões organizam um ato para a recuperação de Mário Bortolotto e em repúdio à violência. Vamos lá? Leia a convocação no ParlapaBlog

Anúncios

Dezembro vai ficar apertado…

Posted in Espetáculos, Teatro on 04/12/2009 by dramaticoblog

Cilene Guedes (cileneg@gmail.com)

Termina segunda-feira um período intenso… Começa outro. As férias serão para ler e ver muito teatro. Abaixo, a longa lista do que eu não vi e gostaria de ver. Algumas coisas estão em cartaz há muito tempo, então acho que este mês será minha última chance. Se alguém tiver mais dicas da cena teatral do Rio para dezembro, por favor, manifeste-se. E se alguém já estiver por dentro de algum espetáculo imperdível que estreie em janeiro, abra o coração… As informações são do Guia OFF e da Veja Rio.

ALÉM DO ARCO-ÍRIS Luciana Braga brilha na pele de Rita, atriz abalada pela morte do marido, um diretor teatral com quem foi casada durante 26 anos. O texto é delicado, inteligente e de identificação imediata com a plateia. Luciana divide o palco com Luciano Borges, no papel de um faz-tudo do casal. Sua discreta presença conduzirá o espectador a um final inesperado. De Flávio Marinho. Direção do autor. (80 min) Teatro Municipal Maria Clara Machado – Planetário da Gávea . Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Até dia 20. R$ 30,00 e R$ 10,00 (campanha Teatro para Todos)

A CASA de Diego de Angeli, Emanuel Aragão e João Marcelo Iglesias. Drama. A relação do homem com os espaços públicos e privados. Uma família se reúne para relembrar histórias, na véspera da chegada do patriarca, construindo uma casa dos sonhos. Com Daniel Kristensen, Gabriel Salabert, Gabriela Carneiro da Cunha e Izadora Mosso Schettert. Dir. Diego de Angeli. Centro Cultural Justiça Federal. Qua e qui, 19h. R$20. 14 anos. Até 17/12.

CLANDESTINOS texto e dir. João Falcão. Comédia. Baseada nas histórias de jovens artistas que vieram para o Rio de Janeiro em busca da grande chance. Com Cia. Instável de Teatro. (90min). Teatro do Leblon. Ter e qua, 21h. R$30. 12 anos.

CORTE SECO Terceira parte da trilogia iniciada com o monólogo Conjugado, e seguida por A Falta que Nos Move, o drama desenvolve a ideia de que o curso da vida pode ser interrompido a qualquer momento. Seja por um acidente, uma revelação, um crime ou mesmo um fato banal. Diante dessas situações, a diretora “edita” a peça a cada sessão, mudando a ordem das cenas e as cortando em pontos diferentes. Com a Cia. Vértice de Teatro e Eduardo Moscovis, Thereza Piffer, Felipe Abib, Ricardo Santos, Stella Rabello, Branca Messina e Leonardo Netto. (100min) Espaço Cultural Sérgio Porto.  Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. Até dia 20. R$ 30,00 e R$ 10,00 (campanha Teatro para Todos)

OS DIFAMANTES de Martha Mendonça e Nelito Fernandes. O poder da mídia e as ilusões que ela fabrica. Com Emílio Orciollo Netto e Maria Clara Gueiros. Dir. Ernesto Piccolo. (90min). Teatro dos Grandes Atores. Sex e sab, 21h; dom, 20h. R$60 (sex e dom) e R$70 (sab). 12 anos. Até 20/12.

FARSA DA BOA PREGUIÇA de Ariano Suassuna. Comédia Musical. Personagem nordestino que explora, com versos, suas habilidades: a preguiça e sua relação com as mulheres. Com Guilherme Piva, Bianca Byington, Ernani Moraes, Daniela Fontan, entre outros. Dir. João das Neves. (120min). Teatro Carlos Gomes. Qui a sab, 19h30; dom, 19h. R$30. Livre. Até 13/12.

GORDA de Neil LaBute. Uma história de amor onde não há ciúme, nem traição. Um amor que tem como maior obstáculo a discriminação sutil e a covardia de se enfrentar preconceitos. Com Fabiana Karla, Michel Bercovitch, Mouhamed Harfouch e Flávia Rubim. Dir. Daniel Veronese. (90min). Teatro das Artes. Qui a sab, 21h30; dom, 20h. R$60 (qui e dom), R$70 (sex) e R$80 (sab). 14 anos. Até 20/12. Retorna 07/01.

A HISTÓRIA DE NÓS 2
de Licia Manzo. Comédia. Diferentes facetas de um mesmo homem e uma mesma mulher, que juntos vivem uma relação. Com Alexandra Richter e Marcelo Valle. Dir. Ernesto Piccolo. (75min).Teatro Vannucci. Qui, 17h30 e 21h30; sex, 21h30; sab, 20h e 21h30; dom, 20h. R$50 (qui), R$60 (sex e dom) e R$70 (sab). 12 anos. Até 27/12.

O HOMEM DA TARJA PRETA de Contardo Calligaris. O texto traz para o palco uma questão da vida moderna: não é fácil ser homem! Com Ricardo Bittencourt. Dir. Bete Coelho. (70min). Teatro do Leblon. Ter e qua, 21h. R$40. 16 anos. Até 16/12.

O INTERROGATÓRIO de Peter Weiss. Reflexão sobre os horrores aos quais somos passíveis. Durante a apresentação, com duração de seis horas, o espetáculo possui pequenas grandes pausas onde o espectador terá inteira liberdade para entrar, assistir, sair e voltar quando quiser. Com Alexandre Varella, Xando Graça, Carla Ribas, entre outros. Dir. Eduardo Wotzik. Espaço Tom Jobim. Dias 04, 05 e 06; 18h. R$1,50. 14 anos.

KABUL Depois de abordar o conflito entre israelenses e palestinos em Dragão, a Cia Amok Teatro ambienta no Afeganistão o segundo espetáculo de uma trilogia sobre guerra. Em uma Cabul devastada, quatro personagens buscam sentido para suas vidas: Madji, comerciante que perdeu sua posição social; Zunaira, proibida de exercer a profissão; Tariq, combatente mutilado que se tornou carcereiro, e sua esposa Maryam, vítima de doença incurável. (80 min) Casa Amok. Sexta e sábado, 20h30; domingo, 19h. Até domingo (13). Ingresso: R$ 10,00. É necessário fazer reserva 3283-0340

LARANJA AZUL A dinâmica entre um jovem negro esquizofrênico e dois psiquiatras num sanatório londrino. Com Rogério Froes, Rocco Pitanga e Pedro Brício. Dir. Guilherme Leme. (85min). Centro Cultural Banco do Brasil. Qua a dom, 20h. R$10. 14 anos.

A MÁQUINA DE ABRAÇAR O autor espanhol assina este drama sobre a história real da autista que criou para si a máquina do título. Em cena estão Mariana Lima, como a autista Íris, e Marina Vianna, no papel da terapeuta Miriam Salinas. Diretora estreante, a atriz Malu Galli imprimiu ritmo dinâmico à sessão. Em um dos melhores trabalhos de sua carreira, Mariana Lima faz uma composição sensível de Íris, com gestual impecável, modulações precisas na voz e nenhuma afetação. Sua companheira de cena brilha como a terapeuta empenhada em minimizar os sintomas de uma vida condenada à solidão. (80 min) Espaço Tom Jobim – Antiga Marcenaria; Quinta e domingo, 19h; sexta e sábado, 21h30.  R$ 30,00. Até dia 13

AS MENINAS de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes. Comédia Dramática. O universo feminino, em meio a uma série de dúvidas e observações típicas da infância. Com Analu Prestes, Clarisse Derzié Luz, Sara Antunes, Patrícia Pinho e Vanessa Gerbelli. (80min). Sesc Tijuca. Sex a dom, 20h. R$16. 12 anos. Até 20/12.

O QUE RESTOU DO SAGRADO de Mário Bortolotto. Uma reflexão sobre a existência de Deus. Com Grupo Tartufaria de Atores. Dir. Jaime Leibovitch. (60min). Casa da Glória. Qui a sab, 21h. R$20. 18 anos. De 03 a 19/12.

O SANTO INQUERITO de Dias Gomes. A lenda sobre uma jovem que foi queimada na Paraíba em 1750, vítima da Inquisição. Com Claudio Mendes, Karan Machado e Mariana Mac Niven. Dir. Amir Haddad. (100min). Espaço Sesc. Qui a sab, 21h; dom, 19h30. R$16. 12 anos. Até 20/12.

Começou o mês dos ingressos a preço popular no Rio

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 19/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Questão de utilidade pública.  Começou hoje a venda da temporada de preços populares no Rio. Sessenta e oito espetáculos aderiram à campanha “Teatro para todos” neste ano. Os ingressos vão custar de R$ 5 a R$ 25. Os postos de venda aparecem na imagem abaixo.

Estão na lista espetáculos que já são sucesso popular há tempos. Muita coisa que já atraiu  multidões ao teatro para aquela gargalhada relazada. Entre os quais: “Como passar em concurso público”, “Minna mãe é uma peça”, “Lente de aumento” e “Nós na Fita”. Muitos que também fizeram sucesso noutra faixa de humor, como “A História de nós 2”, “Clandestinos”, “Farsa da boa preguiça”, “Os difamantes”. Entre os drama, estão la “Inveja dos Anjos” e “O zoológico de vidro”. E há “Gorda”, que talvez fique num incômodo – e por isso mesmo interessante – limiar.

A campanha é da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro .

Se você tem um daqueles amigos que faz o gênero “Vá ao teatro – mas não me chame, porque é muito caro”, aproveite para carregá-lo. Dá até pra dar ingresso de presente!

Pra saber mais vá até: http://www.teatroparatodos.com.br/

PS.: Valeu a dica, Nina.

“Agora!” – uma viagem ao outro hemisfério do teatro de improviso

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , on 11/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Um certo tipo de teatro de improviso – às vezes mais show de humor do que teatro – floresceu nos últimos anos e conquistou platéias gigantescas. O fenômeno, paralelo à popularização da stand-up comedy, se alimenta da criatividade de espetáculos como “Z.É. (Zenas Emprovisadas)” e  “Improvável“. Quem já viu “Whose line is it any way” (ainda passa em algum canal??) nem precisa de explicação sobre do que se trata. Pra quem não viu, como explicar?…

É um jogo. Tem regras definidas aos olhos do público. Os atores são os jogadores. Há um convidado, normalmente também ator, que atua ora como apresentador, ora como árbitro. O desafio imposto aos atores é encenar de improviso situações criadas a partir de algum tipo de interação com o público – o que acaba resultando numa série de esquetes (??) concebidas a toque de caixa e apresentadas de uma maneira mais ou menos convencional.

A massificação de todo tipo de tendência cultural costume produzir resultados de qualidades variáveis. É natural. Do pouco que vi desse tipo de teatro, porém, não posso resumir minhas impressões de outra forma: eu me diverti horrores!!!! Chorei de rir!!!

AGORA!_CASADAGLÓRIA

Agora!

Num outro hemisfério do improviso, porém, está “Agora!”. Esse faz rir. E chorar. E chocar. E surpreender. Depende… O espetáculo está em cartaz na Casa da Glória, aos sábados. Foi concebido e é dirigido pela Claudia Mele, que conheci numa sala de aula da CAL (aquela casa lááá no alto das Laranjeiras…), tentando explicar ao longo de um período inteiro, pra 30 neófitos do curso de atuação, que raios é o tal método viewpoints! Sim, ela tentava arduamente… Primeiro, com palavras. Diante das caras de interrogação, mais umas palavras. Depois de mais caras de interrogação, ela desistia e partia para a ação. Quer dizer, nós partíamos, tentando fazer o que não tínhamos entendido bem. Mas, não por acaso, isso era aula de preparação corporal, não de compreensão de texto… O que passara reto acima da cabeça e da nossa capacidade racional de compreender, era rapidamente capturado quando, em vez da mente apenas, a gente usava o corpo todo. Não que a gente acertasse sempre. Pelo contrário. (E não sei de onde a Claudia tirou tanta paciência…). Mas ficou algo no corpo. Algo forte. Uma janela aberta para um estado de percepção do espaço, do tempo e do outro que é capaz de produzir imagens poéticas, fortes, inusitadas e até engraçadas. Tudo de improviso.

Para não ficar devendo uma explicação decente do que seja o método viewpoints, tema de interesse de muita gente boa – a Cia dos Atores e Henrique Diaz, por exemplo – transcrevo o que diz a Claudia na descrição de um curso que ela vai dar.

“Viewpoints é definido como um sistema de improvisação que oferece caminhos que permitem ao artista cênico a percepção e melhor compreensão da dimensão psicofísica de suas ações e da sua relação com o espaço, com o outro e com o grupo. Através de um trabalho relacional de tempo/espaço o ator desenvolve a sua percepção, memória, atenção, escuta, sensibilização além do estado de prontidão para a ação no momento presente.”

Boiou? Afunde. Fazendo.

Ou vá num sábado deste mês, às 19h, na Casa da Glória, ver o que Claudia, uma trupe de atores, bailarinos, atores -bailarinos e músicos estão aprontando em 50 minutos contados de improviso e poesia. Há mais do que viewpoints ali, mas o método é a base. Não espere o riso fácil dos espetáculos de improviso mais populares. Mas a rapidez e a sagacidade dos atores podem render gargalhadas. Bem como a sensibilidade pode fazer você puxar o lenço. (A Claudia mesma quase puxou, no fim da estréia, lembrando sua fonte de inspiração, “A farra dos atores”.)

Também há regras. Também há jogos. Também há temas centrais. E os motes também partem da imprevisível participação da platéia, a quem os atores-bailarinos fazem, bruscamente, perguntas de uma profundidade desconcertante. (Não vou adiantar nenhuma delas. Só confesso que, por um certa vergonha que em si me dá vergonha – pois é, vai entender?… – , menti descaradamente quando indagada sobre um dos temas… Improvisei, digamos assim!)

Mas o corpo do espectador e sobretudo do ator-bailarino-músico, em “Agora”, é tão importante quanto a palavra. Talvez até mais. E o conjunto de atores-bailarinos-músicos se relaciona não apenas porque troca e complementa piadas entre si e com o público, mas porque tenta ocupar o espaço e o tempo como uma massa viva única, que se faz e se desfaz a todo instante, usando o público, muitas vezes como seu suporte. (Preste atenção que, no flyer, um sinal de adição ocupa o espaço entre os nomes. Se foi sem querer, foi verdadeiro ainda assim.)

Se dá sempre certo como espetáculo? Se sempre funciona como teatro e entretenimento? Não tenho a menor idéia! É improviso, ora bolas! Só sei que, naquela tarde-noite do sábado passado, “naquele agora”, digamos assim, funcionou para mim e para uma platéia amistosa que encarou o calor saariano com bravura para ver aquela máquina mover-se, dissolver-se, recompor-se…

Acompanhei o espetáculo nascer pelos relatos esporádicos de Fernanda Huffel, colega da CAL e nova na trupe. Lembro do quanto me parecia instigante, nos relatos dela, essa instabilidade como pressuposto para o espetáculo acontecer, esse imediatismo que confere ao todo a improbabilidade de um moto-contínuo. É, Fê… Foi bonito de ver.

‘Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!’ – antropofagia à moda Oficina

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , on 16/09/2009 by dramaticoblog

Por CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Antes de a peça começar, Zé Celso, autor, diretor e mestre de cerimônias do Oficina, pega o microfone para pedir aplausos. Não antecipados. Pede que se honrem figuras proeminentes do teatro, misturadas à platéia jovem que enche o Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio – onde se deu a estréia nacional da peça, neste mês. Não era questão de gentileza ou mera política de boa vizinhança do grupo que visitava a cidade, após uns dois anos. Era quase um prólogo, a enunciar que o tema da noite eram os grandes do teatro brasileiro. De outrora, é verdade. Anos 40 e 50. Mas nem por isso a longa noite madrugada adentro seria saudosista ou nostálgica. Ao contrário. “Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!” tem apelo para platéias mais jovens – especialmente os estudantes de artes cênicas -, não apenas pela enorme quantidade de informação histórico-poética sobre teatro e teatro brasileiro, mas pela irreverência e espontaneidade com que se apropria dessas informações.
 

Cacilda!!

Cacilda!!

Quando o espetáculo começa, o elenco está em cena e o clima, no figurino, nos telões e na trilha, é de Praia de Copacabana em tempos áureos. O público não percebe de cara, mas a entrada dele se dá através de cortinas que, durante o espetáculo, demarcarão um palco dentro do palco integral em forma de corredor largo, como costumam ter os espetáculos do Oficina. Cacilda Becker, jovem e sonhadora, emerge do centro da cena, após o público assistir ao último trecho da primeira peça da tetralogia, quando Cacilda parte de Santos para o Rio e São Paulo. Veja aí:
 

 
Nas seis a sete horas de encenação que se seguem, o público verá a personagem migrar também de coquete promissora a grande estrela do teatro, entregar-se a uma miríade de amores, dividir-se entre suas qualidades de anjo, vulcão e consciência, debater-se com as amarras do teatro de seu tempo e, enfim, parir o teatro moderno brasileiro, cuja maternidade é simbolicamente dividida com os personagens Estragão (de ‘Esperando Godot”, de Beckett), Mary Tyrone (de “Longa Jornada Noite Adentro”, De Eugene O’Neil) e Lúcia (de “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues) – todos personagens que ela viveu em cena. A paternidade, de maneira um pouco mais prática, digamos assim, cabe ao encenador Zimbienski.
 
Referências ao teatro de todos os tempos estão espalhadas pela peça. Pura antropofagia. O filho de Cacilda é um Hamlet agressivo. Otelo cruza em cena com Grande Othelo, Jasão de uma Medéia real. Mary Tyrone vaga pelo palco no auge de sua trip de morfina, oferecendo o vestido de noiva para Cacilda, numa possível alusão à influência de O’Neil sobre Nelson. 
 
Cacilda!! conserva o tom de ópera carnavelesca de vários espetáculos do Oficina: grandioso, musical, festivo, pointiagudo, sexual, ritualizado… E inacabado. É cheio de arestas. Os atores principais ainda precisam de ponto. A luz falha. O letreiro no telão emperra. O figurino é vestido do avesso. O microfone atrapalha os atores. Zé Celso pára a cena para pedir correções. Entra no palco, interfere, dirige teatro como se fosse maestro diante de orquestra. O espetáculo inteiro pára para todos cantarem parabéns para a atriz principal, Anna Guilhermina, quando o relógio cruza meia noite. E tudo (in)acaba em festa.

Mas compreendo quem ache que, com menos horas e/ou mais precisão, o conjunto seria mais agradável. A sessão que vi começou às 19h e terminou à 1h.
 
Se é duro para o público, que dirá para a Anna Guilhermina, que raramente sai de cena. Sua Cacilda ainda tem muito de coquete. Ostenta um ímpeto juvenil que, imagino, apenas quem tenha conhecido a atriz nesses tempos poderia julgar fiel ou não à realidade. 

Não é dos espetáculos mais participativos do Oficina. A platéia é deixada quieta boa parte do tempo. Ao meu lado, colegas do curso de interpretação mal se continham de vontade de se lançar na brincadeira, que, dessa vez, ficou para o final, com batucada e dança.  (Mas vem mais Cacilda por aí. Os próximos espetáculos ainda não têm data de estréia, mas já têm tema definido: Cacilda no Teatra Brasileiro de Comédia, o TBC, e Cacilda em sua própria companhia, o Teatro Cacilda Becker.)

No fim das contas, Cacilda!!, no Rio, teve clima de ensaio geral.

Não por acasao, chama-se Oficina. Não Ateliê. Muito menos Escritório. É lugar de conserto, de ajuste constante. E é Oficina Uzyna, para de produção extensa, massiva. E é Oficina Uzyna Uzona, caótica, lasciva. Fica ainda mais divertido quando a gente sabe para onde está indo.

PS1: Pela duração da maratona e a profusão típica dos espetáculos do Oficina, obviamente uma infinidade de observações fica de fora de qualquer texto que se queira escrever sobre o espetáculo. Deixo-as para outros espectadores. 

PS2:Vai aí a ficha técnica (na verdade, um pedaço dela…)

 

Autoria
José Celso Martinez Corrêa e Marcelo Drummond

Direção
José Celso Martinez Corrêa

Elenco
Anna Guihermina
Acauã Sol
Adão Filho
Adriana Capparelli
Ana Abbot
Anthero Montenegro
Ariclenes Barrosso
Camila Mota
Cellia Nascimento
Fabianna Serroni
Freddy Allan
Hector Othon
Juliane Elting
Letícia Coura
Lucas Weglinski
Luiza Lemmertz
Marcelo Drummond
Marcio Telles
Mariano Mattos Martins
Naomy Scholling
Rodolfo Dias Paes (Dipa)
Sylvia Prado
Vera Barreto Leite

Músicos
Adriano Salhab
Guilherme Calzavara
Ito Alves
Marcos Leite
Rodrigo Jubeline
Zé Pi

Jude Law é Hamlet na Broadway. O fantasma ronda

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 11/09/2009 by dramaticoblog

Não vou tecer comentários. Não vou ter chance de ver a  peça. Mas, para quem talvez tenha chance desse prazer, fica o aviso. Jude Law estréia “Hamlet”, na Broadway, dia 6 de outubro. É no Broadhurst Theatre. A peça vem de Londres, com um monte de elogios da crítica. Reproduzo em inglês para respeitar o que restou da língua do bardo. 

“A CAPTIVATING, MODERN PRODUCTION. JUDE LAW’S SCINTILLATING PORTRAYAL GOES RIGHT TO THE MARROW.”  (Daily Express)

“A SWIFT, CLEAR, WELL-STAGED VERSION OF SHAKESPEARE’S MOST EXCITING PLAY.” (The Guardian)

 

HAMLET-blast_2c

Jude Law é 'Hamlet'

Começo a sentir uma dó enorme de não poder tecer comentários. De não poder ver o espetáculo. Mas há de haver outras oportunidades de experimentar “Hamlet”. Até porque, é inevitável. 

“Hamlet”, a peça, é ela mesma um fantasma que fica rondando quem faz teatro, rondando e clamando por grandeza de atitude.

Em coisa de um ano, fui da leitura por puro prazer e curiosidade ao exercício escolar, mas fascinante, de interpretação de um minúsculo trecho. Entre um e outro, assisti à montagem de Aderbal Freire Filho, fiz uma prova teórica que exigia conhecimentos da obra, assisti a um documentário analítico da Royal Shakespeare Company sobre a história… E sem que houvesse grandes planos, ou que uma coisa tenha puxado a outra. Simplesmente aconteceu. O fantasma estava lá, na hora de sempre ou quando menos se esperava.

O pai-fantasma aqui, porém, não é o do príncipe, mas o da obra. O que Shakespeare tinha a dizer a quem se dedica ao teatro ficou cristalino em “Hamlet”. Como todo fantasma,  é uma voz do passado que fala no presente. E assusta.  Não só porque fala. Mas pelo que sabe. Sabe do que foi. E (arrepios!) parece continuar sabendo do que há. 

Para as suas revelações, serve o conselho do Livro das Revelações: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

“Peço uma coisa, falem essas falas como eu as pronunciei, língua ágil, bem claro; se é pra berrar as palavras, como fazem tantos de nossos atores, eu chamo o pregoeiro público pra dizer minhas frases. E nem serrem o ar com a mão, o tempo todo (faz gestos no ar com as mãos); moderação em tudo; pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade – o que engrande-ce a ação. Ah, me dói na alma ouvir um desses lata-gões robustos, de peruca enorme, estraçalhando uma paixão até fazê-la em trapos, arrebentando os tímpanos dos basbaques que, de modo geral, só apreciam berros e pantomimas sem qualquer sentido. A vontade é man-dar açoitar esse indivíduo, mais tirânico do que Terma-gante, mais heródico do que Herodes. Evitem isso, por favor.”

Galpão vai encenar ‘Till’ nos Arcos e na Lagoa

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 04/09/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Num painel publicitário desses que cobrem os fundos das bancas de jornal topei com uma notícia das boas. O táxi passava rápido, mas quando meu olho raspou a palavra “Galpão”, o pescoço virou, num reflexo, para não perder o resto. Deu pra pescar: Grupo Galpão, Till, Lagoa, Arcos da Lapa, setembro.

Bingo!

'Till'

'Till'

Traduzindo depois de pesquisar:

A companhia de teatro Galpão, 27 anos de estrada, traz para o Rio neste mês seu novo espetáculo “Till, a saga de um herói torto”. O espetáculo, que bebe da fonte do teatro popupal medieval e foi concebido num processo que envolveu uma série de  consultas aos espectadores, será encenado ao ar livre, em dois dos cenários mais lindos da cidade e de graça. É um desses programas imperdíveis para quem quer arejar suas experiências como espectador de teatro (com o perdão do trocadilho embutido). Ou para quem jamais pisou num teatro e talvez nunca pise.

De 17 até 20, o palco será o Parque dos Patins.
Dias 24 e 25, será a vez dos Arcos da Lapa.

(No blog do elenco, Eduardo Moreira fala também de uma apresentação no dia 27, na Quinta da Boa Vista, mas ela não aparece na agenda do site do grupo)

Tudo de graça.

“Till Eulenspiegel”, de Luís Alberto de Abreu – autor, entre outros de “O Livro de Jó” – é de 1999. É um texto contemporâneo sobre um personagem folcórico germânico da Idade Média. A sinopse promete um desfile de tipos (a começar pelo personagem-título) que bem pode situar a obra como farsa medieval. A circunstância religiosa ainda reforça isso. Mas, na prática, o personagem comunica um tanto de Arlequim, Scapino, Macunaíma, João Grilo… E comunica com atualidade.

O pulo do gato é dar a um texto que bebe do medievo um ambiente fiel ao teatro popular medieval: é na rua e de graça, é aberto a todo tipo de intempérie e humor. A experiência certamente cria uma instabilidade que, imagino, pode ser aproveitada para enriquecer muito o espetáculo.
 
Sobre a rua desafiadora, Eduardo Moreira, integrante do grupo, resume no site do Galpão:  “Ela nos traz desafios de como apresentar o espetáculo para um público amplo e sem restrições de idade, classe social ou formação intelectual. Isso tem reflexos em todos os elementos de criação, como a dramaturgia, a cenografia, os figurinos e a música.”

A direção de “Till” é de Júlio Maciel. Cenário e figurinos são de Márcio Medina. A direção musical, de Ernani Maletta.

Para dar um gostinho, um pedaço da cena do parto, gravada pela platéia:

Pra ler mais sobre teatro medieval:

Teatro Medieval: tudo ao mesmo tempo agora

Duas pequenas jóias do teatro medieval