Archive for the Dramaturgia Category

Para salvar a Praça Roosevelt

Posted in Debates e encontros, Dramaturgia, Espetáculos, História do teatro, Teatro on 06/12/2009 by dramaticoblog

Por Márcia Abos (marciaabos@gmail.com)

Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo.

Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público.

Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar.

Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo).

Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro…

P.S. Em tempo, na noite deste domingo, 21h, os Parlapatões organizam um ato para a recuperação de Mário Bortolotto e em repúdio à violência. Vamos lá? Leia a convocação no ParlapaBlog

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O tempo, os Conways e trinta e poucos iniciantes apaixonados

Posted in Dramaturgia, Teatro on 02/12/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Sabe esses amores que não começam com fogos de artifício hormonais? O coração não dispara, não há arrepios, soluços, engasgos… Esses afetos que começam velados até para quem ama e vão se descortinando aos poucos. No prazer da conversa, no aconchego da rotina. Revelam-se devagar, sim, mas tão irremediavelmente que, ao fim de sua sutil tomada de nosso senso – de equilíbrio, de ridículo… – não aceitam outra atitude que não a capitulação.

Ontem, eu me rendi. Ergui bandeira branca para “O tempo e os Conways”.

Com mais 30 – e como mais de uma centena antes de nós -, encenei apaixonadamente a obra mais popular de J. B. Pristley. (Não que paixão aqui implique qualidade técnica. Escola é para se aprender. Ou seja: erra-se.) Já é quase uma instituição naquela casa na encosta de uma montanha em Laranjeiras. Turmas iniciantes da disciplina de interpretação encenam sempre esta peça, quando o professor à frente da cadeira é Renato Icarahy, ator, diretor, ex-Tapa e professor também da Uni-Rio. Não dá pra chamar de montagem. Chamamos de um “exercício de montagem”. Um processo iniciado há dois meses, quando tivemos o primeiro contato com o texto escrito.

Dois meses que começaram com um estranhamento proporcional ao de uma Hazel diante de um Ernest Beevers.

– Por que raios essa peça de novo, e de novo, e de novo, e de novo?…

Divulgação - National Theatre

Poderia parecer conveniência. Renato participou da montagem do Tapa nos anos 80 e fez a tradução. Conhece a peça, tem o texto decorado, chega a irritar e envergonhar. Percebe cada tropeço em cada fala. Um tormento… (Possivelmente para ele também!) A conveniência era aparente e enganadora.

“O tempo e os Conways” é um dos mais belos textos teatrais que existem. Digo isso sem medo da superficialidade dessa comparação genérica. Concentrada em duas reuniões – uma festiva, a outra não – (que parecem) separadas por 19 anos, essa história de uma abastada família inglesa que implode melancolicamente aos olhos do espectador é urdida com fios de cores e texturas profundamente distintas. Parafraseando Blake, influenciador de Pristley, sob cada fio ressequido de tragédia familiar, corre feliz um brilho de realismo (quase) mágico. A trama tem ainda um quê de drama histórico, ficção científica, realismo naturalista, teor político, econômico e social. Compreenda: não são retalhos colados. São fios de um mesmo tecido. Uma trama só.

O tear que orienta a ordenação desses filos é a relação entre personagens extremamente marcantes. Mãe, seis filhos, uma amiga/nora, um estranho/genro, um amigo da família. Todos capazes de amar muito. Todos capazes de ferir demais. Todos capazes de ferir porque amam. E de cobrir de amor a quem ferem. Sonham com intensidade. Frustram-se mais profundamente ainda. “Há muito afeto nessa família”, alertava Renato quando, no arroubo de descrever e compor personagens, carregávamos no que nos parecia mais aviltante. Os Conways são como insetos banais que, vistos com lupa, revelam suas incríveis e alegres listras furta-cor, bem como seus ferrões abrasadores.

A estampa geral que Pristley forma com cada um desses fios é de ordem mais universal ainda. É o que um grupo de colegas chamou de “a ironia entre os sonhos e os destinos”. Não somos o que sonhamos que seríamos. Somos o que o tempo fez de nós até agora. Contudo, inspirado por J. W. Junne,  Pristley recusa-se a apresentar o tempo como o demônio manipulador que a personagem Kay descreve em prantos ao perceber a família em frangalhos. O tempo não é uma força que puxa a corda de nossas vidas conduzindo-nos sempre numa direção linear e sem volta. O tempo é uma rede, sem começo, nem fim, nem meio. Nossa percepção é que o apreende linearmente.

Ainda que não se acredite na teoria – que fez o autor ousar introduzir um soturno segundo ato aparentemente deslocado entre dois atos ocorridos numa mesma festa -, a peça deixa essa incômoda sensação de que talvez sejamos responsáveis pelo foi de nossos sonhos. Ou de que talvez eles jamais tenham sido realizáveis. E (que bom!) não responde, em momento algum, a pergunta de um milhão de libras: a felicidade é possível?

É da riqueza de textos assim que emerge uma das experiências mais compensadoras para quem se propõe a um exercício de montagem. Não havia um dia, uma nova leitura, um novo ensaio em que um aspecto ainda não descoberto da obra não saltasse aos olhos. E de insight em insight fomos nos apaixonando pela história dos Conways, como contada por Pristley.

Antes de nós 30 e poucos, centenas de outros alunos da escola amaram os Conways. E amaram-se e odiaram-se ao emprestar seus corpos à história dos Conways. Precederam-lhes outros apaixonados – por teatro. Maria Clara Machado foi Kay em 1957; seu irmão Allan era Rubens Correa, e nesse ano Yan Michalski fez a assistência de direção. A produção era do Tablado. Aderbal Freire Filho dirigiu em 1977. E o Tapa de Eduardo Tolentino de Araújo montou em 1985 e 1986, com Beatriz Segall, Ricardo Blat, Luciana Braga… Neste ano, a peça entrou em cartaz em Londres, no National Theatre, com direção de Rupert Goold.

Queria poder ver uma montagem profissional. Com a bandeira branca de minha rendição erguida. Com um paradoxal orgulho.

Eu ando com muito medo de Virginia Woolf!!!

Posted in Dramaturgia, Teatro with tags on 10/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Uma peça anda me rondando a cabeça e me atolando a agenda nos últimos dias. Minha sorte é ser uma das peças mais bem escritas de todos os tempos, com personagens tão contundentes e reais que é impossível empurrar com a barriga a tarefa de fazer uma ceninha que seja desse texto. (Mesmo que seja apenas uma apresentação para um professor e o restante dos colegas de classe numa sala de aula lááá no alto das Laranjeiras…)

A peça é “Quem tem medo de Virgina Woolf?” (1962). Os personagens, George, Martha, Nick e Benzinho. O autor é Edward Albee, possivelmente o maior dramaturgo vivo, expoente do realismo americano da segunda metade do século XX.

Sobre Albee e o que ele pretende ao escrever para o palco, diga ele mesmo. Numa entrevista do ano passado, de que você pode ver um trecho aí embaixo, o autor volta a uma das metáforas mais didáticas – se não óbvias – para descrever qual a função do teatro em que ele acredita: teatro é espelho. Shakespeare já dizia isso pela boca de Hamlet e muitos repetiram isso ao longo dos séculos.

A diferença, no caso de Albee, é o que se enxerga no espelho. O espelho é  cristalino. E, ainda assim, mostra uma feiura, um azedume que muitas vezes a gente não tem estômago para enxergar.  A imagem às vezes é tão bruta que é fácil colocar a culpa no espelho, dizer que ele distorce, aumenta, entorta as coisas. Mas a verdade é que quem faz isso é quem está do lado de cá do vidro. É o nosso olhar sobre a vida real que muitas vezes ilude.

Em “Quem tem medo de Virgina Woolf?”, sem dó da platéia, Albee foi capaz de virar do avesso as expectativas do sonho americano – essa fórmula de enquadramento que prova por A + B se você é ou não feliz e bem-sucedido, sendo A o dinheiro e os bens e B o casamento e a família. Curioso, Albee lança mão justamente de um jogo de espelhos que confunde e exaspera os dois casais de personagens, que vivem quase uma propaganda de vodca em mão dupla: eu sou você amanhã, eu sou você ontem.

Não que Benzinho tenha qualquer chance de virar uma Martha… Talvez faltem-lhe quadris, para usar uma figura do texto. Nem que Nick, por mais inteligente que seja, vá alcançar o grau de sagacidade que se vê no sarcasmo de George. Além disso, Nick e Benzinho não são um casalzinho apaixonado e unido por um amor ainda fresco. Eles se conhecem há anos, casaram-se por uma certa conveniência e a relação dá sinais precoces de desgaste.  Mas ainda se iludem, ainda têm forças para manter trancado o baú de mágoas e ressentimentos que o tempo só faz abarrotar.

A diferença está no fato de que George e Martha já não enfeitam o que vêem. Não por acaso, a frase de abertura, pronunciada ao abrirem-se as portas daquela casa é um teatral:

– Que pocilga!

Talvez eles sintam falta do tempo em que ainda era possível se iludir. E talvez por isso tenham se entregado ao longo dos anos a um jogo particular de ilusão, a uma fantasia absoluta, mas vivida apenas na privacidade do casal. Tornada pública, a fantasia do filho cai na vala comum de todas as outras ilusões imprestáveis. Tornada pública, revela-se irremediavelmente como fantasia. Por isso, é preciso matá-la.

A cena que tenho pela frente – a da “guerra total” –  é uma das mais fortes da peça. (Aí em cima, o trecho, no filme de 1966, com Elizabeth Taylor e Richard Burton). Claro que não vai ficar realmente bom – por mais que eu tenha um ótimo parceiro de cena e por mais que seja uma delícia para quem estuda atuação ficar repetindo e repetindo essa cena um monte de vezes (né, Daniel?????) . Digamos que, sim, eu tenho medo de Virgina Woolf, de “screw” completamente a cena, só para usar uma palavra que a adaptação da peça para o cinema jogou nas grandes telas americans pela primeira vez.

Mas medo é pra se encarar.

Ao menos, uma coisa é certa: na intenção, a cena vai ficar verdadeira. Isso porque, nessas semanas de estudo, o teatro do senhor Albee vem cumprido muito bem, ao menos dentro da minha cabeça, o papel que o autor tanto pretende: não passar despercebido, não ser engolido com facilidade, não ser confortável.

Shakespeare e La Barca, sonhos e delírios: umas divagações…*

Posted in Dramaturgia, História do teatro, Teatro with tags on 05/11/2009 by dramaticoblog

Análise comparativa do sonho em  “Sonho de uma noite de verão” e “A vida é sonho” 

(ou, um “prefácio”**)

 

Cilene Guedes  (cileneg@gmail.com)

 

Nascido de práticas religiosas dadas à alteração da consciência – embebido no vinho de Dionísio, embriagado pelo desvario de seu culto -, o teatro é, em essência, uma entrega a uma outra dimensão de realidade. O real, no teatro, é um não-ser, por um momento, para fazer-se de outra coisa. É uma ilusão. É sonho. Mas como os sonhos, tão ilusórios, carregam na sua fantasia verdades profundas sobre quem somos, o que sentimos e o que desejamos, o teatro, como arte, é um sonho lúcido, manipulável. É realidade suspensa, pendurada por uma corrente que prende platéia e ator: o pacto, sempre consciente, de emprestar os sentidos ao irreal. E (por que não?) ao sonho.

Titania and Bottom, de Henry Fuseli - 1790 (aproximadamente)

Com isso em mente, analisar por comparação dois dos mais importantes textos do teatro que coincidem justo na exploração do tema “sonho” torna-se quase um exercício de metalinguagem. De um lado, “Sonho de uma noite de verão”, uma das obras mais leves e espirituosos de William Shakespeare. De outro, “A vida é sonho”, a mais célebre peça de Pedro Calderón de La Barca, expoente, ao lado de Lope de Veja, de um período áureo do teatro espanhol.

“Sonho de uma noite de verão” foi concebida na última década do século XVI. “A vida é sonho”, ainda no início do século XVII. Apesar de inseridas num mesmo período histórico, as obras percorrem caminhos muito distintos na exploração de como o homem se relaciona ou pode se relacionar com sua capacidade de sonhar. Aqui, entenda-se sonho em seu sentido estrito, de atividade mental durante o sono, mas também como meta e objetivo, ou ainda como fantasia.  

A peça de La Barca se pauta na doutrina da predestinação. Segismundo nasceu para ser tirano e nada, em hipótese, poderia mudar seu caráter e destino. Vive isolado e acorrentado numa torre, sem conhecer sua condição de príncipe. Está preso à ilusão de que a vida é só aquilo – o que não deixa de ser um pesadelo. Seu pai, o rei Basílio, oscila entre o temor de ver o mau agouro cumprido e o desejo de, pela lógica, ter vencido a profecia, educando o filho da melhor maneira possível, por intermédio de seu nobre servidor Clotaldo. A maneira segura que o rei encontra de testar o caráter de Segismundo é trazê-lo ao mundo real durante o sono para que, se devolvido também dormindo, pudesse ser consolado pela ilusão de que tudo não passara de um sonho. Revelando-se tirano, como previsto, Segismundo é reconduzido à torre-prisão. Quando uma rebelião tenta libertá-lo e lhe dar o trono que Basílio já reservava a um estrangeiro, Segismundo entrega-se confuso ao que acha ser novamente um sonho. Conquista o trono, reconcilia-se com o pai e dá início ao que a obra dá a entender que será um reino de paz e justiça. Sentindo-se incapaz de distinguir sonho e realidade, Segismundo escolhe fazer o bem, temendo que qualquer ato de tirania o devolvesse a qualquer momento à torre e ao que seria sua condição real.

Shakespeare também explora o paralelismo de sonho e realidade, mas criando dois mundos que convivem: o mundo encantado das fadas e elfos e o mundo concreto dos reis, enamorados e pobretões. O mundo concreto desconhece a interferência do mundo encantado eu seus destinos – ou no mínimo o grau em que isso se dá. O mundo encantado diverte-se confundindo nos mortais a noção de realidade e sonho. A fantasia é tamanha que o público pode achar por onde compreender o todo da peça como um único sonho passado diante de seus olhos.

Em “A vida é sonho”, apesar do mote da predestinação, são os homens que decidem seus destinos. A trama se desenrola a partir de escolhas humanas e um alto grau de racionalidade. Basílio entende por ciência a astrologia em que se ampara para temer a tirania do filho. Na morte da mulher, encontra evidência dura de que as estrelas acertavam. E tanto não é religiosa sua relação com esse conhecimento, que Basílio por fim ousa ir contra o que diziam os céus, escolhendo testar se fez uma escolha justa ou não ao isolar o filho, pondo-o à prova numa experiência cuidadosamente controlada.

 Life is a Dream, Then You Wake Up

Até a tirania de Segismundo se explica humanamente. Por mais esforço que Clotaldo tenha feito para ensiná-lo o que é bom, a condição de cativo incubou em seu caráter um atroz desejo de domínio e vingança. Em última análise, a peça mostra, de maneira muito racional, que Basílio, tentando burlar a previsão, acabou por cumpri-la. Não tivesse o príncipe, preso à crença de estar sonhando, abandonado sua crueldade, e o destino teria na trama tratamento equiparável ao de uma tragédia grega.

Na obra de Calderón de La Barca, também é obra humana a manipulação dos sonhos. É Basílio quem urde o plano – Clotaldo o executa – que acaba por mergulhar a mente de seu filho na eterna incerteza de viver ou sonhar. Segismundo passa a viver dentro do que acredita ser um sonho consciente:  ele sabe (ou acha que sabe)  que tudo não passa de ilusão.

Claro que, dado o contexto histórico e artístico, não se pode compreender a peça de La Barca como uma ode à superioridade humana diante da instabilidade da vida. Muito ao contrário, é fruto da aceitação dessa incerteza – ainda que sem eximir o ser humano de responsabilidade. 

Na peça de Shakespeare, o homem se apequena, e seus sonhos se tornam joguetes. As paixões dos amantes oscilam ao sabor do desígnio do rei dos elfos  – e o servo executor aqui, é Puck, elfo/duente/goblin que se delicia com as traquinagens. Quando, após um troca-troca, dois jovens casais chegam à combinação que Oberon acha melhor, o encanto transforma a realidade (a confusão daquela noite) em sonho e em realidade uma ilusão (o amor instilado pela magia, não voluntariamente vivido). A rainha dos elfos é igualmente induzida a viver um pesadelo – apaixonar-se pelo tecelão-ator que ganhara cabeça de burro – e a acordar dele pensando que tudo não passara só de pesadelo mesmo. Ninguém a não ser Oberon e Puck em alguma chance de, na trama, distinguir sonho e realidade. Mas quando se vê que eles mesmos são seres de fantasia, o paradoxo se fecha gracioso. E ainda é completo pela encenação, dentro da peça, de um espetáculo teatral tão ruim que a ninguém diverte pela ilusão e, sim, pelo ridículo.

Nos personagens de Basílio e Oberon, encontram-se interessantes paralelos. Cabe aos dois o papel de manipuladores de sonhos. Oberon, ser encantado, aceita e promove a mistura de sonho com realidade. Basílio nem cogita que sonho e realidade se fundam: é um homem de ciência que cria as circunstâncias e mentiras que inventam para Segismundo um sonho. Um embate entre os dois revelaria algum vencedor? Quando vê que nas duas peças a opção dos autores é ressaltar o caráter ilusório da realidade, a balança pende para Oberon.

Pode-se dizer que, porque Segismundo se redime, Basílio foi bem-sucedido? Talvez não. O discurso febril do príncipe é uma admissão da condição intocável da verdade. E sua opção por fazer o bem é uma tentativa delirante de, a todo custo, não acordar de um sonho que não está tendo. Teria o racional Basílio ficado satisfeito com a incerteza na qual se ampara o bom comportamento de Segismundo? Basílio entrega ao filho o reino, sem que o espectador saiba ao certo se percebeu e aceitou em Segismundo o que bem poderia ser interpretado como loucura. Ou, no mínimo, uma algema frágil – em termos racionais – para seu ímpeto de tirano.

Oberon, por sua vez, daria os braços a Segismundo! Veria no desvario do príncipe uma profunda sabedoria, uma percepção superior da vida, segundo a qual tudo pode ser real – até os elfos! E tudo pode ser sonho. Não veria nisso prisão. O elfo-rei enxergaria no príncipe, quem sabe, um mortal à sua altura, corajoso o suficiente para não se importar com a diferenciação do que – mal sabem os homens – é indissociável.

Mas essas são apenas hipóteses. Suposições. Um exercício desse encontro de fantasia bem poderia divertir Puck – e talvez entreter uma platéia incauta e dada a entregar facilmente seus sentidos ao sonho.

 Novembro de 2009

 

*Este texto foi originalmente criado como trabalho para a disciplina História do Teatro II – do curso regular de formação de atores da CAL. A proposta de comparação foi do professor Daniel Schenker.

**Tendo curiosidade de saber prefácio do quê afinal de contas, é só abrir o PDF aqui. É work in progress. E está sendo muito divertido. Aceito sugestões e comentários a respeito.

CCBB do Rio abre inscrições para Concurso de Dramaturgia

Posted in Concursos, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 25/08/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Pelo terceiro ano consecutivo, o CCBB do Rio realiza o projeto Seleção Brasil em Cena.  O concurso vai eleger 12 textos dramáticos para leituras dramatizadas.  As leituras são uma espécie de segunda etapa de seleção, na qual os espectadores ajudarão a escolher os 3 vencedores, que receberão prêmios em dinheiro. O texto que for o primeiro colocado será encenado no CCBB. 

 O objetivo do projeto, diz o release do centro cultural, é fomentar a literatura dramática e o surgimento de novos dramaturgos. Mas o mérito do projeto é maior. O processo todo une diretores e técnicos renomados com gente das escolas de teatro, para ajudar em todas as etapas da montagem. 

O vencedor do ano passado foi Eduardo Rieche, do Rio, autor de “É Samba na Veia é Candeia”. A peça foi dirigida por André Paes Leme,  e quem assistiu lembra como era bacana aquele clima leve e despretensioso de samba no fundo de quintal e como eram inspiradores aqueles amores intensos do Candeia: à música, às mulheres, aos amigos e à vida.  O espetáculo teve duas indicações ao Prêmio Shell, uma delas de melhor texto.

Quem me deu a dica foi o Pedro Sette Câmara, e não me espantaria  se a gente topasse com um texto dele por aí qualquer dia desses, quem sabe até lá na final do concurso.  Compartilhamos o gosto pela escrita dramática e concorrer com ele vai ser um privilégio enorme – quer dizer, seu eu tiver coragem e inscrever meus alfarrábios. E se nenhum dos dois se der bem, tá valendo também, né não? Estamos começando, estamos na luta, estamos ganhando. Até perdendo, estamos ganhando. 

Pra saber mais sobre o concurso, veja o regulamento. Vá fundo, leitor amigo, inscreva quantos textos quiser, dou a maior força, juro!!!

Quatro indicações para quem se interessa por dramaturgia

Posted in Cursos e oficinas, Debates e encontros, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 19/08/2009 by dramaticoblog

Dramaturgia Contemporânea – O site “quer aproximar os artistas do teatro dos novos autores” e divulgar uma “novíssima safra de textos que traduzem as ansiedades e transformações do século 21”. Propõe-se a dar  “acesso a vigorosa produção da dramaturgia contemporânea”.

Workshop Introdução às Técnicas Dramatúrgicas, com Marici Salomão Dias 26, 27 e 28 de agosto. A oficina marca o início das atividades deste semestre do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. Marici coordena o núcleo, dedicado à descoberta e desenvolvimento de novos autores, que passam por um processo de seleção. Esse workshop de 3 dias, porém, é aberta ao público, mas há limite de vagas e é preciso inscrever-se.
Inscrições até 20 de agosto.

Dramaturgias, no CCBB do Rio Hoje é o quarto dos sete encontros mensais do projeto, que promove leituras dramatizadas de textos teatrais. O texto desta quarta é Kiev, de Sergio Blanco, autor uruguaio radicado em Paris. É uma releitura contemporânea do clássico “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekov. Não por acaso, a direção de Moacir Chaves, que montou a obra original no ano passado. No elenco: Elisa Pinheiro, Gillray Coutinho, Monica Biel, Peter Boos e Diego Molina. Mediação de Roberto Alvim.  Começa às 18h30. Entrada franca. Senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h de hoje.

 
Dramaturgias, no CCBB de São Paulo Em São Paulo, o projeto Dramaturgias dedica-se este ano a autores franceses. Hoje, leitura do texto Le Frigo – A Geladeira e Loretta Strong, de Copi, com Márcio Vito. Direção de Thomas Quillardet. Às 19h30. Entrada franca, com senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h. Após a leitura, o elenco e o diretor promovem um bate-papo com a platéia para discutir a dramaturgia contemporânea nacional e francesa.