Archive for the Debates e encontros Category

Para salvar a Praça Roosevelt

Posted in Debates e encontros, Dramaturgia, Espetáculos, História do teatro, Teatro on 06/12/2009 by dramaticoblog

Por Márcia Abos (marciaabos@gmail.com)

Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo.

Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público.

Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar.

Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo).

Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro…

P.S. Em tempo, na noite deste domingo, 21h, os Parlapatões organizam um ato para a recuperação de Mário Bortolotto e em repúdio à violência. Vamos lá? Leia a convocação no ParlapaBlog

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Quatro indicações para quem se interessa por dramaturgia

Posted in Cursos e oficinas, Debates e encontros, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 19/08/2009 by dramaticoblog

Dramaturgia Contemporânea – O site “quer aproximar os artistas do teatro dos novos autores” e divulgar uma “novíssima safra de textos que traduzem as ansiedades e transformações do século 21”. Propõe-se a dar  “acesso a vigorosa produção da dramaturgia contemporânea”.

Workshop Introdução às Técnicas Dramatúrgicas, com Marici Salomão Dias 26, 27 e 28 de agosto. A oficina marca o início das atividades deste semestre do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. Marici coordena o núcleo, dedicado à descoberta e desenvolvimento de novos autores, que passam por um processo de seleção. Esse workshop de 3 dias, porém, é aberta ao público, mas há limite de vagas e é preciso inscrever-se.
Inscrições até 20 de agosto.

Dramaturgias, no CCBB do Rio Hoje é o quarto dos sete encontros mensais do projeto, que promove leituras dramatizadas de textos teatrais. O texto desta quarta é Kiev, de Sergio Blanco, autor uruguaio radicado em Paris. É uma releitura contemporânea do clássico “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekov. Não por acaso, a direção de Moacir Chaves, que montou a obra original no ano passado. No elenco: Elisa Pinheiro, Gillray Coutinho, Monica Biel, Peter Boos e Diego Molina. Mediação de Roberto Alvim.  Começa às 18h30. Entrada franca. Senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h de hoje.

 
Dramaturgias, no CCBB de São Paulo Em São Paulo, o projeto Dramaturgias dedica-se este ano a autores franceses. Hoje, leitura do texto Le Frigo – A Geladeira e Loretta Strong, de Copi, com Márcio Vito. Direção de Thomas Quillardet. Às 19h30. Entrada franca, com senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h. Após a leitura, o elenco e o diretor promovem um bate-papo com a platéia para discutir a dramaturgia contemporânea nacional e francesa.

Georgete Fadel é artista provocadora do bate-papo do Ágora

Posted in Debates e encontros on 04/08/2009 by dramaticoblog