O tempo, os Conways e trinta e poucos iniciantes apaixonados


CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Sabe esses amores que não começam com fogos de artifício hormonais? O coração não dispara, não há arrepios, soluços, engasgos… Esses afetos que começam velados até para quem ama e vão se descortinando aos poucos. No prazer da conversa, no aconchego da rotina. Revelam-se devagar, sim, mas tão irremediavelmente que, ao fim de sua sutil tomada de nosso senso – de equilíbrio, de ridículo… – não aceitam outra atitude que não a capitulação.

Ontem, eu me rendi. Ergui bandeira branca para “O tempo e os Conways”.

Com mais 30 – e como mais de uma centena antes de nós -, encenei apaixonadamente a obra mais popular de J. B. Pristley. (Não que paixão aqui implique qualidade técnica. Escola é para se aprender. Ou seja: erra-se.) Já é quase uma instituição naquela casa na encosta de uma montanha em Laranjeiras. Turmas iniciantes da disciplina de interpretação encenam sempre esta peça, quando o professor à frente da cadeira é Renato Icarahy, ator, diretor, ex-Tapa e professor também da Uni-Rio. Não dá pra chamar de montagem. Chamamos de um “exercício de montagem”. Um processo iniciado há dois meses, quando tivemos o primeiro contato com o texto escrito.

Dois meses que começaram com um estranhamento proporcional ao de uma Hazel diante de um Ernest Beevers.

– Por que raios essa peça de novo, e de novo, e de novo, e de novo?…

Divulgação - National Theatre

Poderia parecer conveniência. Renato participou da montagem do Tapa nos anos 80 e fez a tradução. Conhece a peça, tem o texto decorado, chega a irritar e envergonhar. Percebe cada tropeço em cada fala. Um tormento… (Possivelmente para ele também!) A conveniência era aparente e enganadora.

“O tempo e os Conways” é um dos mais belos textos teatrais que existem. Digo isso sem medo da superficialidade dessa comparação genérica. Concentrada em duas reuniões – uma festiva, a outra não – (que parecem) separadas por 19 anos, essa história de uma abastada família inglesa que implode melancolicamente aos olhos do espectador é urdida com fios de cores e texturas profundamente distintas. Parafraseando Blake, influenciador de Pristley, sob cada fio ressequido de tragédia familiar, corre feliz um brilho de realismo (quase) mágico. A trama tem ainda um quê de drama histórico, ficção científica, realismo naturalista, teor político, econômico e social. Compreenda: não são retalhos colados. São fios de um mesmo tecido. Uma trama só.

O tear que orienta a ordenação desses filos é a relação entre personagens extremamente marcantes. Mãe, seis filhos, uma amiga/nora, um estranho/genro, um amigo da família. Todos capazes de amar muito. Todos capazes de ferir demais. Todos capazes de ferir porque amam. E de cobrir de amor a quem ferem. Sonham com intensidade. Frustram-se mais profundamente ainda. “Há muito afeto nessa família”, alertava Renato quando, no arroubo de descrever e compor personagens, carregávamos no que nos parecia mais aviltante. Os Conways são como insetos banais que, vistos com lupa, revelam suas incríveis e alegres listras furta-cor, bem como seus ferrões abrasadores.

A estampa geral que Pristley forma com cada um desses fios é de ordem mais universal ainda. É o que um grupo de colegas chamou de “a ironia entre os sonhos e os destinos”. Não somos o que sonhamos que seríamos. Somos o que o tempo fez de nós até agora. Contudo, inspirado por J. W. Junne,  Pristley recusa-se a apresentar o tempo como o demônio manipulador que a personagem Kay descreve em prantos ao perceber a família em frangalhos. O tempo não é uma força que puxa a corda de nossas vidas conduzindo-nos sempre numa direção linear e sem volta. O tempo é uma rede, sem começo, nem fim, nem meio. Nossa percepção é que o apreende linearmente.

Ainda que não se acredite na teoria – que fez o autor ousar introduzir um soturno segundo ato aparentemente deslocado entre dois atos ocorridos numa mesma festa -, a peça deixa essa incômoda sensação de que talvez sejamos responsáveis pelo foi de nossos sonhos. Ou de que talvez eles jamais tenham sido realizáveis. E (que bom!) não responde, em momento algum, a pergunta de um milhão de libras: a felicidade é possível?

É da riqueza de textos assim que emerge uma das experiências mais compensadoras para quem se propõe a um exercício de montagem. Não havia um dia, uma nova leitura, um novo ensaio em que um aspecto ainda não descoberto da obra não saltasse aos olhos. E de insight em insight fomos nos apaixonando pela história dos Conways, como contada por Pristley.

Antes de nós 30 e poucos, centenas de outros alunos da escola amaram os Conways. E amaram-se e odiaram-se ao emprestar seus corpos à história dos Conways. Precederam-lhes outros apaixonados – por teatro. Maria Clara Machado foi Kay em 1957; seu irmão Allan era Rubens Correa, e nesse ano Yan Michalski fez a assistência de direção. A produção era do Tablado. Aderbal Freire Filho dirigiu em 1977. E o Tapa de Eduardo Tolentino de Araújo montou em 1985 e 1986, com Beatriz Segall, Ricardo Blat, Luciana Braga… Neste ano, a peça entrou em cartaz em Londres, no National Theatre, com direção de Rupert Goold.

Queria poder ver uma montagem profissional. Com a bandeira branca de minha rendição erguida. Com um paradoxal orgulho.

Anúncios

5 Respostas to “O tempo, os Conways e trinta e poucos iniciantes apaixonados”

  1. Romulo Says:

    Eu fui um entre centenas que emprestou o corpo e me apaixonei pelos Conways tbm. Na verdade nem tanto pelos Conways, mas por um certo sr. Beevers! Tenho certeza que voces arrebentaram. Nao pude ver pq tinha que resolver uma questao de trabalho. (E confesso é estranho pra mim ver outra montagem da peça… mas eu vou superar isso um dia! rs)

    • dramaticoblog Says:

      Querido! Sabe como é… Quem sabe a gente se encontra “num outro tempo, que na verdade é uma outra espécie de sonho”, numa outra montagem dos Conways?!… Bj enorme!

  2. Sim, sim, parece que só ao final, depois de todo o suor escorrido, de todos os ouvidos marcados pelas considerações (e detalhadíssimas correções de texto!) do Renato, de todo o furor em descobrir o afeto guardado por detrás de uma aparente ironia em ” – E você Madge, construindo Jerusálem no verde solo da Inglaterra?” , depois de coxias festeiras, abraços regados a pó de arroz e broches dourados, depois de tanta paixão e disponibilidade, que foram ingredientes fundamentais do nosso “exercício de montagem”, endosso as belas palavras da Cilene, que captou esse cerne do que foi para nós a experiência de vivermos por um dia o universo dos Conways e seus agregados. Compartilho com todos a minha alegria de ter feito parte do processo, também, e daria tudo pra ver a Maria Clara Machado como Kay em 1957…Mas, aí teria que voltar no tempo, “voltar no tempo”, acho que não consigo mais dizer coisas desse tipo sem pensar nos Conways…Ah, sim, mas claro! “Como se fossemos seres imortais”…”e prontos para uma tremenda aventura”…Que venha a vida, a cada momento!

  3. Realmente foi um trabalho maravilhoso. Novas descobertas a cada dia. Um texto muito profundo, que ainda teremos muito o que contemplar. Foi uma honra e um prazer fazer o exercício de montagem com uma turma que se jogou para realizar tal experiência tão marcante!

    Foi uma lição de vida espetacular!! o tempo….

    E que venha o Reg 2!

    Muito bom o texto, Ci! Arrasou como sempre!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: