Shakespeare e La Barca, sonhos e delírios: umas divagações…*


Análise comparativa do sonho em  “Sonho de uma noite de verão” e “A vida é sonho” 

(ou, um “prefácio”**)

 

Cilene Guedes  (cileneg@gmail.com)

 

Nascido de práticas religiosas dadas à alteração da consciência – embebido no vinho de Dionísio, embriagado pelo desvario de seu culto -, o teatro é, em essência, uma entrega a uma outra dimensão de realidade. O real, no teatro, é um não-ser, por um momento, para fazer-se de outra coisa. É uma ilusão. É sonho. Mas como os sonhos, tão ilusórios, carregam na sua fantasia verdades profundas sobre quem somos, o que sentimos e o que desejamos, o teatro, como arte, é um sonho lúcido, manipulável. É realidade suspensa, pendurada por uma corrente que prende platéia e ator: o pacto, sempre consciente, de emprestar os sentidos ao irreal. E (por que não?) ao sonho.

Titania and Bottom, de Henry Fuseli - 1790 (aproximadamente)

Com isso em mente, analisar por comparação dois dos mais importantes textos do teatro que coincidem justo na exploração do tema “sonho” torna-se quase um exercício de metalinguagem. De um lado, “Sonho de uma noite de verão”, uma das obras mais leves e espirituosos de William Shakespeare. De outro, “A vida é sonho”, a mais célebre peça de Pedro Calderón de La Barca, expoente, ao lado de Lope de Veja, de um período áureo do teatro espanhol.

“Sonho de uma noite de verão” foi concebida na última década do século XVI. “A vida é sonho”, ainda no início do século XVII. Apesar de inseridas num mesmo período histórico, as obras percorrem caminhos muito distintos na exploração de como o homem se relaciona ou pode se relacionar com sua capacidade de sonhar. Aqui, entenda-se sonho em seu sentido estrito, de atividade mental durante o sono, mas também como meta e objetivo, ou ainda como fantasia.  

A peça de La Barca se pauta na doutrina da predestinação. Segismundo nasceu para ser tirano e nada, em hipótese, poderia mudar seu caráter e destino. Vive isolado e acorrentado numa torre, sem conhecer sua condição de príncipe. Está preso à ilusão de que a vida é só aquilo – o que não deixa de ser um pesadelo. Seu pai, o rei Basílio, oscila entre o temor de ver o mau agouro cumprido e o desejo de, pela lógica, ter vencido a profecia, educando o filho da melhor maneira possível, por intermédio de seu nobre servidor Clotaldo. A maneira segura que o rei encontra de testar o caráter de Segismundo é trazê-lo ao mundo real durante o sono para que, se devolvido também dormindo, pudesse ser consolado pela ilusão de que tudo não passara de um sonho. Revelando-se tirano, como previsto, Segismundo é reconduzido à torre-prisão. Quando uma rebelião tenta libertá-lo e lhe dar o trono que Basílio já reservava a um estrangeiro, Segismundo entrega-se confuso ao que acha ser novamente um sonho. Conquista o trono, reconcilia-se com o pai e dá início ao que a obra dá a entender que será um reino de paz e justiça. Sentindo-se incapaz de distinguir sonho e realidade, Segismundo escolhe fazer o bem, temendo que qualquer ato de tirania o devolvesse a qualquer momento à torre e ao que seria sua condição real.

Shakespeare também explora o paralelismo de sonho e realidade, mas criando dois mundos que convivem: o mundo encantado das fadas e elfos e o mundo concreto dos reis, enamorados e pobretões. O mundo concreto desconhece a interferência do mundo encantado eu seus destinos – ou no mínimo o grau em que isso se dá. O mundo encantado diverte-se confundindo nos mortais a noção de realidade e sonho. A fantasia é tamanha que o público pode achar por onde compreender o todo da peça como um único sonho passado diante de seus olhos.

Em “A vida é sonho”, apesar do mote da predestinação, são os homens que decidem seus destinos. A trama se desenrola a partir de escolhas humanas e um alto grau de racionalidade. Basílio entende por ciência a astrologia em que se ampara para temer a tirania do filho. Na morte da mulher, encontra evidência dura de que as estrelas acertavam. E tanto não é religiosa sua relação com esse conhecimento, que Basílio por fim ousa ir contra o que diziam os céus, escolhendo testar se fez uma escolha justa ou não ao isolar o filho, pondo-o à prova numa experiência cuidadosamente controlada.

 Life is a Dream, Then You Wake Up

Até a tirania de Segismundo se explica humanamente. Por mais esforço que Clotaldo tenha feito para ensiná-lo o que é bom, a condição de cativo incubou em seu caráter um atroz desejo de domínio e vingança. Em última análise, a peça mostra, de maneira muito racional, que Basílio, tentando burlar a previsão, acabou por cumpri-la. Não tivesse o príncipe, preso à crença de estar sonhando, abandonado sua crueldade, e o destino teria na trama tratamento equiparável ao de uma tragédia grega.

Na obra de Calderón de La Barca, também é obra humana a manipulação dos sonhos. É Basílio quem urde o plano – Clotaldo o executa – que acaba por mergulhar a mente de seu filho na eterna incerteza de viver ou sonhar. Segismundo passa a viver dentro do que acredita ser um sonho consciente:  ele sabe (ou acha que sabe)  que tudo não passa de ilusão.

Claro que, dado o contexto histórico e artístico, não se pode compreender a peça de La Barca como uma ode à superioridade humana diante da instabilidade da vida. Muito ao contrário, é fruto da aceitação dessa incerteza – ainda que sem eximir o ser humano de responsabilidade. 

Na peça de Shakespeare, o homem se apequena, e seus sonhos se tornam joguetes. As paixões dos amantes oscilam ao sabor do desígnio do rei dos elfos  – e o servo executor aqui, é Puck, elfo/duente/goblin que se delicia com as traquinagens. Quando, após um troca-troca, dois jovens casais chegam à combinação que Oberon acha melhor, o encanto transforma a realidade (a confusão daquela noite) em sonho e em realidade uma ilusão (o amor instilado pela magia, não voluntariamente vivido). A rainha dos elfos é igualmente induzida a viver um pesadelo – apaixonar-se pelo tecelão-ator que ganhara cabeça de burro – e a acordar dele pensando que tudo não passara só de pesadelo mesmo. Ninguém a não ser Oberon e Puck em alguma chance de, na trama, distinguir sonho e realidade. Mas quando se vê que eles mesmos são seres de fantasia, o paradoxo se fecha gracioso. E ainda é completo pela encenação, dentro da peça, de um espetáculo teatral tão ruim que a ninguém diverte pela ilusão e, sim, pelo ridículo.

Nos personagens de Basílio e Oberon, encontram-se interessantes paralelos. Cabe aos dois o papel de manipuladores de sonhos. Oberon, ser encantado, aceita e promove a mistura de sonho com realidade. Basílio nem cogita que sonho e realidade se fundam: é um homem de ciência que cria as circunstâncias e mentiras que inventam para Segismundo um sonho. Um embate entre os dois revelaria algum vencedor? Quando vê que nas duas peças a opção dos autores é ressaltar o caráter ilusório da realidade, a balança pende para Oberon.

Pode-se dizer que, porque Segismundo se redime, Basílio foi bem-sucedido? Talvez não. O discurso febril do príncipe é uma admissão da condição intocável da verdade. E sua opção por fazer o bem é uma tentativa delirante de, a todo custo, não acordar de um sonho que não está tendo. Teria o racional Basílio ficado satisfeito com a incerteza na qual se ampara o bom comportamento de Segismundo? Basílio entrega ao filho o reino, sem que o espectador saiba ao certo se percebeu e aceitou em Segismundo o que bem poderia ser interpretado como loucura. Ou, no mínimo, uma algema frágil – em termos racionais – para seu ímpeto de tirano.

Oberon, por sua vez, daria os braços a Segismundo! Veria no desvario do príncipe uma profunda sabedoria, uma percepção superior da vida, segundo a qual tudo pode ser real – até os elfos! E tudo pode ser sonho. Não veria nisso prisão. O elfo-rei enxergaria no príncipe, quem sabe, um mortal à sua altura, corajoso o suficiente para não se importar com a diferenciação do que – mal sabem os homens – é indissociável.

Mas essas são apenas hipóteses. Suposições. Um exercício desse encontro de fantasia bem poderia divertir Puck – e talvez entreter uma platéia incauta e dada a entregar facilmente seus sentidos ao sonho.

 Novembro de 2009

 

*Este texto foi originalmente criado como trabalho para a disciplina História do Teatro II – do curso regular de formação de atores da CAL. A proposta de comparação foi do professor Daniel Schenker.

**Tendo curiosidade de saber prefácio do quê afinal de contas, é só abrir o PDF aqui. É work in progress. E está sendo muito divertido. Aceito sugestões e comentários a respeito.

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2 Respostas to “Shakespeare e La Barca, sonhos e delírios: umas divagações…*”

  1. Cil, Cil!!!! Que texto maravilhoso!
    Parabéns Ci, você escreve lindamente!

    beijos,
    Lígia Protti

    • dramaticoblog Says:

      San Genaro da Campispóia Mexirica!!!!! Obrigada, minha querida!!! E quando tiver textos novos lá no seu Omelete de Lichia, me avisa tb. Bj!!

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