Arquivo para novembro, 2009

Festa hoje marca inauguração da SP Escola de Teatro. E já há muito para comemorar

Posted in Concursos, Cursos e oficinas, Teatro on 25/11/2009 by dramaticoblog

É hoje! Uma turma de primeira linha abre hoje oficialmente os trabalhos da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco: uma escola pública, criada em parceria de artistas com o governo do estado de SP, que vai formar, GRATUITAMENTE, atores, cenófragos, figurinistas, diretores, dramaturgos, iluminadores, sonoplastas…

À frente, estão os Satyros Ivam Cabral, que é diretor artístico,  Alberto Guzik, diretor pedagógico, e Cléo de Páris, diretora da ideias (adorei isso!). Na lista de coordenadores dos cursos regulares, mais boas notícias:

Atuação – Rodolfo García Vázquez
Cenografia e figurino e Técnicas de Palco – J.C. Serroni
Dramaturgia – Marici Salomão
Humor – Raul Barretto
Direção – Hugo Possolo
Sonoplastia – Raul Teixeira
Iluminação – Guilherme Bonfant

A escola começa a funcionar provisioriamente no Brás (na Av. Rangel Pestana, 2.401), enquanto não fica pronta a sede, que será num edifício lá no coração da Praça Roosevelt.

Nas Satyrianas, bati um papo muito rápido com o Guzik, diante do prédio. Era bacana ver que ele não enxergava mais ali o esqueleto de um prédio que foi até invadido no passado. Ele via o que o prédio vai ser (o projeto, aliás, está na Bienal de Arquitetura, que vai até dia 6). Mais que isso, Guzik parecia ver o movimento de gente, a efervescência de idéias, os ímpetos, as tenacidades, as angústias criadoras, as descobertas… Ele contava que os cursos serão independentes, mas que os exercícios de montagem vão unir as habilidades de todos.

Sempre funcionou assim pros Satyros e outros artistas que ocuparam a Roosevelt. Se eles só vissem na praça o que é aparente, se apenas enxergassem na vizinhança sua degradação, se fossem míopes para o potencial artístico de gente sem oportunidade, eles não teriam feito muita diferença onde vão, muito menos se instalando ali. Talvez nem tivessem permanecido. Permaneceram.

O processo de seleção dos artistas-aprendizes começa amanhã (26/11), com a abertura das inscrições, que vão até dia 4. A escola vai oferecer 200 vagas por ano – 25 por curso. As aulas começam em fevereiro. Os cursos vão durar dois anos.  Há um curso à parte, de difusão cultural, que dura um semestre.

Hoje, porém, a noite será só de festa, lá no casarão da Escola Normal, no Bras. A comemoração começa às 19h. Haverá três exposições fotográficas:  “Fotografia de Palco”, de Lenise Pinheiro; “Instante Eterno”, de Roberto Souza; e “Perpetuar o Efêmero”, de Adalberto Lima. Também haverá exposição de J.C. Serroni; “Espaços Teatrais: A Evolução da Arquitetura Cênica na História e a sua Interação com o Som e a Luz”.

A cantora Vanessa Bumagny vai dar um pocket show. Também se apresentam por lá o performer Luiz Maurício e a Banda Paralela. Os convidados ainda vão poder assistir ao documentário “SP Escola de Teatro”, dirigido por Laerte Késsimos.

Os homenageados da noite serão o professor Jacó Guinsburg e as instituições: EAD, Escola Livre de Santo André, Célia Helena, Conservatório de Tatuí e Escola Macunaíma.

E a programação não acabou. A noite também é de lançamento da Coleção Primeiras Obras, de peças teatrais (edição da Imprensa Oficial com Satyros Literatura). A coleção começa com os volumes:

1 – Otávio Martins, com prefácio de Silvana Garcia
2 – Gabriela Mellão, com prefácio de Alberto Guzik
3 – Ivam Cabral, com prefácio de Erika Riedel
4 – Sergio Roveri, com prefácio de Otavio Frias Filho
5 – Vera de Sá, com prefácio de Jefferson Del Rios
6 – Sérgio Mello, com prefácio de Mário Bortolotto
7 – Rudifran Pompeu, com prefácio de Evaristo Martins de Azevedo
8 – Marcos Damaceno, com prefácio de Roberto Alvim
9 – Lucianno Maza, com prefácio de Alcides Nogueira
10 – DramaMix 2007, com prefácio de Alberto Guzik e obras de: Alex Gruli, Ana Rüsche, Andréa Bassitt, Antonio Rocco, Bráulio Mantovani, Célia Forte, Claudia Vasconcellos, Contardo Calligaris, Duilio Ferronato, Eduardo Sterzi, Gerald Thomas, Germano Pereira, Jarbas Capusso Filho, João Luiz  Sampaio, José Simões, Jucca Rodrigues, Lúcia Carvalho, Marici Salomão, Mário Bortolotto, Mário Viana, Marta Góes, Nicolás Monastério, Noemi Marinho, Paulo Vereda, Priscila Nicolielo, Renata Pallottini, Roberto Alvim, Rogério Toscano e Sabina Anzuategui.

Para quem vai ter a chance de ir – eu não vou poder, culpem “O tempo e os Conways”… – boa festa. Brindem por mim.

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Vai tentar o teste para “Gypsy”? You gotta get a gimmick, baby…

Posted in Teatro, Teatro Musical with tags , , , , on 23/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

– Você vai fazer o teste pra “Gypsy”?

Acho graça de quantas vezes tenho ouvido essa pergunta nas últimas semanas. E antes que alguém pense que isso tem algo a ver comigo, explico. Não tenho ouvido a pergunta porque acham que eu deva fazer o teste. Tenho ouvido a pergunta porque não se fala de outro processo de produção nos corredores daquela escola lá nas Laranjeiras.

E não deve ser só lá. Os testes foram divulgados em anúncio de revista, email-market, banner no site oficial de Charles Möeller e Claudio Botelho… Não dava pra passar despercebido. Não era para passar despercebido, claro. Era para causar alvoroço. E causou.

Vai ter fila. E torço para quem haja uma boa fila, qualificada, que realmente reflita o imenso interesse que o teatro musical tem despertado nas novas gerações de atores – mérito, óbvio e inconteste, dessa dupla de diretores.

Mas, também por conta dos sucessos em série dos musicais de Möeller e Botelho, é bem provável que haja gente sem noção nessa fila. Muitas Roses, Junes e Louises devem passar pelas audições, cada uma cumprindo seu papel, em vidas muito reais – e muito cheias de ilusão.

Não me interessa sacudir ninguém pra acordar do sonho de ver-se no elenco da primeira montagem brasileira de “Gypsy”, musical levado ao palco pela primeira vez em 1959, por Jule Styne, Stephen Sondheim e Arthur Laurents. É um sonho mais do que genuíno para quem ama o teatro. Möeller e Botelho julgam ser este o maior dos musicais da Broadway (no vídeo abaixo, os diretores e as atrizes Totia Meirelles e Adriana Garambone comentam o musical.) E só isso já seria mais do que suficiente para se presumir que vão tentar superar a precisão e a eficiência de tudo o que já levaram ao palco. Fazer parte disso é um privilégio. É um sonho mesmo.

Mas, sugiro – apenas sugiro – pés no chão.

Não que eu tenha condição de dar conselho. Quase tudo o que eu conheço de teatro musical – quase nada – é o que vivi como espectadora.  “Sete”, “Gota d’água”, “A Noviça Rebelde”, “Wicked”, “Avenida Q”, “Gloriosa”, “O despertar da primavera”, “Aquarelas do Ary”, “Beatles num céu de diamantes”… Estou certamente esquecendo alguma coisa. E não incluo na lista o que vi em versão para cinema. ( “West site story”, visto aos 12 anos, em vídeo, me marcou profundamente…) De qualquer forma é pouco. Pouquíssimo.

E confesso que também tenho a memória de uma certa bizarrice, uma aparência de fantasia de carnaval, alimentada por umas imagens meio esparsas, não muito convictas, de coisas como “O fantasma da ópera” e “Cats”. Pode ser preconceito do tipo não-vi-e-não-gostei. Pode ser.

Há três meses, porém, ando ganhando novas e surpreendentes memórias. Nomes como “Gypsy”, “Chicago”, “A chorus line”, “Dreamgirls”, “Fame”, “South Pacific”, “The Producers”, “Hair”, entre uma infinidade de outros, começaram a ganhar mais sentido. Mirna Rubim, craque absoluta do ensino do canto, e Menelick de Carvalho, diretor teatral que vem fazendo sua carreira na ópera, estão dando uma oficina sobre teatro musical, na qual me inscrevi por impulso. A oficina está consumindo o que me restava de tempo livre nessa vida – lá se foram meus sábados! Mas também está me abrindo janelas e arejando a cabeça. Ao mesmo tempo, o curso constrói, de dentro (das minhas cordas vocais modestas e do meu corpo exausto) para fora um profundo respeito aos musicais. Em dezembro, vamos nos divertir, transformando o que aprendemos no curso em um despretensioso espetáculo sobre a Broadway, uma costura de canções de grandes musicais que falam justamente sobre o show business.

Uma das músicas é tirada de “Gypsy”. Chama-se “You gotta get agGimmick”. Quem está preparando seu currículo para enviar para a Aventura Entretenimento (as inscrições vão até dia 3 de dezembro) deveria ouvi-la.

Você pode assistir ao vídeo (tirado da versão para o cinema, de1962) e apenas achar graça dos truques das stripers. E rir da frieza com que elas falam que não é preciso talento para fazer o que fazem. Ou você pode enxergar que, por trás da ironia, o que elas falam é muito real – e isso tem sido uma das maiores lições das aulas com Mirna e Menelick. Para fazer diferença numa fila de “200 garotas mais jovens e magras que eu” – como diz a moça de “Climbing uphill”  em “The last five years” – é preciso ter algo a mais.

Se você se inscreveu na seleção de “Gypsy”, estou presumindo que saiba cantar e dançar – nem tente se não souber e leve a sério os pré-requisitos. Mas não é só isso. Não será uma corneta ou uma roupa luminosa. Não será algo externo. E nem será técnica apenas. O que faz diferença é a verdade com que você seja capaz de exprimir-se, cantando, dançando ou atuando. É sua arte, afinal.

Pode ser que nem isso garanta sucesso na audição, muito menos um lugar no elenco de “Gypsy”. Mas, com certeza, quem for com esse espírito terá colaborado para que não se veja nessa seleção algo que lembre um concurso de misses, um show de calouros ou um desfile de egos inflados. Honestidade não é truque. Mas é um baita “gimmick”.

E pra fechar a tampa da discussão sobre como se faz, deixo Patti Lupone, 35 anos de Broadway, ganhadora do Tony de 2008 pelo papel de Rose, neste musical. Melhor que todas as minhas mil palavras, é ver e ouvir essa mulher cantando. Um assombro.

Começou o mês dos ingressos a preço popular no Rio

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 19/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Questão de utilidade pública.  Começou hoje a venda da temporada de preços populares no Rio. Sessenta e oito espetáculos aderiram à campanha “Teatro para todos” neste ano. Os ingressos vão custar de R$ 5 a R$ 25. Os postos de venda aparecem na imagem abaixo.

Estão na lista espetáculos que já são sucesso popular há tempos. Muita coisa que já atraiu  multidões ao teatro para aquela gargalhada relazada. Entre os quais: “Como passar em concurso público”, “Minna mãe é uma peça”, “Lente de aumento” e “Nós na Fita”. Muitos que também fizeram sucesso noutra faixa de humor, como “A História de nós 2”, “Clandestinos”, “Farsa da boa preguiça”, “Os difamantes”. Entre os drama, estão la “Inveja dos Anjos” e “O zoológico de vidro”. E há “Gorda”, que talvez fique num incômodo – e por isso mesmo interessante – limiar.

A campanha é da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro .

Se você tem um daqueles amigos que faz o gênero “Vá ao teatro – mas não me chame, porque é muito caro”, aproveite para carregá-lo. Dá até pra dar ingresso de presente!

Pra saber mais vá até: http://www.teatroparatodos.com.br/

PS.: Valeu a dica, Nina.

“Agora!” – uma viagem ao outro hemisfério do teatro de improviso

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , on 11/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Um certo tipo de teatro de improviso – às vezes mais show de humor do que teatro – floresceu nos últimos anos e conquistou platéias gigantescas. O fenômeno, paralelo à popularização da stand-up comedy, se alimenta da criatividade de espetáculos como “Z.É. (Zenas Emprovisadas)” e  “Improvável“. Quem já viu “Whose line is it any way” (ainda passa em algum canal??) nem precisa de explicação sobre do que se trata. Pra quem não viu, como explicar?…

É um jogo. Tem regras definidas aos olhos do público. Os atores são os jogadores. Há um convidado, normalmente também ator, que atua ora como apresentador, ora como árbitro. O desafio imposto aos atores é encenar de improviso situações criadas a partir de algum tipo de interação com o público – o que acaba resultando numa série de esquetes (??) concebidas a toque de caixa e apresentadas de uma maneira mais ou menos convencional.

A massificação de todo tipo de tendência cultural costume produzir resultados de qualidades variáveis. É natural. Do pouco que vi desse tipo de teatro, porém, não posso resumir minhas impressões de outra forma: eu me diverti horrores!!!! Chorei de rir!!!

AGORA!_CASADAGLÓRIA

Agora!

Num outro hemisfério do improviso, porém, está “Agora!”. Esse faz rir. E chorar. E chocar. E surpreender. Depende… O espetáculo está em cartaz na Casa da Glória, aos sábados. Foi concebido e é dirigido pela Claudia Mele, que conheci numa sala de aula da CAL (aquela casa lááá no alto das Laranjeiras…), tentando explicar ao longo de um período inteiro, pra 30 neófitos do curso de atuação, que raios é o tal método viewpoints! Sim, ela tentava arduamente… Primeiro, com palavras. Diante das caras de interrogação, mais umas palavras. Depois de mais caras de interrogação, ela desistia e partia para a ação. Quer dizer, nós partíamos, tentando fazer o que não tínhamos entendido bem. Mas, não por acaso, isso era aula de preparação corporal, não de compreensão de texto… O que passara reto acima da cabeça e da nossa capacidade racional de compreender, era rapidamente capturado quando, em vez da mente apenas, a gente usava o corpo todo. Não que a gente acertasse sempre. Pelo contrário. (E não sei de onde a Claudia tirou tanta paciência…). Mas ficou algo no corpo. Algo forte. Uma janela aberta para um estado de percepção do espaço, do tempo e do outro que é capaz de produzir imagens poéticas, fortes, inusitadas e até engraçadas. Tudo de improviso.

Para não ficar devendo uma explicação decente do que seja o método viewpoints, tema de interesse de muita gente boa – a Cia dos Atores e Henrique Diaz, por exemplo – transcrevo o que diz a Claudia na descrição de um curso que ela vai dar.

“Viewpoints é definido como um sistema de improvisação que oferece caminhos que permitem ao artista cênico a percepção e melhor compreensão da dimensão psicofísica de suas ações e da sua relação com o espaço, com o outro e com o grupo. Através de um trabalho relacional de tempo/espaço o ator desenvolve a sua percepção, memória, atenção, escuta, sensibilização além do estado de prontidão para a ação no momento presente.”

Boiou? Afunde. Fazendo.

Ou vá num sábado deste mês, às 19h, na Casa da Glória, ver o que Claudia, uma trupe de atores, bailarinos, atores -bailarinos e músicos estão aprontando em 50 minutos contados de improviso e poesia. Há mais do que viewpoints ali, mas o método é a base. Não espere o riso fácil dos espetáculos de improviso mais populares. Mas a rapidez e a sagacidade dos atores podem render gargalhadas. Bem como a sensibilidade pode fazer você puxar o lenço. (A Claudia mesma quase puxou, no fim da estréia, lembrando sua fonte de inspiração, “A farra dos atores”.)

Também há regras. Também há jogos. Também há temas centrais. E os motes também partem da imprevisível participação da platéia, a quem os atores-bailarinos fazem, bruscamente, perguntas de uma profundidade desconcertante. (Não vou adiantar nenhuma delas. Só confesso que, por um certa vergonha que em si me dá vergonha – pois é, vai entender?… – , menti descaradamente quando indagada sobre um dos temas… Improvisei, digamos assim!)

Mas o corpo do espectador e sobretudo do ator-bailarino-músico, em “Agora”, é tão importante quanto a palavra. Talvez até mais. E o conjunto de atores-bailarinos-músicos se relaciona não apenas porque troca e complementa piadas entre si e com o público, mas porque tenta ocupar o espaço e o tempo como uma massa viva única, que se faz e se desfaz a todo instante, usando o público, muitas vezes como seu suporte. (Preste atenção que, no flyer, um sinal de adição ocupa o espaço entre os nomes. Se foi sem querer, foi verdadeiro ainda assim.)

Se dá sempre certo como espetáculo? Se sempre funciona como teatro e entretenimento? Não tenho a menor idéia! É improviso, ora bolas! Só sei que, naquela tarde-noite do sábado passado, “naquele agora”, digamos assim, funcionou para mim e para uma platéia amistosa que encarou o calor saariano com bravura para ver aquela máquina mover-se, dissolver-se, recompor-se…

Acompanhei o espetáculo nascer pelos relatos esporádicos de Fernanda Huffel, colega da CAL e nova na trupe. Lembro do quanto me parecia instigante, nos relatos dela, essa instabilidade como pressuposto para o espetáculo acontecer, esse imediatismo que confere ao todo a improbabilidade de um moto-contínuo. É, Fê… Foi bonito de ver.

Eu ando com muito medo de Virginia Woolf!!!

Posted in Dramaturgia, Teatro with tags on 10/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Uma peça anda me rondando a cabeça e me atolando a agenda nos últimos dias. Minha sorte é ser uma das peças mais bem escritas de todos os tempos, com personagens tão contundentes e reais que é impossível empurrar com a barriga a tarefa de fazer uma ceninha que seja desse texto. (Mesmo que seja apenas uma apresentação para um professor e o restante dos colegas de classe numa sala de aula lááá no alto das Laranjeiras…)

A peça é “Quem tem medo de Virgina Woolf?” (1962). Os personagens, George, Martha, Nick e Benzinho. O autor é Edward Albee, possivelmente o maior dramaturgo vivo, expoente do realismo americano da segunda metade do século XX.

Sobre Albee e o que ele pretende ao escrever para o palco, diga ele mesmo. Numa entrevista do ano passado, de que você pode ver um trecho aí embaixo, o autor volta a uma das metáforas mais didáticas – se não óbvias – para descrever qual a função do teatro em que ele acredita: teatro é espelho. Shakespeare já dizia isso pela boca de Hamlet e muitos repetiram isso ao longo dos séculos.

A diferença, no caso de Albee, é o que se enxerga no espelho. O espelho é  cristalino. E, ainda assim, mostra uma feiura, um azedume que muitas vezes a gente não tem estômago para enxergar.  A imagem às vezes é tão bruta que é fácil colocar a culpa no espelho, dizer que ele distorce, aumenta, entorta as coisas. Mas a verdade é que quem faz isso é quem está do lado de cá do vidro. É o nosso olhar sobre a vida real que muitas vezes ilude.

Em “Quem tem medo de Virgina Woolf?”, sem dó da platéia, Albee foi capaz de virar do avesso as expectativas do sonho americano – essa fórmula de enquadramento que prova por A + B se você é ou não feliz e bem-sucedido, sendo A o dinheiro e os bens e B o casamento e a família. Curioso, Albee lança mão justamente de um jogo de espelhos que confunde e exaspera os dois casais de personagens, que vivem quase uma propaganda de vodca em mão dupla: eu sou você amanhã, eu sou você ontem.

Não que Benzinho tenha qualquer chance de virar uma Martha… Talvez faltem-lhe quadris, para usar uma figura do texto. Nem que Nick, por mais inteligente que seja, vá alcançar o grau de sagacidade que se vê no sarcasmo de George. Além disso, Nick e Benzinho não são um casalzinho apaixonado e unido por um amor ainda fresco. Eles se conhecem há anos, casaram-se por uma certa conveniência e a relação dá sinais precoces de desgaste.  Mas ainda se iludem, ainda têm forças para manter trancado o baú de mágoas e ressentimentos que o tempo só faz abarrotar.

A diferença está no fato de que George e Martha já não enfeitam o que vêem. Não por acaso, a frase de abertura, pronunciada ao abrirem-se as portas daquela casa é um teatral:

– Que pocilga!

Talvez eles sintam falta do tempo em que ainda era possível se iludir. E talvez por isso tenham se entregado ao longo dos anos a um jogo particular de ilusão, a uma fantasia absoluta, mas vivida apenas na privacidade do casal. Tornada pública, a fantasia do filho cai na vala comum de todas as outras ilusões imprestáveis. Tornada pública, revela-se irremediavelmente como fantasia. Por isso, é preciso matá-la.

A cena que tenho pela frente – a da “guerra total” –  é uma das mais fortes da peça. (Aí em cima, o trecho, no filme de 1966, com Elizabeth Taylor e Richard Burton). Claro que não vai ficar realmente bom – por mais que eu tenha um ótimo parceiro de cena e por mais que seja uma delícia para quem estuda atuação ficar repetindo e repetindo essa cena um monte de vezes (né, Daniel?????) . Digamos que, sim, eu tenho medo de Virgina Woolf, de “screw” completamente a cena, só para usar uma palavra que a adaptação da peça para o cinema jogou nas grandes telas americans pela primeira vez.

Mas medo é pra se encarar.

Ao menos, uma coisa é certa: na intenção, a cena vai ficar verdadeira. Isso porque, nessas semanas de estudo, o teatro do senhor Albee vem cumprido muito bem, ao menos dentro da minha cabeça, o papel que o autor tanto pretende: não passar despercebido, não ser engolido com facilidade, não ser confortável.

Shakespeare e La Barca, sonhos e delírios: umas divagações…*

Posted in Dramaturgia, História do teatro, Teatro with tags on 05/11/2009 by dramaticoblog

Análise comparativa do sonho em  “Sonho de uma noite de verão” e “A vida é sonho” 

(ou, um “prefácio”**)

 

Cilene Guedes  (cileneg@gmail.com)

 

Nascido de práticas religiosas dadas à alteração da consciência – embebido no vinho de Dionísio, embriagado pelo desvario de seu culto -, o teatro é, em essência, uma entrega a uma outra dimensão de realidade. O real, no teatro, é um não-ser, por um momento, para fazer-se de outra coisa. É uma ilusão. É sonho. Mas como os sonhos, tão ilusórios, carregam na sua fantasia verdades profundas sobre quem somos, o que sentimos e o que desejamos, o teatro, como arte, é um sonho lúcido, manipulável. É realidade suspensa, pendurada por uma corrente que prende platéia e ator: o pacto, sempre consciente, de emprestar os sentidos ao irreal. E (por que não?) ao sonho.

Titania and Bottom, de Henry Fuseli - 1790 (aproximadamente)

Com isso em mente, analisar por comparação dois dos mais importantes textos do teatro que coincidem justo na exploração do tema “sonho” torna-se quase um exercício de metalinguagem. De um lado, “Sonho de uma noite de verão”, uma das obras mais leves e espirituosos de William Shakespeare. De outro, “A vida é sonho”, a mais célebre peça de Pedro Calderón de La Barca, expoente, ao lado de Lope de Veja, de um período áureo do teatro espanhol.

“Sonho de uma noite de verão” foi concebida na última década do século XVI. “A vida é sonho”, ainda no início do século XVII. Apesar de inseridas num mesmo período histórico, as obras percorrem caminhos muito distintos na exploração de como o homem se relaciona ou pode se relacionar com sua capacidade de sonhar. Aqui, entenda-se sonho em seu sentido estrito, de atividade mental durante o sono, mas também como meta e objetivo, ou ainda como fantasia.  

A peça de La Barca se pauta na doutrina da predestinação. Segismundo nasceu para ser tirano e nada, em hipótese, poderia mudar seu caráter e destino. Vive isolado e acorrentado numa torre, sem conhecer sua condição de príncipe. Está preso à ilusão de que a vida é só aquilo – o que não deixa de ser um pesadelo. Seu pai, o rei Basílio, oscila entre o temor de ver o mau agouro cumprido e o desejo de, pela lógica, ter vencido a profecia, educando o filho da melhor maneira possível, por intermédio de seu nobre servidor Clotaldo. A maneira segura que o rei encontra de testar o caráter de Segismundo é trazê-lo ao mundo real durante o sono para que, se devolvido também dormindo, pudesse ser consolado pela ilusão de que tudo não passara de um sonho. Revelando-se tirano, como previsto, Segismundo é reconduzido à torre-prisão. Quando uma rebelião tenta libertá-lo e lhe dar o trono que Basílio já reservava a um estrangeiro, Segismundo entrega-se confuso ao que acha ser novamente um sonho. Conquista o trono, reconcilia-se com o pai e dá início ao que a obra dá a entender que será um reino de paz e justiça. Sentindo-se incapaz de distinguir sonho e realidade, Segismundo escolhe fazer o bem, temendo que qualquer ato de tirania o devolvesse a qualquer momento à torre e ao que seria sua condição real.

Shakespeare também explora o paralelismo de sonho e realidade, mas criando dois mundos que convivem: o mundo encantado das fadas e elfos e o mundo concreto dos reis, enamorados e pobretões. O mundo concreto desconhece a interferência do mundo encantado eu seus destinos – ou no mínimo o grau em que isso se dá. O mundo encantado diverte-se confundindo nos mortais a noção de realidade e sonho. A fantasia é tamanha que o público pode achar por onde compreender o todo da peça como um único sonho passado diante de seus olhos.

Em “A vida é sonho”, apesar do mote da predestinação, são os homens que decidem seus destinos. A trama se desenrola a partir de escolhas humanas e um alto grau de racionalidade. Basílio entende por ciência a astrologia em que se ampara para temer a tirania do filho. Na morte da mulher, encontra evidência dura de que as estrelas acertavam. E tanto não é religiosa sua relação com esse conhecimento, que Basílio por fim ousa ir contra o que diziam os céus, escolhendo testar se fez uma escolha justa ou não ao isolar o filho, pondo-o à prova numa experiência cuidadosamente controlada.

 Life is a Dream, Then You Wake Up

Até a tirania de Segismundo se explica humanamente. Por mais esforço que Clotaldo tenha feito para ensiná-lo o que é bom, a condição de cativo incubou em seu caráter um atroz desejo de domínio e vingança. Em última análise, a peça mostra, de maneira muito racional, que Basílio, tentando burlar a previsão, acabou por cumpri-la. Não tivesse o príncipe, preso à crença de estar sonhando, abandonado sua crueldade, e o destino teria na trama tratamento equiparável ao de uma tragédia grega.

Na obra de Calderón de La Barca, também é obra humana a manipulação dos sonhos. É Basílio quem urde o plano – Clotaldo o executa – que acaba por mergulhar a mente de seu filho na eterna incerteza de viver ou sonhar. Segismundo passa a viver dentro do que acredita ser um sonho consciente:  ele sabe (ou acha que sabe)  que tudo não passa de ilusão.

Claro que, dado o contexto histórico e artístico, não se pode compreender a peça de La Barca como uma ode à superioridade humana diante da instabilidade da vida. Muito ao contrário, é fruto da aceitação dessa incerteza – ainda que sem eximir o ser humano de responsabilidade. 

Na peça de Shakespeare, o homem se apequena, e seus sonhos se tornam joguetes. As paixões dos amantes oscilam ao sabor do desígnio do rei dos elfos  – e o servo executor aqui, é Puck, elfo/duente/goblin que se delicia com as traquinagens. Quando, após um troca-troca, dois jovens casais chegam à combinação que Oberon acha melhor, o encanto transforma a realidade (a confusão daquela noite) em sonho e em realidade uma ilusão (o amor instilado pela magia, não voluntariamente vivido). A rainha dos elfos é igualmente induzida a viver um pesadelo – apaixonar-se pelo tecelão-ator que ganhara cabeça de burro – e a acordar dele pensando que tudo não passara só de pesadelo mesmo. Ninguém a não ser Oberon e Puck em alguma chance de, na trama, distinguir sonho e realidade. Mas quando se vê que eles mesmos são seres de fantasia, o paradoxo se fecha gracioso. E ainda é completo pela encenação, dentro da peça, de um espetáculo teatral tão ruim que a ninguém diverte pela ilusão e, sim, pelo ridículo.

Nos personagens de Basílio e Oberon, encontram-se interessantes paralelos. Cabe aos dois o papel de manipuladores de sonhos. Oberon, ser encantado, aceita e promove a mistura de sonho com realidade. Basílio nem cogita que sonho e realidade se fundam: é um homem de ciência que cria as circunstâncias e mentiras que inventam para Segismundo um sonho. Um embate entre os dois revelaria algum vencedor? Quando vê que nas duas peças a opção dos autores é ressaltar o caráter ilusório da realidade, a balança pende para Oberon.

Pode-se dizer que, porque Segismundo se redime, Basílio foi bem-sucedido? Talvez não. O discurso febril do príncipe é uma admissão da condição intocável da verdade. E sua opção por fazer o bem é uma tentativa delirante de, a todo custo, não acordar de um sonho que não está tendo. Teria o racional Basílio ficado satisfeito com a incerteza na qual se ampara o bom comportamento de Segismundo? Basílio entrega ao filho o reino, sem que o espectador saiba ao certo se percebeu e aceitou em Segismundo o que bem poderia ser interpretado como loucura. Ou, no mínimo, uma algema frágil – em termos racionais – para seu ímpeto de tirano.

Oberon, por sua vez, daria os braços a Segismundo! Veria no desvario do príncipe uma profunda sabedoria, uma percepção superior da vida, segundo a qual tudo pode ser real – até os elfos! E tudo pode ser sonho. Não veria nisso prisão. O elfo-rei enxergaria no príncipe, quem sabe, um mortal à sua altura, corajoso o suficiente para não se importar com a diferenciação do que – mal sabem os homens – é indissociável.

Mas essas são apenas hipóteses. Suposições. Um exercício desse encontro de fantasia bem poderia divertir Puck – e talvez entreter uma platéia incauta e dada a entregar facilmente seus sentidos ao sonho.

 Novembro de 2009

 

*Este texto foi originalmente criado como trabalho para a disciplina História do Teatro II – do curso regular de formação de atores da CAL. A proposta de comparação foi do professor Daniel Schenker.

**Tendo curiosidade de saber prefácio do quê afinal de contas, é só abrir o PDF aqui. É work in progress. E está sendo muito divertido. Aceito sugestões e comentários a respeito.

Cortinas novamente abertas

Posted in Sem categoria on 04/11/2009 by dramaticoblog

Cilene Guedes (cileneg@gmail.com)

Após uns dias de silêncio e ainda à espera de quer o Ponto Dramático fique pronto…

Estamos de volta!

Nos posts dos próximos dias…

– A primeira montagem a gente nunca esquece: como foi estrear nas Satyrianas

– Teatro e/é sonho: um ensaio desvairado sobre o sonho em Shakespeare e La Barca

– SP escola de teatro:  você precisa conhecer esse projeto!

– Umas impressões sobre “Câmera”, “Viver sem tempos mortos”, “Deus é química” e mais…

 

See you.