Teatro Medieval: tudo ao mesmo tempo agora


POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Por que os espaços medievais de representação eram marcados pela circularidade, simultaneidade e descentralização do olhar?

Para entender essas três características do espaço de representação do teatro medieval, pode-se tomar como ponto de partida a religiosidade católica romana que é basal do pensamento coletivo nesse período histórico da Europa Ocidental.  O teatro como conhecemos nasce na Grécia ecoando a crença no destino – imposto pelos deuses e inescapável – e utiliza esta crença como o próprio motor da ação. Por sua vez, o teatro medieval – o que floresce nas igrejas,mas também o que subsiste na praça pública – é marcado por uma doutrina básica da religião judaico-cristã: o livre arbítrio. O homem escolhe seu caminho. Esta liberdade, porém, acorrenta o ser humano às conseqüências espirituais de seus atos terrenos. Pode escolher o bem e nele persistir enfrentando as dificuldades imediatas dessa opção mas ganhando a vida eterna com Deus, ou pode escolher os prazeres da vida mundana e pagar com a danação eterna. Salvação e a Danação, porém, não são asseguradas por uma única escolha (não por acaso a cartilha luterana da salvação pela fé e a teologia calvinista da predestinação são parte do processo que lança o homem na Idade Moderna). A salvação pode ser perdida a cada mau passo e concessão às tentações. E a danação pode ser vencida a cada sincero arrependimento ou intercessão de um santo ou da Vigem Maria.

Está estabelecida aí a base religiosa que encontra no palco circular das moralidades medievais sua mais forte expressão. É curioso que o teatro medieval retome a forma orquestral dos espaços gregos de representação – porque, no conteúdo, é difícil para mim imaginar concepções de mundo mais distantes. Se os poemas dramáticos gregos traçam uma linha certeira (mesmo que longa e às vezes sinuosa) em direção a um destino imutável, as moralidades, no conteúdo e na forma, traçam espirais, idas e vindas, círculos espetaculares, rodas de fortuna, onde o destino final sempre será um suspense: deve-se contar com a misericórdia de Deus, mas nunca ignorar sua Justiça. Assim, o homem no centro da ação e o espectador diante do espetáculo se vêem num labirinto percorrido em função de escolhas e conseqüências.

As moralidades são formas de representação teatral em que valores religiosos e éticos são personificados. São alegorias francamente didáticas sobre as necessidades de uma vida virtuosa. Fiquemos com o exemplo explorado do Castelo da Perseverança (século XV) – para a historiadora Margot Berthold, auto com o qual “a moralidade inglesa atingiu seu auge”. O palco do Castelo da Perseverança é circular. No centro, está o castelo que representa a Igreja, uma torre de refúgio seguro para o homem. No perímetro estão os palcos de Deus (a leste),do mundo (a oeste), do diabo (ao norte), da carne (ao sul) e da avareza (a nordeste).  Todos são ligados ao castelo central por estradas que formam raios. Um sexto raio é o da entrada do público (e eventualmente de alguns atores) no espaço. O homem, sua alma e os personagens identificados com cada um dos reinos/palcos vão cruzar esses raios em vários sentidos, estabelecendo a “peregrinação labiríntica”, descrita por Fernando Mastropaqua. 

A simultaneidade da representação teatral da Idade Média, que se vê nas moralidades e seus palcos múltiplos, já é presente em manifestações religiosas mais antigas, como os autos da Paixão. O percurso, no caso, poderia se dar em cidades inteiras, ao longo de vários dias, sobre vários carros-palco ou utilizando-se espaços propícios pré-existentes, cada qual enunciando uma etapa do martírio.

A tradição de tornar a celebração da morte e ressurreição de Cristo um evento teatral teria começado com a representação, em cânticos, do diálogo entre o anjo e as mulheres que tentam adentrar o sepulcro vazio. “Quem quaeritis?” (a quem procurais), indaga o anjo, ao anunciar a ressurreição. (É curioso o paralelo com Dionísio: o teatro teria entrado na Igreja justo através do aspecto em que Jesus e o deus grego encontram-se: a vitória sobre a morte.) Historiadores situam no século X essa entrada simbólica do teatro na celebração da Páscoa.  Com o passar dos séculos, essa semente deu lugar a autos que se ampliaram a tal ponto que se podia assistir dos acontecimentos que precederam a crucificação até o Juízo Final. Essas representações davam-se em quadros que podiam ocorrer simultaneamente em vários pontos de uma cidade. “O espetáculo é feito de maneira que cada palco é meta e ao mesmo tempo ponto de partida para ma viagem sucessiva”, diz Mastro paqua.

A representação teatral religiosa ainda está confinada no interior da Igreja quando já se percebe a característica de um olhar descentralizado. Não é mais no altar – centro de todas as atenções das missas a tal ponto que até o padre para ele se volta, dando as costas para sua audiência – que se dão todas as cenas. A ação invade a nave, cruza a Igreja em vários sentidos e, por fim, atravessa-lhe as portas.

Enquanto isso, na praça pública, mimos, bufões e outros sobreviventes do teatro mundano estarão disputando a atenção e o olhar do espectador com toda sorte de atividade que se possa imaginar no espaço público carnavalizado de então. Um lugar onde sagrado e profano podem conviver, onde o homem que tanto precisa valorizar o alto corporal reconhece que o baixo corporal existe: nada mais circular. Nada mais medieval.

*Este texto foi escrito como parte do trabalho de conclusão da unidade Teatro Medieval, da disciplina História do Teatro, ministrada pelo professor Álvaro de Sá, na Casa de Artes de Larajeiras (primeiro semestre)

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