Fellini encontra Pinter, em “Celebração”, última peça do dramaturgo inglês


POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Está em cartaz, em São Paulo, a última peça de Harold Pinter, que morreu em dezembro de 2008. Foi dito, na época, que Pinter deixou esse mundo quando gozava da condição de maior dramaturgo vivo – o que quer dizer obviamente que houve maiores antes, mas não havia naquele momento. Essas definições são sempre controversas e possivelmente deixam um gosto amargo para quem assume o posto. Nem me arrisco a dizer quem seja. Há uma constelação – certamente incompleta – vagando pela minha cabeça nesse momento.

 Mas é certo que muito menos numerosos do que os melhores do seu tempo são aqueles cuja obra é de tal maneira expressiva que seu conjunto inequívoco de características faz a sociedade cunhar um adjetivo. O risco de reducionismo nessa prática é obvio, mas, mantido o mínimo senso crítico, é possível fazer da apresentação a uma dessas palavras uma experiência um bocado didática. E, no caso de Pinter, paradoxal.

 Se por um lado, ler os significados de “pinteresque” (pinteresco?) facilita a introdução às características gerais da obra de Pinter, também não deixa dúvida de sua extrema complexidade.

 Não há equivalente único. Não há um sinônimo. O sentido está no conjunto, na atmosfera do drama que emerge de seus textos: seus diálogos imprevisíveis, no conteúdo e no ritmo, que deixam entrever lutas de poder e hipocrisia por trás das relações mais amenas e situações mais triviais. E eis que aí se teve uma definição possível de pinteresco. Didática e ao mesmo tempo… Inútil.

 celebracao

No discurso que fez ao receber o Nobel de Literatura, em 2005, Pinter fala dessa sinuca na busca de significações, a que apenas os melhores dramas podem nos induzir.

 “A verdade no drama é sempre fugidia. Você nunca a encontra de fato, mas a busca por ela é compulsiva. A busca é claramente o que impulsiona a empreitada. A busca é a sua tarefa. Mais freqüentemente do que não, você tropeça na verdade no escuro, colidindo com ela ou apenas vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, freqüentemente sem perceber que você o fez. Mas a verdade real é que não há tal coisa com uma verdade há ser descoberta na arte dramática. Há muitas. Essas verdades desafiam uma a outra, recuam uma da outra, refletem uma a outra, ignoram uma a outra, provocam uma a outra, são cegas uma para com a outra. Algumas vezes você sente que a verdade do momento está na sua mão, então ele escorrega pelos dedos e está perdido.”

 Na montagem da última peça de Harold Pinter, em cartaz no teatro da Cultura Inglesa, a encenação desafia-se a agregar a uma obra a que se aplica tamanha complexidade de definições outra em que a verdade é igualmente fugidia, mas que tem uma atmosfera em muitos aspectos oposta. Uma atmosfera não trivial, mas onírica. Não confinada, mas explosiva – de cores, formas e gestos. Mais uma vez, tenta-se explicar numa só palavra, num só adjetivo desses que emergem da obra dos gênios: o Harold Pinter de “Celebração”, na direção de Eric Lenate, tenta ser felliniano.

 Por uma coincidência, tive que ver E La Nave Va há menos de um mês. Não tenho certeza de que tenha sido essa a obra específica que inspirou a direção, mas não é que parece mesmo e muito? Como não lembrar do primeiro banquete no navio, com sua galeria de tipos seguindo à risca o roteiro que sua posição social supostamente impõe? A junção colore Pinter com Fellini, mas ressalta o que de mais sombrio essas duas obras mostram bem: a extrema hipocrisia das convenções sociais, a superficialidade da máscara com que nos relacionamos com o mundo, o ridículo da fantasia que vestimos para esconder nossas vergonhas mais íntimas.

Na história, um casal de meia idade comemora aniversário de casamento, com um outro casal, de irmãos-cunhados, num restaurante refinado. Em outra mesa, um casal jovem comemora o sucesso profissional dele, um banqueiro. Garçom, mâitre e maitresse completam o ritual. O texto urde com perfeição o esfacelamento gradual das aparências, à medida que o ambiente se enche da fumaça de cigarro e os cérebros de álcool. Na montagem, a coisa vai até as vias do escracho, e todos os podres são jogados no ventilador. Mas isso não muda substancialmente a condição de ninguém. A cumplicidade dos personagens com as convenções que os oprimem é óbvia.

Falando assim parece que não há muito espaço para riso. Mas há. Particularmente, gargalhei. Acho até que mais efusivamente do que a platéia em geral. Especialmente nas cenas reservadas aos serviçais, que, mecanicamente, entram nas conversas, fazendo-as escorregar para um desconcertante absurdo. E lá estão as pausas de Pinter para assinar a obra.

No conjunto, a peça funciona bem como o espelho esmagado a que  Pinter, naquele mesmo discurso à Academia Sueca se refere.  É uma alusão que, intencionalmente ou não, reinterpreta o espelho como função do drama, descrita por  Shakespeare em “Hamlet”. Mais do que colocá-lo diante do público, é preciso quebrá-lo:

“Quando nos olhamos num espelho, a imagem que nos confronta é precisa. Mas mova um milímetro e a imagem muda. Nós estamos, realmente, olhando para um grupo inesgotável de reflexos. Mas, algumas vezes, um escritor tem que quebrar o espelho – porque é no outro lado desse espelho que a verdade nos encara.”

Para ler o discurso ou ouvir completo de Pinter, que é uma aula maravilhosa vá até:

 

http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2005/pinter-lecture.html

 

Aí vai embutida a crítica da Vejinha SP, porque é sempre bom um outro ponto de vista e tem cenas do espetáculo.

Serviço

CELEBRAÇÃO

 http://celebracaoapeca.blogspot.com/

No elenco, Carlos Morelli, Domingas Person, Valentina Lattuada,  Luciano Gatti, Alexandre Freitas, Juliana Vedovato, Adriano Suto, Denise Machado e Pedro Guilherme.

Prestem atenção à trilha, que começa com “Strangers in the night” e vai desembocar em “Yellow Submarine”.

Dura 60 minutos. Passa rápido até demais. E custou módicos R$ 5 (às quintas, todo mundo paga meia).

 

Teatro Cultura Inglesa Pinheiros (173 lugares). Rua Deputado Lacerda Franco, 333, Pinheiros,  3814-0100. Quinta e sábado, 21h; sexta, 21h30; domingo, 20h. R$ 5,00 (qui.); R$ 10,00 (sex.); R$ 20,00 (sáb. e dom.). Bilheteria: 14h/21h (ter. e qua.) e a partir das 14h (qui. a dom.). Estac. (R$ 10,00). Até 13 de setembro.

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2 Respostas to “Fellini encontra Pinter, em “Celebração”, última peça do dramaturgo inglês”

  1. Juliana Vedovato Says:

    Adorei a sua crítica, o elenco agradece a sua atenção…

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