Arquivo para agosto, 2009

CCBB do Rio abre inscrições para Concurso de Dramaturgia

Posted in Concursos, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 25/08/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Pelo terceiro ano consecutivo, o CCBB do Rio realiza o projeto Seleção Brasil em Cena.  O concurso vai eleger 12 textos dramáticos para leituras dramatizadas.  As leituras são uma espécie de segunda etapa de seleção, na qual os espectadores ajudarão a escolher os 3 vencedores, que receberão prêmios em dinheiro. O texto que for o primeiro colocado será encenado no CCBB. 

 O objetivo do projeto, diz o release do centro cultural, é fomentar a literatura dramática e o surgimento de novos dramaturgos. Mas o mérito do projeto é maior. O processo todo une diretores e técnicos renomados com gente das escolas de teatro, para ajudar em todas as etapas da montagem. 

O vencedor do ano passado foi Eduardo Rieche, do Rio, autor de “É Samba na Veia é Candeia”. A peça foi dirigida por André Paes Leme,  e quem assistiu lembra como era bacana aquele clima leve e despretensioso de samba no fundo de quintal e como eram inspiradores aqueles amores intensos do Candeia: à música, às mulheres, aos amigos e à vida.  O espetáculo teve duas indicações ao Prêmio Shell, uma delas de melhor texto.

Quem me deu a dica foi o Pedro Sette Câmara, e não me espantaria  se a gente topasse com um texto dele por aí qualquer dia desses, quem sabe até lá na final do concurso.  Compartilhamos o gosto pela escrita dramática e concorrer com ele vai ser um privilégio enorme – quer dizer, seu eu tiver coragem e inscrever meus alfarrábios. E se nenhum dos dois se der bem, tá valendo também, né não? Estamos começando, estamos na luta, estamos ganhando. Até perdendo, estamos ganhando. 

Pra saber mais sobre o concurso, veja o regulamento. Vá fundo, leitor amigo, inscreva quantos textos quiser, dou a maior força, juro!!!

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“Por um fio”: um delicado exercício de respeito ao drama

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 21/08/2009 by dramaticoblog

POR CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

O que torna um texto dramático?

 Há poucos dias ouvi de um professor que a diferença era o diálogo.

 Tenho cá pra mim que foi necessidade de simplificação e um tanto de preguiça que o fez cometer tal sentença. Porque há tempos me é claro que o texto dramático prescinde de diálogo. E de muitas outras características artificialmente atribuídas a ele, por força deste ou daquele período histórico ou escola estética. Penduricalhos. Sem querer desmerecê-los. Mas são penduricalhos.

 Nas últimas semanas, duas experiências me fizeram ver isso com clareza ainda maior. Ando lendo “Três usos da faca”, de David Mamet. E assisti à peça “Por um Fio”, dirigida por Moacir Chaves.

POR_UM_FIO_

Por um fio

 A primeira parte do livro de Mamet é dedicada a demonstrar que o drama perpassa tudo. E que o procuramos em tudo. Seja ele de boa qualidade ou não. Está na pretensa unicidade que faz de uma história a manchete do jornal. Está no discurso ilusório e inespecífico dos políticos. Está até na maneira como nos queixamos da chuva ou do calor ou como relatamos os motivos de um atraso. O drama pode bem ser esse dom de tornar uma história única, digna de ser contada. E por isso, às vezes, é confundido com exagero – uma característica, na verdade, dos dramas de má qualidade.

 É aqui que as duas experiências começam a se entrelaçar. A peça em cartaz no Teatro Sesc Ginástico, no Rio, fala de nada menos do que o que poderia ser considerado o mais dramático dos momentos humanos: a morte. (Vá lá que o nascimento é equiparável, mas como não guardamos memória dele, tentativas de descrever os estados de alma envolvidos ali são fantasia.)

 Mas se a morte é inexorável, se nos iguala a todos, se é, na verdade, um fato esperado da vida, o que a torna tão dramática assim? Uma explicação fácil é que não a aceitamos. Buscamos, cada um a seu modo, na fé ou no ceticismo, porto seguro longe da tormenta de sentimentos que paira acima da certeza de que iremos morrer. Somos biologicamente programados para a auto-preservação. Somos culturalmente forjados para o respeito à vida. Por conta disso, tentamos negar à morte a qualidade de desfecho. Prolongamos nossa existência, seja através da crença religiosa ou de legados humanos. E essa embate torna nossa relação com a morte ainda mais dramática, ainda mais cheia de conflito, ainda mais marcada pela ansiedade do devir.

 O poder desse conflito já resultou em incontáveis obras dramáticas, de toda sorte e qualidade. O teatro grego nasce justamente do culto a um Deus que foi morto e renasceu. A paixão e ressurreição de Cristo é possivelmente a encenação mais popular de todos os tempos. Sem contar as mortes pelo amor romântico, as mortes no campo de batalha, as mortes da mão de quem se confiava… Isso dá bom drama. Mas drama de má qualidade também. E se há um pecado freqüente nos dramas que bebem da morte é a embriaguez: tendem ao exagero, ao palavrório, à exacerbação… É difícil fugir dessa armadilha quando se tem a morte e seus estigmas como matéria-prima.

 “Por um fio” acerta justamente pelo comedimento. Escolhe tornar drama não o embate eterno e grandioso da humanidade contra a morte, mas as histórias pequenas, tão particulares e tão comuns ao mesmo tempo, de vários homens e mulheres diante da iminência do fim – que às vezes nem chega. Prescinde do tom de epopéia que muitas vezes é equivocadamente exigido dos dramas cotidianos – seja o da manchete do jornal, seja o da novela das oito. E, por isso mesmo, “Por um fio” é drama da melhor qualidade. E fecha o pano quando tem que fechar. Não prolonga o conflito, não infere acerca que vem depois – a não ser, algumas vezes, para falar dos vivos que ficam.

 A forma – tanto do livro do médico Drauzio Varella, quanto do espetáculo – apenas arredonda esse respeito à unicidade do conflito de cada pessoa diante da morte. Não é preciso exagerá-lo. Basta quase que apenas descrevê-lo e lá estará o drama, em toda a sua potência, cruel, duro, poético e sublime. As histórias curtas são narradas no palco por Regina Braga e Rodolfo Vaz. Não há caracterização de personagens, e os atores parecem eles mesmos estar lendo as histórias pela primeira vez, de tal forma que não vivem o drama, mas são afetados por ele como platéia. É um trabalho delicado e respeitoso – exatamente porque não exagera as histórias para torná-las mais especiais – ou, seja, artificialmente mais dramáticas. O cenário outonal, a iluminação precisa e a música que também prima pela discrição contribuem para essa empreitada de não apelar para o artifício.

 A primeira peça de Moacir Chaves a que assisti, “Bugiaria”, de 1999, já tocava a questão da natureza do texto dramático, levando para o palco relatos que não foram imaginados para o teatro. O texto da peça era uma transposição – com costuras, mas sem retoques – de documentos históricos sobre um processo de inquisição e sobre costumes antropofágicos indígenas. Em tese, nada menos teatral. Os resultados no palco mostraram o contrário e, já então, não seguindo pelo apelo dramático fácil dos julgamentos injustos (seja da crença do branco, seja do costume do índio). A encenação tomou o trilho da bufonaria e fez a dramaticidade do texto alcançar notas surpreendentes.

 Enxergar o drama de todas as coisas e respeitá-lo em sua unicidade, sem achar que é preciso engrandecê-lo, é um exercício de sabedoria e sensibilidade.

 Um PS básico:  Pouco depois de escrever esse texto, ouvi de um professor (outro, não o do início dessa crônica) que, quando ele assistiu a “Por um fio”, há alguns meses, a peça soou-lhe melodramática da metade para o fim, que o distânciamento impresso à atuação dos atores é muito instigante no início e depois resvala para um tom mais emotivo. Não concordo. Achei a interpretação contida e muito interessante por isso. Mas a reação da platéia na noite em que vi o espetáculo, tenho que admitir, lembrou capítulo final de novela das oito: foi reação de entrega total ao drama, sem cerimônia alguma. Teve choro, aplauso em cena aberta e comentários muito pessoais (em voz alta!) nos intervalos entre as histórias.  Fiquei irritada e ranzinza na hora, disparando olhares de censura em todas as direções. Pois é. Fiz um drama. Agora, acho certa graça. Da platéia e de mim. 

Outro PS.: Para mais sobre por que resumir que a distinção do texto dramático ao diálogo é  meio simplista, recomendo a leitura dos primeiros capítulos de “O Teatro Épico”, de Anatol Rosenfeld.

 SERVIÇO

“Por um fio”

 70 min

12 anos

Texto de Dráuzio Varella

Direção de Moacir Chaves

Com Regina Braga e Rodolfo Vaz

Teatro Sesc Ginástico (Avenida Graça Aranha ,187 , Centro)

Telefone: 2279-4027

Horário: Quinta a domingo, 19h. Até 13 de setembro

Ingresso: R$ 30,00 (qui. e dom.) e R$ 40,00 (sex. e sáb.)

Até 13 de setembro

‘Liz’ volta aos palcos do Satyros

Posted in Espetáculos, Reestreias, Teatro on 19/08/2009 by dramaticoblog

Nesta sexta-feira, dia 21 de agosto, reestréia no Espaço d’Os Satyros UM a peça “Liz”, escrita pelo dramaturgo cubano Reinaldo Montero, e dirigida por Rodolfo García Vázquez.

Leia a crítica de Cilene Guedes sobre ‘Liz’

A peça rendeu a Reinaldo Montero o Prêmio Fray Luis de León, um dos mais importantes da Ibero América. Além deste, a montagem d’Os Satyros realizada em junho de 2008 em Havana foi eleita uma das melhores peças estrangeiras do ano, levando o Prêmio Villanueva, entregue pelo Departamento de Crítica e Investigação Teatral da Associação de Artistas Cênicos da UNEAC (União de Escritores e Artistas de Cuba).

“Liz” é o primeiro texto cubano montado pelo Satyros. O elenco é composto por Cléo De Páris, Ivam Cabral, Fábio Penna, Germano Pereira, Brígida Menegatti, Alberto Guzik, Silvanah Santos, Phedra D. Córdoba, Tiago Leal, Julia Bobrow e Chico Ribas. O cenário foi criado por Marcelo Maffei; a trilha sonora é de Ivam Cabral; e o desenho de luz é de Rodolfo García Vázquez.

A peça mistura história, lenda e realidade. Narra o momento em que a Rainha Elizabeth I é informada acerca das idéias heréticas que se debatem no círculo da Escola da Noite. Em “Liz”, a verdade histórica é o que menos importa.

A peça representa um painel caótico de um tempo de grandes tensões, emoções e descobertas. O poder e a grandeza de Elizabeth I são postos em destaque, assim como sua solidão e fragilidade.

Utilizando-se por vezes de um tom farsesco e de abstrações, a peça propõe uma profunda reflexão sobre a tristeza, a solidão e os erros implícitos na arte de governar a terra e o céu.

Os personagens Raleigh e Marlowe fundam um antro de perversão, chamado A Escola da Noite, onde questionam a anestesia de Deus e a soberania de Liz.

“Uma peça que critica o poder, a cultura, as verdades oficiais. ‘Liz’ é um dos mais importantes experimentos dramatúrgicos empreendidos no teatro hoje. E uma peça de espantosa modernidade, e de uma contundência que nos deixa de olhos arregalados”, afirma Aberto Guzik.

Segundo Ivam Cabral, “Liz”, de Reinaldo Montero, na encenação dos Satyros é uma peça hippie. Neo-hippie. “Teria tudo para ser escura, híbrida, triste. Nós a quisemos colorida. Trágica, mas esperançosa. No cenário, bambolinas se transformam em colchas de retalhos. Na trilha sonora, Janis Joplin, Velvet Underground, Roberto Carlos, Beatles. No coração dos atores, desejo de criar um espetáculo poderoso, intenso, inteiro”.

Serviço:

LIZ

Texto: Reinaldo Montero

Direção: Rodolfo García Vázquez

Elenco: Cléo De Páris, Ivam Cabral, Fábio Penna, Germano Pereira, Brígida Menegatti, Alberto Guzik, Silvanah Santos, Phedra D. Córdoba, Tiago Leal, Julia Bobrow e Chico Ribas

Quando: Sexta e sábado, 21hs

Onde: Espaço dos Satyros UM, pça Roosevelt, 214

Quanto: R$ 30

Lotação: 70 lugares

Duração: 80 min

Classificação: 14 anos

Gênero: Drama

Temporada: 21 de agosto a 19 de dezembro de 2009

Quatro indicações para quem se interessa por dramaturgia

Posted in Cursos e oficinas, Debates e encontros, Dramaturgia, Teatro with tags , , on 19/08/2009 by dramaticoblog

Dramaturgia Contemporânea – O site “quer aproximar os artistas do teatro dos novos autores” e divulgar uma “novíssima safra de textos que traduzem as ansiedades e transformações do século 21”. Propõe-se a dar  “acesso a vigorosa produção da dramaturgia contemporânea”.

Workshop Introdução às Técnicas Dramatúrgicas, com Marici Salomão Dias 26, 27 e 28 de agosto. A oficina marca o início das atividades deste semestre do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. Marici coordena o núcleo, dedicado à descoberta e desenvolvimento de novos autores, que passam por um processo de seleção. Esse workshop de 3 dias, porém, é aberta ao público, mas há limite de vagas e é preciso inscrever-se.
Inscrições até 20 de agosto.

Dramaturgias, no CCBB do Rio Hoje é o quarto dos sete encontros mensais do projeto, que promove leituras dramatizadas de textos teatrais. O texto desta quarta é Kiev, de Sergio Blanco, autor uruguaio radicado em Paris. É uma releitura contemporânea do clássico “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekov. Não por acaso, a direção de Moacir Chaves, que montou a obra original no ano passado. No elenco: Elisa Pinheiro, Gillray Coutinho, Monica Biel, Peter Boos e Diego Molina. Mediação de Roberto Alvim.  Começa às 18h30. Entrada franca. Senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h de hoje.

 
Dramaturgias, no CCBB de São Paulo Em São Paulo, o projeto Dramaturgias dedica-se este ano a autores franceses. Hoje, leitura do texto Le Frigo – A Geladeira e Loretta Strong, de Copi, com Márcio Vito. Direção de Thomas Quillardet. Às 19h30. Entrada franca, com senhas distribuídas na bilheteria do CCBB a partir das 10h. Após a leitura, o elenco e o diretor promovem um bate-papo com a platéia para discutir a dramaturgia contemporânea nacional e francesa.

Fernando Bohrer volta ao palco com “Câmera”

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro with tags , , , , on 18/08/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Vai ter fila de aluno e ex-aluno da CAL na porta. Um dos professores mais queridos da Casa de Artes de Laranjeiras, encarregado de dar o primeiro e decisivo empurrão nos estudantes  do primeiro período do curso profissionalizante de ator, vai voltar ao palco. E com toda vida e experiência de Fernando Bohrer, a gente sabe que ele encararia qualquer clássico com segurança. Pois não é para isso que ele está voltando a atuar, não. O professor está fazendo o que ensina copiosamente aos alunos: está se jogando.

O monólogo “Câmera” é o resultado de um processo altamente experimental de concepção de texto e construção de personagem. Não quero estragar surpresas, nem sei até que ponto convém falar.  Mas o que posso dizer é que o olho do Fernando brilhava que nem criança com brinquedo novo quando ele abria o caderninho com o texto que vinha co-escrevendo ou co-inventando com a jovem Pangéia cia.deteatro.  E o olho faiscava quando ele comentava a dificuldade de se comunicar com a realidade de um personagem cuja fala é construída num idioma (?!) obscuro para todos. Inclusive para ele. O processo não permitu uma interação verbal articulada e racional – como se dá até no mais banal dos papos ou na mais básica das leituras teatrais.  E essa loucura toda deixava o Fernando quase no escuro, mas quicando de uma ansiedade tão motivadora que contagiava só de ouvir.

Na peça, mestre Fernando Bohrer faz um pianista. E toca – o que certamente amplificou seu prazer no processo.

“Câmera” estréia dia 5 de setembro, no Gláucio Gil, e é a terceira parte de uma “Trilogia do espaço”.

Por enquanto, deixo vocês com o teaser: uma entrevista com o pianista Lvyon Kersch.

‘O Monólogo da Velha Apresentadora’ e a arte de fingir para si mesmo

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , on 12/08/2009 by dramaticoblog

O auto-engano é uma banalidade. Todo mundo finge para si mesmo. Seja na forma de uma racionalização arguta, uma justificativa furada ou uma fantasia desvairada. Algumas figuras, porém – sabe-se Deus por que dores da alma – agarram-se ao auto-engano como a uma droga e não conseguem se relacionar com o mundo de cara limpa.

Não falo aqui da loucura de fato ou qualquer outra situação que comprometa a capacidade de escolha. Nem das mentiras políticas, descaradas demais para enganar qualquer um.

Falo da euforia que se extrai de uma mentira social bem contada, do aplauso interno que sente quem acha ter conseguido enganar um mundo que, de outra maneira, não o aceitaria. É uma alegria vingativa – e que vicia. E é auto-engano porque ninguém chega lá com planos de revelar seus segredos e rasgar o personagem no meio do baile. A lógica (?!) aqui é: vingo-me da arrogância e intransigência do mundo, infiltrando-me nele camuflado, amoldando-me a seus gostos, tolhendo meus modos, seguindo suas regras. Finjo para mim mesmo, no fim das contas, que isso é uma vingança libertadora – quando, na verdade, entreguei meus pulsos às algemas. A intenção do “penetra”, reconheçamos, não era explodir uma bomba na festa. Era somente aproveitar o banquete. Enfim: compactuo com o que digo abominar. Vendo uma alma que, na verdade, era muito mais barata do que a etiqueta da minha consciência dizia ser. Uma pechincha dos infernos.

Guzik como Febe Camacho

Guzik como Febe Camacho

Estou dando toda essa volta porque auto-engano – vocábulo que eu não inventei; a coisa que é título de livro e tudo – foi uma expressão que ficou me rondando por dias a cabeça depois de ver “O Monólogo da Velha Apresentadora”, nos Satyros, com Alberto Guzik e Chico Ribas, com direção de Josemir Kowalic.  Eu sei que, para muita gente, é a virulência do texto de Marcelo Mirisola o que mais fisga, pondo na boca da nem tão fictícia Febe Camacho um monte de impropérios que costumam ser concebidos, mas jamais paridos em público. Ok, essa ousadia cria sim momentos hilários, que servem bem como crítica social afiada. Mas, para mim, não ficou aí.

O que me fisgou na peça, que reestreou dia 8, foi uma exposição impiedosa do auto-engano. Que delícia é ver a personagem desmontando em contradições na frente da gente. E mais delicioso ainda é perceber que ela juraria que não enxerga contradição alguma. E a gente ainda fica na dúvida se, àquela altura da vida, ela seria mesmo capaz de enxergar suas contradições. Pois se o casamento da hora foi de fachada, a piedade caridosa é preconceito mal disfarçado, o sorriso só se abre com o obturador das câmeras, a memória nostálgica é filtrada e ficcional, o aplauso arrancado a fórceps é recebido com orgulho… Enfim, sobra o que em cima dessa carcaça?

Parece que nada. Mas só parece. Olhada um pouco mais de perto, a velha apresentadora não é uma personagem achatada como a personagem pública que ela sustenta em cima do salto e embaixo da cabeleira loura. É uma personagem dentro de outra.

Vamos a ela. Febe Camacho vendeu a alma e outros atributos bem mais concretos de sua pessoa pro diabo a quatro. Acumulou fama, fortuna e umas memórias que fariam corar Nelson Rodrigues. Rodopiou até quando pode no baile da vida boa, onde se infiltrou mal disfarçada de celebridade queridinha da alta sociedade. Agora, vive seu fim de festa – o momento chega pra todos, afinal. A banda já parou de tocar, as cadeiras já estão sobre as mesas e alguém já varre os restos. Mas lá está Febe, trôpega, embriagada pela mentira em que vive, rodopiando para cada vez menos gente ver e aplaudir.

Não é isso, ao pé da letra, que você vai ver no palco. Tudo aí é metáfora. Mas acho que ajuda a entender em que estágio da vida Febe é surpreendida pelo seqüestro de sua empregada e acusada pelos bandidos de falta de consciência social porque se recusa a pagar o resgate. É como se o seqüestrador fizesse as vezes de um garçom que surpreende a velha dormindo e babando na mesa ao fim da festa e cutuca para ver se ela ainda está viva.  Acordada no susto, ela esbraveja, esperneia, quer saber se essa nova ordem do mundo – que já não lhe dá importância, nem lhe presta muito respeito – tem noção de com quem está falando.

A personagem dentro da outra é a que se debate com todas as forças que lhe restam para manter de pé seu castelo de Caras, tentando jamais demonstrar que já sente a estrutura ruir sobre sua cabeça.

Alberto Guzik, ator e crítico teatral, tem o mérito de construir essa personagem-matrioska, com fingimentos dentro de fingimentos, sem amparo de nada além de uma peruca e batom. A roupa é a mesma com que ele entra em cena, como ele mesmo, e trava um rápido diálogo com a platéia. Febe surge no corpo de Guzik sem transição, sem efeito externo. Numa troca de postura e pronto, ela está lá.

Febe divide a cena com o assistente de palco interpretado por Chico Ribas, que sustenta uma divertida tensão na relação com a velha apresentadora. O assistente é domador de um leão desdentado. Mas ora bolas, ele sabe que ainda é um leão – e raivoso. Um passo em falso, e é o pescoço dele que pode sangrar com a patada. A postura pé-no-chão do assistente serve de contraponto aos desvarios de Febe, e esse equilíbrio rende gargalhadas.

Os 45 minutos da peça passam voando.

Depois do espetáculo, tive chance de bater um bom papo com o Guzik. Matei mil curiosidades. Criei outras tantas. Fiz muitas perguntas, sorvendo avidamente um tantinho dos 60 anos de teatro que ele comemora com “O Monólogo…” Perguntei, perguntei.  E não esgotei minhas interrogações. Sobre o prazer com que ele encara a empreitada de viver a Febe Camacho, no entanto, não me restou qualquer dúvida. Não ficou interrogação. Não há engano. E a platéia percebe isso.

 

SERVIÇO

MONÓLOGO DA VELHA APRESENTADORA

 Espaço dos Satyros Um

Texto: Marcelo Mirisola

Direção: Josemir Kowalick

Elenco: Alberto Guzik e Chico Ribas

Trilha sonora: Ivam Cabral

Iluminação: Rodolfo García Vázquez

Assistência de direção: Chico Ribas

Quando: Sábados, 19hs, e domingos, 18h30

Onde: Espaço dos Satyros Um, pça Roosevelt, 214

Quanto: R$ 20,00; R$ 10,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt)

Lotação: 70 pessoas

Duração: 45 min

Classificação: 14 anos

Gênero: Comédia

Reestréia: até 27 de setembro

Reflexões de Antonio Fagundes

Posted in Espetáculos, Estreias, Teatro on 12/08/2009 by dramaticoblog
 

MÁRCIA ABOS (marciaabos@gmail.com)
 
Na coletiva para apresentar a peça “Restos” à imprensa, Antonio Fagundes estava muito simpático. Chegou numa sala de conferências da Faap cumprimentando todos os repórteres e fotógrafos e não quis se sentar na mesa. Evitou a formalidade e sentou-se no chão mesmo, pedindo aos jornalistas que se aproximassem. O gesto do ator, diretor e produtor deu o tom do bate-papo.
 
Fagundes contou que passou três anos sem atuar nos palcos. Nesse período, leu diversos textos dramáticos – incluindo Shakespeare e Moliére -, mas se apaixonou pelo monólogo “Restos” do norte-americano Neil LaBute.

– É uma linda história de amor que não é contada de forma tradicional. Além disso a dramaturgia de Neil LaBute tem sempre um jogo que nos surpreende – resumiu Fagundes, fazendo mistério sobre a tremenda reviravolta que a peça dá no final.

Fagundes vive um viúvo que reflete não somente sobre sua vida, um cigarro após o outro, mas, principalmente, como ele a transformou. Ora relatando o profundo amor, ora a grande perda, sugere uma intimidade com o espectador pela franqueza de seu depoimento, ao mesmo tempo em que se torna profundamente provocador, sem se afastar da temática central, que é universal. Seu personagem tece comentários sobre uma sociedade muitas vezes propensa à confissão pública e relatos emocionais, mais interessado em evidenciar como se pode dar forma ao próprio destino do que como ele pode moldar as pessoas.

Fagundes contou que está documentando os ensaios e bastidores da montagem e pretende colocar na internet vídeos que mostrem o processo de criação.

– Mostrar os bastidores é uma coisa que sempre quis fazer, mas antes da internet era muito complicado – disse.

Para montar o monólogo de Fagundes, há mais de 40 pessoas trabalhando.

– Às vezes acho que o público chega no teatro e pensa que estamos improvisando ao ver tudo pronto – explica Fagundes sobre seu desejo de mostrar que não é bem assim, colocar uma peça de pé leva meses de trabalho.

Sobre a escolha de textos, o processo de Fagundes é ler muito e selecionar o que cause impacto, sem se preocupar a priori com uma agenda. E depois sua busca é reproduzir em todo o processo de trabalho as emoções que teve na leitura inicial.

– É um texto impactante e quero preservar esse impacto.

O tarimbado ator revelou que ainda sofre de nervosismo em véspera de estreia.

– Fico muito nervoso. Com 43 anos de profissão, você sabe as possibilidades de erro e acerto e lidar com o acaso é um terror. Tudo que queríamos de bom está reunido, mas pode dar errado.

Comunicar-se com a platéia é sempre o objetivo central de Fagundes.

– Tenho necessidade de me comunicar com o público. Teatro antes de ser arte e cultura, é comunicação. Estou me dirigindo ao maior número de pessoas. Penso no ‘Seu José’ e ‘Dona Maria’ passando em frente ao teatro, que resolvem entrar para se abrigar da chuva e assistem à peça.

Mas a busca por se comunicar com todos não significa simplificar.

– Dar algo mastigado só afasta o público. Gosto de peças nas quais quem sai do espetáculo converse sobre ele nos cinco minutos de caminhada até o estacionamento.

Fagundes contou que gosta muito de teatro: chega a assistir de 70 a 80 espetáculos por mês.

– Vou a meia-noite se estiver trabalhando. Vejo teatro em ordem alfabética. 

Sobre textos de novos autores, Fagundes explicou que encontra dificuldades de aproximação, uma vez que não são peças publicadas e nem sempre cópias chegam a sua mão.

A diversidade do teatro em São Paulo foi elogiada por Fagundes, que lamentou o fato da cena carioca viver de ondas.

– Em São Paulo o público se exercita e torna-se mais sensível a mudanças. Semana passada tive o trabalho de contar e há 105 peças em cartaz no momento, dos gêneros mais diversos. No Rio há ondas: do musical, do besteirol, etc. Fica mais difícil para o público encarar algo diferente.

Conhecido por sua extrema pontualidade – quem chega atrasado aos espetáculos de Fagundes não entra e não tem direito a trocar o ingresso ou pedir o dinheiro de volta – o ator explicou suas razões.

– O público sempre foi disciplinado. A imensa maioria chega antes do horário. Digamos que 1.190 chegam no horário e 10 se atrasam e entram fazendo muito barulho. Resolvi peitar esses 10.

Para Fagundes, a crítica teatral no Brasil é “uma ação entre amigos”.

– Raríssimas pessoas lêem uma crítica de teatro. Fica uma ação entre amigos. Se falam bem de mim fico contente, ou fico bravo se falam mal e fica por isso mesmo. Não tem sentido a crítica se não houver repercussão. Não me lembro de nenhuma crítica tirar ou colocar um espetáculo em cartaz. É a indicação dos amigos que leva 90% do público.

P.S. Escrevi para o site do Globo um texto sobre a mesma coletiva. Fagundes falou que preferiu não captar recursos via lei Rouanet. Para ler, clique aqui.

SERVIÇO

RESTOS – Com Antonio Fagundes. Teatro FAAP – Rua Alagoas, nº 903 – Higienópolis, São Paulo, SP. Estreia 20/08/2009. Temporada até 29 de novembro. Horários: Quintas e Sextas, às 21h, Sábados, às 20h, e Domingos, às 18h. Site: http://www.faap.br/teatro Bilheteria: Quarta à Sexta, das 14h às 20h, sábado, das 14h às 19h, domingo, das 14h às 17h. Telefones: 11 – 3662-7233 ou 11 – 3662-7234. Preços: R$ 100. Capacidade: 506 lugares. Classificação Etária: 12 anos/ Duração: 70min. Infra-estrutura: Acesso para deficientes físicos e ar-condicionado. Vendas para grupos:  11 – 3437-5308

Chegue ao teatro com 30 minutos de antecedência; o espetáculo começa rigorosamente no horário marcado, não haverá troca de ingressos ou devolução de dinheiro em caso de atraso.

FICHA TÉCNICA

“Restos”, de Neil LaBute, com Antonio Fagundes
Tradução: Clarisse Abujamra
Encenação: Marcio Aurelio
Cenário: André Cortez
Figurinos: Ricardo Almeida
Assistente de Direção: Lígia Pereira
Assistente de Produção: Bruno Fagundes
Direção de Produção: Marga Jacoby
Realização: Fagundes Produções Culturais