No Itaú Cultural, o memorial da resistência de José Celso Martinez Corrêa e do Teatro Oficina


 
POR MÁRCIA ABOS (marciaabos@gmail.com)
 

Estive ontem na abertura da “Ocupação Zé Celso” no Itaú Cultural em São Paulo. Havia tanta gente lá para prestigiar o encenador que mal deu para ver direito a exposição, que teve curadoria do ator, diretor e produtor de teatro Marcelo Drummond (há mais de 20 anos no Teatro Oficina) e da videomaker Elaine Cesar. Ficou a vontade de voltar e ficar por lá umas quatro horas, ver todos os vídeos com calma, ler tudo… Em resumo, vale a visita para quem gosta de teatro.

A vida e obra de Zé Celso ocupam 169 metros quadrados do térreo do prédio que fica na Avenida Paulista. Centenas de fotos mostram um pouco da intimidade do artista. Há 12 cenários retratando diferentes épocas da vida de Zé, de um cela referente à prisão e tortura na ditadura, a um quarto chamado “Paucucama”, com paredes forradas de espelhos, uma cama com lençóis de seda vermelha e uma TV no teto mostrando cenas eróticas das montagens do Oficina (entrar no quarto é proibido para menores de 18 anos).

Andando pelos cenários apinhados de gente, vendo a alegria de Zé Celso, que no auge de seus 72 anos parecia um menino, fui pensando na trajetória do Oficina e de Zé. Não há no mundo teatro igual, mas ainda assim alguns críticos e acadêmicos não reconhecem o valor da antropofagia de Zé Celso e sua trupe.

 

 

Na cama com Zé Celso. Foto: Chirstina Rufatto

Na cama com Zé Celso. Foto: Chirstina Rufatto

Para mim, o Oficina e Zé Celso estão em uma categoria na qual incluo o teatro feito por gigantes como Peter Brook e Ariane Mnouchkine. Cada um com seu estilo, são inovadores, provocam, criam linguagem e fazem um teatro vivo, capaz de transformar àqueles que o assistem. Ir ao Oficina é saber que, quando o espetáculo termina, não sobra pedra sobre pedra em nossa maneira de ver o mundo. E é delicioso se entregar a essa espiral de reflexão e transformação.

Na luta há mais de 50 anos, Zé Celso não se vitimiza diante das dificuldades de fazer teatro no Brasil. A dor e a delícia de manter vivo o Oficina permeiam sua obra, um manifesto de resistência dos subversivos. Coragem e energia não faltam a Zé para seguir lutando pelo que acredita, com uma coerência ímpar.

Creio que a empreitada monumental de adaptar para o teatro “Os sertões”, de Euclides da Cunha, fez muita gente acordar e (re)descobrir o valor do Oficina. As quatro peças também serviram para apresentar o grupo à juventude. Não que o projeto de adaptação de “Os sertões” fosse novo, é um sonho acalentado por Zé Celso desde a volta do exílio em 1979.

Após um pocket show na abertura da mostra, no qual cantou e tocou piano, Zé Celso disse emocionado que a Ocupação “é uma chance para todos serem Zé”.

Zé Celso como Antonio Conselheiro em 'Os sertões'. Foto de 2007 do aqruivo do Oficina

Zé Celso como Antonio Conselheiro em 'Os sertões'. Foto de 2007 do arquivo do Oficina

Foi bem essa a idéia de Marcelo Drummond:

“Quando começamos a falar sobre a exposição, pensamos nos penetráveis de Hélio Oiticica. Não é a mesma coisa, mas o que nos chamava a atenção era produzir ambientes sobre cada episódio da vida de Zé Celso e a vontade de que cada espectador possa experimentar como se fosse um parangolé, e penetrá-lo.”

Como bom provocador que é sempre, Zé aproveitou pra comentar: “Adorei ter Milu Vilela e Eduardo Suplicy comigo na cama”. Tabus existem para serem quebrados, né não?

Bom, acho que escrevi demais. Mas queria muito saber o que pensam vocês do Oficina, inclusive opiniões totalmente contrárias às minhas. Evoé!

“Ocupação Zé Celso” – De 30 de julho a 6 de setembro. De terça a sexta, das 10h às 21h. Sábs., doms. e feriados, das 10h às 19h. Entrada franca. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô. Fones: 11. 2168-1776/1777

FICHA TÉCNICA

Curadoria: Marcelo Drummond e Elaine Cesar

Projeto expográfico: Elaine Cesar Cenografia e arte: Rafael Ghirardello

Vídeo: Jair Molina Jr

Musica: Guilherme Calzavara e Otávio Ortega

Iluminação: Arnaldo Mesquita

Produção de imagem e pesquisa: Valério Peguini, Cassandra Melo e Solange Santos

Apóio gráfico: Rafael Gonçalves

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