Para salvar a Praça Roosevelt

Posted in Debates e encontros, Dramaturgia, Espetáculos, História do teatro, Teatro on 06/12/2009 by dramaticoblog

Por Márcia Abos (marciaabos@gmail.com)

Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo.

Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público.

Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar.

Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo).

Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro…

P.S. Em tempo, na noite deste domingo, 21h, os Parlapatões organizam um ato para a recuperação de Mário Bortolotto e em repúdio à violência. Vamos lá? Leia a convocação no ParlapaBlog

Dezembro vai ficar apertado…

Posted in Espetáculos, Teatro on 04/12/2009 by dramaticoblog

Cilene Guedes (cileneg@gmail.com)

Termina segunda-feira um período intenso… Começa outro. As férias serão para ler e ver muito teatro. Abaixo, a longa lista do que eu não vi e gostaria de ver. Algumas coisas estão em cartaz há muito tempo, então acho que este mês será minha última chance. Se alguém tiver mais dicas da cena teatral do Rio para dezembro, por favor, manifeste-se. E se alguém já estiver por dentro de algum espetáculo imperdível que estreie em janeiro, abra o coração… As informações são do Guia OFF e da Veja Rio.

ALÉM DO ARCO-ÍRIS Luciana Braga brilha na pele de Rita, atriz abalada pela morte do marido, um diretor teatral com quem foi casada durante 26 anos. O texto é delicado, inteligente e de identificação imediata com a plateia. Luciana divide o palco com Luciano Borges, no papel de um faz-tudo do casal. Sua discreta presença conduzirá o espectador a um final inesperado. De Flávio Marinho. Direção do autor. (80 min) Teatro Municipal Maria Clara Machado – Planetário da Gávea . Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Até dia 20. R$ 30,00 e R$ 10,00 (campanha Teatro para Todos)

A CASA de Diego de Angeli, Emanuel Aragão e João Marcelo Iglesias. Drama. A relação do homem com os espaços públicos e privados. Uma família se reúne para relembrar histórias, na véspera da chegada do patriarca, construindo uma casa dos sonhos. Com Daniel Kristensen, Gabriel Salabert, Gabriela Carneiro da Cunha e Izadora Mosso Schettert. Dir. Diego de Angeli. Centro Cultural Justiça Federal. Qua e qui, 19h. R$20. 14 anos. Até 17/12.

CLANDESTINOS texto e dir. João Falcão. Comédia. Baseada nas histórias de jovens artistas que vieram para o Rio de Janeiro em busca da grande chance. Com Cia. Instável de Teatro. (90min). Teatro do Leblon. Ter e qua, 21h. R$30. 12 anos.

CORTE SECO Terceira parte da trilogia iniciada com o monólogo Conjugado, e seguida por A Falta que Nos Move, o drama desenvolve a ideia de que o curso da vida pode ser interrompido a qualquer momento. Seja por um acidente, uma revelação, um crime ou mesmo um fato banal. Diante dessas situações, a diretora “edita” a peça a cada sessão, mudando a ordem das cenas e as cortando em pontos diferentes. Com a Cia. Vértice de Teatro e Eduardo Moscovis, Thereza Piffer, Felipe Abib, Ricardo Santos, Stella Rabello, Branca Messina e Leonardo Netto. (100min) Espaço Cultural Sérgio Porto.  Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. Até dia 20. R$ 30,00 e R$ 10,00 (campanha Teatro para Todos)

OS DIFAMANTES de Martha Mendonça e Nelito Fernandes. O poder da mídia e as ilusões que ela fabrica. Com Emílio Orciollo Netto e Maria Clara Gueiros. Dir. Ernesto Piccolo. (90min). Teatro dos Grandes Atores. Sex e sab, 21h; dom, 20h. R$60 (sex e dom) e R$70 (sab). 12 anos. Até 20/12.

FARSA DA BOA PREGUIÇA de Ariano Suassuna. Comédia Musical. Personagem nordestino que explora, com versos, suas habilidades: a preguiça e sua relação com as mulheres. Com Guilherme Piva, Bianca Byington, Ernani Moraes, Daniela Fontan, entre outros. Dir. João das Neves. (120min). Teatro Carlos Gomes. Qui a sab, 19h30; dom, 19h. R$30. Livre. Até 13/12.

GORDA de Neil LaBute. Uma história de amor onde não há ciúme, nem traição. Um amor que tem como maior obstáculo a discriminação sutil e a covardia de se enfrentar preconceitos. Com Fabiana Karla, Michel Bercovitch, Mouhamed Harfouch e Flávia Rubim. Dir. Daniel Veronese. (90min). Teatro das Artes. Qui a sab, 21h30; dom, 20h. R$60 (qui e dom), R$70 (sex) e R$80 (sab). 14 anos. Até 20/12. Retorna 07/01.

A HISTÓRIA DE NÓS 2
de Licia Manzo. Comédia. Diferentes facetas de um mesmo homem e uma mesma mulher, que juntos vivem uma relação. Com Alexandra Richter e Marcelo Valle. Dir. Ernesto Piccolo. (75min).Teatro Vannucci. Qui, 17h30 e 21h30; sex, 21h30; sab, 20h e 21h30; dom, 20h. R$50 (qui), R$60 (sex e dom) e R$70 (sab). 12 anos. Até 27/12.

O HOMEM DA TARJA PRETA de Contardo Calligaris. O texto traz para o palco uma questão da vida moderna: não é fácil ser homem! Com Ricardo Bittencourt. Dir. Bete Coelho. (70min). Teatro do Leblon. Ter e qua, 21h. R$40. 16 anos. Até 16/12.

O INTERROGATÓRIO de Peter Weiss. Reflexão sobre os horrores aos quais somos passíveis. Durante a apresentação, com duração de seis horas, o espetáculo possui pequenas grandes pausas onde o espectador terá inteira liberdade para entrar, assistir, sair e voltar quando quiser. Com Alexandre Varella, Xando Graça, Carla Ribas, entre outros. Dir. Eduardo Wotzik. Espaço Tom Jobim. Dias 04, 05 e 06; 18h. R$1,50. 14 anos.

KABUL Depois de abordar o conflito entre israelenses e palestinos em Dragão, a Cia Amok Teatro ambienta no Afeganistão o segundo espetáculo de uma trilogia sobre guerra. Em uma Cabul devastada, quatro personagens buscam sentido para suas vidas: Madji, comerciante que perdeu sua posição social; Zunaira, proibida de exercer a profissão; Tariq, combatente mutilado que se tornou carcereiro, e sua esposa Maryam, vítima de doença incurável. (80 min) Casa Amok. Sexta e sábado, 20h30; domingo, 19h. Até domingo (13). Ingresso: R$ 10,00. É necessário fazer reserva 3283-0340

LARANJA AZUL A dinâmica entre um jovem negro esquizofrênico e dois psiquiatras num sanatório londrino. Com Rogério Froes, Rocco Pitanga e Pedro Brício. Dir. Guilherme Leme. (85min). Centro Cultural Banco do Brasil. Qua a dom, 20h. R$10. 14 anos.

A MÁQUINA DE ABRAÇAR O autor espanhol assina este drama sobre a história real da autista que criou para si a máquina do título. Em cena estão Mariana Lima, como a autista Íris, e Marina Vianna, no papel da terapeuta Miriam Salinas. Diretora estreante, a atriz Malu Galli imprimiu ritmo dinâmico à sessão. Em um dos melhores trabalhos de sua carreira, Mariana Lima faz uma composição sensível de Íris, com gestual impecável, modulações precisas na voz e nenhuma afetação. Sua companheira de cena brilha como a terapeuta empenhada em minimizar os sintomas de uma vida condenada à solidão. (80 min) Espaço Tom Jobim – Antiga Marcenaria; Quinta e domingo, 19h; sexta e sábado, 21h30.  R$ 30,00. Até dia 13

AS MENINAS de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes. Comédia Dramática. O universo feminino, em meio a uma série de dúvidas e observações típicas da infância. Com Analu Prestes, Clarisse Derzié Luz, Sara Antunes, Patrícia Pinho e Vanessa Gerbelli. (80min). Sesc Tijuca. Sex a dom, 20h. R$16. 12 anos. Até 20/12.

O QUE RESTOU DO SAGRADO de Mário Bortolotto. Uma reflexão sobre a existência de Deus. Com Grupo Tartufaria de Atores. Dir. Jaime Leibovitch. (60min). Casa da Glória. Qui a sab, 21h. R$20. 18 anos. De 03 a 19/12.

O SANTO INQUERITO de Dias Gomes. A lenda sobre uma jovem que foi queimada na Paraíba em 1750, vítima da Inquisição. Com Claudio Mendes, Karan Machado e Mariana Mac Niven. Dir. Amir Haddad. (100min). Espaço Sesc. Qui a sab, 21h; dom, 19h30. R$16. 12 anos. Até 20/12.

O tempo, os Conways e trinta e poucos iniciantes apaixonados

Posted in Dramaturgia, Teatro on 02/12/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Sabe esses amores que não começam com fogos de artifício hormonais? O coração não dispara, não há arrepios, soluços, engasgos… Esses afetos que começam velados até para quem ama e vão se descortinando aos poucos. No prazer da conversa, no aconchego da rotina. Revelam-se devagar, sim, mas tão irremediavelmente que, ao fim de sua sutil tomada de nosso senso – de equilíbrio, de ridículo… – não aceitam outra atitude que não a capitulação.

Ontem, eu me rendi. Ergui bandeira branca para “O tempo e os Conways”.

Com mais 30 – e como mais de uma centena antes de nós -, encenei apaixonadamente a obra mais popular de J. B. Pristley. (Não que paixão aqui implique qualidade técnica. Escola é para se aprender. Ou seja: erra-se.) Já é quase uma instituição naquela casa na encosta de uma montanha em Laranjeiras. Turmas iniciantes da disciplina de interpretação encenam sempre esta peça, quando o professor à frente da cadeira é Renato Icarahy, ator, diretor, ex-Tapa e professor também da Uni-Rio. Não dá pra chamar de montagem. Chamamos de um “exercício de montagem”. Um processo iniciado há dois meses, quando tivemos o primeiro contato com o texto escrito.

Dois meses que começaram com um estranhamento proporcional ao de uma Hazel diante de um Ernest Beevers.

– Por que raios essa peça de novo, e de novo, e de novo, e de novo?…

Divulgação - National Theatre

Poderia parecer conveniência. Renato participou da montagem do Tapa nos anos 80 e fez a tradução. Conhece a peça, tem o texto decorado, chega a irritar e envergonhar. Percebe cada tropeço em cada fala. Um tormento… (Possivelmente para ele também!) A conveniência era aparente e enganadora.

“O tempo e os Conways” é um dos mais belos textos teatrais que existem. Digo isso sem medo da superficialidade dessa comparação genérica. Concentrada em duas reuniões – uma festiva, a outra não – (que parecem) separadas por 19 anos, essa história de uma abastada família inglesa que implode melancolicamente aos olhos do espectador é urdida com fios de cores e texturas profundamente distintas. Parafraseando Blake, influenciador de Pristley, sob cada fio ressequido de tragédia familiar, corre feliz um brilho de realismo (quase) mágico. A trama tem ainda um quê de drama histórico, ficção científica, realismo naturalista, teor político, econômico e social. Compreenda: não são retalhos colados. São fios de um mesmo tecido. Uma trama só.

O tear que orienta a ordenação desses filos é a relação entre personagens extremamente marcantes. Mãe, seis filhos, uma amiga/nora, um estranho/genro, um amigo da família. Todos capazes de amar muito. Todos capazes de ferir demais. Todos capazes de ferir porque amam. E de cobrir de amor a quem ferem. Sonham com intensidade. Frustram-se mais profundamente ainda. “Há muito afeto nessa família”, alertava Renato quando, no arroubo de descrever e compor personagens, carregávamos no que nos parecia mais aviltante. Os Conways são como insetos banais que, vistos com lupa, revelam suas incríveis e alegres listras furta-cor, bem como seus ferrões abrasadores.

A estampa geral que Pristley forma com cada um desses fios é de ordem mais universal ainda. É o que um grupo de colegas chamou de “a ironia entre os sonhos e os destinos”. Não somos o que sonhamos que seríamos. Somos o que o tempo fez de nós até agora. Contudo, inspirado por J. W. Junne,  Pristley recusa-se a apresentar o tempo como o demônio manipulador que a personagem Kay descreve em prantos ao perceber a família em frangalhos. O tempo não é uma força que puxa a corda de nossas vidas conduzindo-nos sempre numa direção linear e sem volta. O tempo é uma rede, sem começo, nem fim, nem meio. Nossa percepção é que o apreende linearmente.

Ainda que não se acredite na teoria – que fez o autor ousar introduzir um soturno segundo ato aparentemente deslocado entre dois atos ocorridos numa mesma festa -, a peça deixa essa incômoda sensação de que talvez sejamos responsáveis pelo foi de nossos sonhos. Ou de que talvez eles jamais tenham sido realizáveis. E (que bom!) não responde, em momento algum, a pergunta de um milhão de libras: a felicidade é possível?

É da riqueza de textos assim que emerge uma das experiências mais compensadoras para quem se propõe a um exercício de montagem. Não havia um dia, uma nova leitura, um novo ensaio em que um aspecto ainda não descoberto da obra não saltasse aos olhos. E de insight em insight fomos nos apaixonando pela história dos Conways, como contada por Pristley.

Antes de nós 30 e poucos, centenas de outros alunos da escola amaram os Conways. E amaram-se e odiaram-se ao emprestar seus corpos à história dos Conways. Precederam-lhes outros apaixonados – por teatro. Maria Clara Machado foi Kay em 1957; seu irmão Allan era Rubens Correa, e nesse ano Yan Michalski fez a assistência de direção. A produção era do Tablado. Aderbal Freire Filho dirigiu em 1977. E o Tapa de Eduardo Tolentino de Araújo montou em 1985 e 1986, com Beatriz Segall, Ricardo Blat, Luciana Braga… Neste ano, a peça entrou em cartaz em Londres, no National Theatre, com direção de Rupert Goold.

Queria poder ver uma montagem profissional. Com a bandeira branca de minha rendição erguida. Com um paradoxal orgulho.

Festa hoje marca inauguração da SP Escola de Teatro. E já há muito para comemorar

Posted in Concursos, Cursos e oficinas, Teatro on 25/11/2009 by dramaticoblog

É hoje! Uma turma de primeira linha abre hoje oficialmente os trabalhos da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco: uma escola pública, criada em parceria de artistas com o governo do estado de SP, que vai formar, GRATUITAMENTE, atores, cenófragos, figurinistas, diretores, dramaturgos, iluminadores, sonoplastas…

À frente, estão os Satyros Ivam Cabral, que é diretor artístico,  Alberto Guzik, diretor pedagógico, e Cléo de Páris, diretora da ideias (adorei isso!). Na lista de coordenadores dos cursos regulares, mais boas notícias:

Atuação – Rodolfo García Vázquez
Cenografia e figurino e Técnicas de Palco – J.C. Serroni
Dramaturgia – Marici Salomão
Humor – Raul Barretto
Direção – Hugo Possolo
Sonoplastia – Raul Teixeira
Iluminação – Guilherme Bonfant

A escola começa a funcionar provisioriamente no Brás (na Av. Rangel Pestana, 2.401), enquanto não fica pronta a sede, que será num edifício lá no coração da Praça Roosevelt.

Nas Satyrianas, bati um papo muito rápido com o Guzik, diante do prédio. Era bacana ver que ele não enxergava mais ali o esqueleto de um prédio que foi até invadido no passado. Ele via o que o prédio vai ser (o projeto, aliás, está na Bienal de Arquitetura, que vai até dia 6). Mais que isso, Guzik parecia ver o movimento de gente, a efervescência de idéias, os ímpetos, as tenacidades, as angústias criadoras, as descobertas… Ele contava que os cursos serão independentes, mas que os exercícios de montagem vão unir as habilidades de todos.

Sempre funcionou assim pros Satyros e outros artistas que ocuparam a Roosevelt. Se eles só vissem na praça o que é aparente, se apenas enxergassem na vizinhança sua degradação, se fossem míopes para o potencial artístico de gente sem oportunidade, eles não teriam feito muita diferença onde vão, muito menos se instalando ali. Talvez nem tivessem permanecido. Permaneceram.

O processo de seleção dos artistas-aprendizes começa amanhã (26/11), com a abertura das inscrições, que vão até dia 4. A escola vai oferecer 200 vagas por ano – 25 por curso. As aulas começam em fevereiro. Os cursos vão durar dois anos.  Há um curso à parte, de difusão cultural, que dura um semestre.

Hoje, porém, a noite será só de festa, lá no casarão da Escola Normal, no Bras. A comemoração começa às 19h. Haverá três exposições fotográficas:  “Fotografia de Palco”, de Lenise Pinheiro; “Instante Eterno”, de Roberto Souza; e “Perpetuar o Efêmero”, de Adalberto Lima. Também haverá exposição de J.C. Serroni; “Espaços Teatrais: A Evolução da Arquitetura Cênica na História e a sua Interação com o Som e a Luz”.

A cantora Vanessa Bumagny vai dar um pocket show. Também se apresentam por lá o performer Luiz Maurício e a Banda Paralela. Os convidados ainda vão poder assistir ao documentário “SP Escola de Teatro”, dirigido por Laerte Késsimos.

Os homenageados da noite serão o professor Jacó Guinsburg e as instituições: EAD, Escola Livre de Santo André, Célia Helena, Conservatório de Tatuí e Escola Macunaíma.

E a programação não acabou. A noite também é de lançamento da Coleção Primeiras Obras, de peças teatrais (edição da Imprensa Oficial com Satyros Literatura). A coleção começa com os volumes:

1 – Otávio Martins, com prefácio de Silvana Garcia
2 – Gabriela Mellão, com prefácio de Alberto Guzik
3 – Ivam Cabral, com prefácio de Erika Riedel
4 – Sergio Roveri, com prefácio de Otavio Frias Filho
5 – Vera de Sá, com prefácio de Jefferson Del Rios
6 – Sérgio Mello, com prefácio de Mário Bortolotto
7 – Rudifran Pompeu, com prefácio de Evaristo Martins de Azevedo
8 – Marcos Damaceno, com prefácio de Roberto Alvim
9 – Lucianno Maza, com prefácio de Alcides Nogueira
10 – DramaMix 2007, com prefácio de Alberto Guzik e obras de: Alex Gruli, Ana Rüsche, Andréa Bassitt, Antonio Rocco, Bráulio Mantovani, Célia Forte, Claudia Vasconcellos, Contardo Calligaris, Duilio Ferronato, Eduardo Sterzi, Gerald Thomas, Germano Pereira, Jarbas Capusso Filho, João Luiz  Sampaio, José Simões, Jucca Rodrigues, Lúcia Carvalho, Marici Salomão, Mário Bortolotto, Mário Viana, Marta Góes, Nicolás Monastério, Noemi Marinho, Paulo Vereda, Priscila Nicolielo, Renata Pallottini, Roberto Alvim, Rogério Toscano e Sabina Anzuategui.

Para quem vai ter a chance de ir – eu não vou poder, culpem “O tempo e os Conways”… – boa festa. Brindem por mim.

Vai tentar o teste para “Gypsy”? You gotta get a gimmick, baby…

Posted in Teatro, Teatro Musical with tags , , , , on 23/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

– Você vai fazer o teste pra “Gypsy”?

Acho graça de quantas vezes tenho ouvido essa pergunta nas últimas semanas. E antes que alguém pense que isso tem algo a ver comigo, explico. Não tenho ouvido a pergunta porque acham que eu deva fazer o teste. Tenho ouvido a pergunta porque não se fala de outro processo de produção nos corredores daquela escola lá nas Laranjeiras.

E não deve ser só lá. Os testes foram divulgados em anúncio de revista, email-market, banner no site oficial de Charles Möeller e Claudio Botelho… Não dava pra passar despercebido. Não era para passar despercebido, claro. Era para causar alvoroço. E causou.

Vai ter fila. E torço para quem haja uma boa fila, qualificada, que realmente reflita o imenso interesse que o teatro musical tem despertado nas novas gerações de atores – mérito, óbvio e inconteste, dessa dupla de diretores.

Mas, também por conta dos sucessos em série dos musicais de Möeller e Botelho, é bem provável que haja gente sem noção nessa fila. Muitas Roses, Junes e Louises devem passar pelas audições, cada uma cumprindo seu papel, em vidas muito reais – e muito cheias de ilusão.

Não me interessa sacudir ninguém pra acordar do sonho de ver-se no elenco da primeira montagem brasileira de “Gypsy”, musical levado ao palco pela primeira vez em 1959, por Jule Styne, Stephen Sondheim e Arthur Laurents. É um sonho mais do que genuíno para quem ama o teatro. Möeller e Botelho julgam ser este o maior dos musicais da Broadway (no vídeo abaixo, os diretores e as atrizes Totia Meirelles e Adriana Garambone comentam o musical.) E só isso já seria mais do que suficiente para se presumir que vão tentar superar a precisão e a eficiência de tudo o que já levaram ao palco. Fazer parte disso é um privilégio. É um sonho mesmo.

Mas, sugiro – apenas sugiro – pés no chão.

Não que eu tenha condição de dar conselho. Quase tudo o que eu conheço de teatro musical – quase nada – é o que vivi como espectadora.  “Sete”, “Gota d’água”, “A Noviça Rebelde”, “Wicked”, “Avenida Q”, “Gloriosa”, “O despertar da primavera”, “Aquarelas do Ary”, “Beatles num céu de diamantes”… Estou certamente esquecendo alguma coisa. E não incluo na lista o que vi em versão para cinema. ( “West site story”, visto aos 12 anos, em vídeo, me marcou profundamente…) De qualquer forma é pouco. Pouquíssimo.

E confesso que também tenho a memória de uma certa bizarrice, uma aparência de fantasia de carnaval, alimentada por umas imagens meio esparsas, não muito convictas, de coisas como “O fantasma da ópera” e “Cats”. Pode ser preconceito do tipo não-vi-e-não-gostei. Pode ser.

Há três meses, porém, ando ganhando novas e surpreendentes memórias. Nomes como “Gypsy”, “Chicago”, “A chorus line”, “Dreamgirls”, “Fame”, “South Pacific”, “The Producers”, “Hair”, entre uma infinidade de outros, começaram a ganhar mais sentido. Mirna Rubim, craque absoluta do ensino do canto, e Menelick de Carvalho, diretor teatral que vem fazendo sua carreira na ópera, estão dando uma oficina sobre teatro musical, na qual me inscrevi por impulso. A oficina está consumindo o que me restava de tempo livre nessa vida – lá se foram meus sábados! Mas também está me abrindo janelas e arejando a cabeça. Ao mesmo tempo, o curso constrói, de dentro (das minhas cordas vocais modestas e do meu corpo exausto) para fora um profundo respeito aos musicais. Em dezembro, vamos nos divertir, transformando o que aprendemos no curso em um despretensioso espetáculo sobre a Broadway, uma costura de canções de grandes musicais que falam justamente sobre o show business.

Uma das músicas é tirada de “Gypsy”. Chama-se “You gotta get agGimmick”. Quem está preparando seu currículo para enviar para a Aventura Entretenimento (as inscrições vão até dia 3 de dezembro) deveria ouvi-la.

Você pode assistir ao vídeo (tirado da versão para o cinema, de1962) e apenas achar graça dos truques das stripers. E rir da frieza com que elas falam que não é preciso talento para fazer o que fazem. Ou você pode enxergar que, por trás da ironia, o que elas falam é muito real – e isso tem sido uma das maiores lições das aulas com Mirna e Menelick. Para fazer diferença numa fila de “200 garotas mais jovens e magras que eu” – como diz a moça de “Climbing uphill”  em “The last five years” – é preciso ter algo a mais.

Se você se inscreveu na seleção de “Gypsy”, estou presumindo que saiba cantar e dançar – nem tente se não souber e leve a sério os pré-requisitos. Mas não é só isso. Não será uma corneta ou uma roupa luminosa. Não será algo externo. E nem será técnica apenas. O que faz diferença é a verdade com que você seja capaz de exprimir-se, cantando, dançando ou atuando. É sua arte, afinal.

Pode ser que nem isso garanta sucesso na audição, muito menos um lugar no elenco de “Gypsy”. Mas, com certeza, quem for com esse espírito terá colaborado para que não se veja nessa seleção algo que lembre um concurso de misses, um show de calouros ou um desfile de egos inflados. Honestidade não é truque. Mas é um baita “gimmick”.

E pra fechar a tampa da discussão sobre como se faz, deixo Patti Lupone, 35 anos de Broadway, ganhadora do Tony de 2008 pelo papel de Rose, neste musical. Melhor que todas as minhas mil palavras, é ver e ouvir essa mulher cantando. Um assombro.

Começou o mês dos ingressos a preço popular no Rio

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , , , on 19/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Questão de utilidade pública.  Começou hoje a venda da temporada de preços populares no Rio. Sessenta e oito espetáculos aderiram à campanha “Teatro para todos” neste ano. Os ingressos vão custar de R$ 5 a R$ 25. Os postos de venda aparecem na imagem abaixo.

Estão na lista espetáculos que já são sucesso popular há tempos. Muita coisa que já atraiu  multidões ao teatro para aquela gargalhada relazada. Entre os quais: “Como passar em concurso público”, “Minna mãe é uma peça”, “Lente de aumento” e “Nós na Fita”. Muitos que também fizeram sucesso noutra faixa de humor, como “A História de nós 2”, “Clandestinos”, “Farsa da boa preguiça”, “Os difamantes”. Entre os drama, estão la “Inveja dos Anjos” e “O zoológico de vidro”. E há “Gorda”, que talvez fique num incômodo – e por isso mesmo interessante – limiar.

A campanha é da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro .

Se você tem um daqueles amigos que faz o gênero “Vá ao teatro – mas não me chame, porque é muito caro”, aproveite para carregá-lo. Dá até pra dar ingresso de presente!

Pra saber mais vá até: http://www.teatroparatodos.com.br/

PS.: Valeu a dica, Nina.

“Agora!” – uma viagem ao outro hemisfério do teatro de improviso

Posted in Espetáculos, Teatro with tags , on 11/11/2009 by dramaticoblog

CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Um certo tipo de teatro de improviso – às vezes mais show de humor do que teatro – floresceu nos últimos anos e conquistou platéias gigantescas. O fenômeno, paralelo à popularização da stand-up comedy, se alimenta da criatividade de espetáculos como “Z.É. (Zenas Emprovisadas)” e  “Improvável“. Quem já viu “Whose line is it any way” (ainda passa em algum canal??) nem precisa de explicação sobre do que se trata. Pra quem não viu, como explicar?…

É um jogo. Tem regras definidas aos olhos do público. Os atores são os jogadores. Há um convidado, normalmente também ator, que atua ora como apresentador, ora como árbitro. O desafio imposto aos atores é encenar de improviso situações criadas a partir de algum tipo de interação com o público – o que acaba resultando numa série de esquetes (??) concebidas a toque de caixa e apresentadas de uma maneira mais ou menos convencional.

A massificação de todo tipo de tendência cultural costume produzir resultados de qualidades variáveis. É natural. Do pouco que vi desse tipo de teatro, porém, não posso resumir minhas impressões de outra forma: eu me diverti horrores!!!! Chorei de rir!!!

AGORA!_CASADAGLÓRIA

Agora!

Num outro hemisfério do improviso, porém, está “Agora!”. Esse faz rir. E chorar. E chocar. E surpreender. Depende… O espetáculo está em cartaz na Casa da Glória, aos sábados. Foi concebido e é dirigido pela Claudia Mele, que conheci numa sala de aula da CAL (aquela casa lááá no alto das Laranjeiras…), tentando explicar ao longo de um período inteiro, pra 30 neófitos do curso de atuação, que raios é o tal método viewpoints! Sim, ela tentava arduamente… Primeiro, com palavras. Diante das caras de interrogação, mais umas palavras. Depois de mais caras de interrogação, ela desistia e partia para a ação. Quer dizer, nós partíamos, tentando fazer o que não tínhamos entendido bem. Mas, não por acaso, isso era aula de preparação corporal, não de compreensão de texto… O que passara reto acima da cabeça e da nossa capacidade racional de compreender, era rapidamente capturado quando, em vez da mente apenas, a gente usava o corpo todo. Não que a gente acertasse sempre. Pelo contrário. (E não sei de onde a Claudia tirou tanta paciência…). Mas ficou algo no corpo. Algo forte. Uma janela aberta para um estado de percepção do espaço, do tempo e do outro que é capaz de produzir imagens poéticas, fortes, inusitadas e até engraçadas. Tudo de improviso.

Para não ficar devendo uma explicação decente do que seja o método viewpoints, tema de interesse de muita gente boa – a Cia dos Atores e Henrique Diaz, por exemplo – transcrevo o que diz a Claudia na descrição de um curso que ela vai dar.

“Viewpoints é definido como um sistema de improvisação que oferece caminhos que permitem ao artista cênico a percepção e melhor compreensão da dimensão psicofísica de suas ações e da sua relação com o espaço, com o outro e com o grupo. Através de um trabalho relacional de tempo/espaço o ator desenvolve a sua percepção, memória, atenção, escuta, sensibilização além do estado de prontidão para a ação no momento presente.”

Boiou? Afunde. Fazendo.

Ou vá num sábado deste mês, às 19h, na Casa da Glória, ver o que Claudia, uma trupe de atores, bailarinos, atores -bailarinos e músicos estão aprontando em 50 minutos contados de improviso e poesia. Há mais do que viewpoints ali, mas o método é a base. Não espere o riso fácil dos espetáculos de improviso mais populares. Mas a rapidez e a sagacidade dos atores podem render gargalhadas. Bem como a sensibilidade pode fazer você puxar o lenço. (A Claudia mesma quase puxou, no fim da estréia, lembrando sua fonte de inspiração, “A farra dos atores”.)

Também há regras. Também há jogos. Também há temas centrais. E os motes também partem da imprevisível participação da platéia, a quem os atores-bailarinos fazem, bruscamente, perguntas de uma profundidade desconcertante. (Não vou adiantar nenhuma delas. Só confesso que, por um certa vergonha que em si me dá vergonha – pois é, vai entender?… – , menti descaradamente quando indagada sobre um dos temas… Improvisei, digamos assim!)

Mas o corpo do espectador e sobretudo do ator-bailarino-músico, em “Agora”, é tão importante quanto a palavra. Talvez até mais. E o conjunto de atores-bailarinos-músicos se relaciona não apenas porque troca e complementa piadas entre si e com o público, mas porque tenta ocupar o espaço e o tempo como uma massa viva única, que se faz e se desfaz a todo instante, usando o público, muitas vezes como seu suporte. (Preste atenção que, no flyer, um sinal de adição ocupa o espaço entre os nomes. Se foi sem querer, foi verdadeiro ainda assim.)

Se dá sempre certo como espetáculo? Se sempre funciona como teatro e entretenimento? Não tenho a menor idéia! É improviso, ora bolas! Só sei que, naquela tarde-noite do sábado passado, “naquele agora”, digamos assim, funcionou para mim e para uma platéia amistosa que encarou o calor saariano com bravura para ver aquela máquina mover-se, dissolver-se, recompor-se…

Acompanhei o espetáculo nascer pelos relatos esporádicos de Fernanda Huffel, colega da CAL e nova na trupe. Lembro do quanto me parecia instigante, nos relatos dela, essa instabilidade como pressuposto para o espetáculo acontecer, esse imediatismo que confere ao todo a improbabilidade de um moto-contínuo. É, Fê… Foi bonito de ver.