Eu ando com muito medo de Virginia Woolf!!!


CILENE GUEDES (cileneg@gmail.com)

Uma peça anda me rondando a cabeça e me atolando a agenda nos últimos dias. Minha sorte é ser uma das peças mais bem escritas de todos os tempos, com personagens tão contundentes e reais que é impossível empurrar com a barriga a tarefa de fazer uma ceninha que seja desse texto. (Mesmo que seja apenas uma apresentação para um professor e o restante dos colegas de classe numa sala de aula lááá no alto das Laranjeiras…)

A peça é “Quem tem medo de Virgina Woolf?” (1962). Os personagens, George, Martha, Nick e Benzinho. O autor é Edward Albee, possivelmente o maior dramaturgo vivo, expoente do realismo americano da segunda metade do século XX.

Sobre Albee e o que ele pretende ao escrever para o palco, diga ele mesmo. Numa entrevista do ano passado, de que você pode ver um trecho aí embaixo, o autor volta a uma das metáforas mais didáticas – se não óbvias – para descrever qual a função do teatro em que ele acredita: teatro é espelho. Shakespeare já dizia isso pela boca de Hamlet e muitos repetiram isso ao longo dos séculos.

A diferença, no caso de Albee, é o que se enxerga no espelho. O espelho é  cristalino. E, ainda assim, mostra uma feiura, um azedume que muitas vezes a gente não tem estômago para enxergar.  A imagem às vezes é tão bruta que é fácil colocar a culpa no espelho, dizer que ele distorce, aumenta, entorta as coisas. Mas a verdade é que quem faz isso é quem está do lado de cá do vidro. É o nosso olhar sobre a vida real que muitas vezes ilude.

Em “Quem tem medo de Virgina Woolf?”, sem dó da platéia, Albee foi capaz de virar do avesso as expectativas do sonho americano – essa fórmula de enquadramento que prova por A + B se você é ou não feliz e bem-sucedido, sendo A o dinheiro e os bens e B o casamento e a família. Curioso, Albee lança mão justamente de um jogo de espelhos que confunde e exaspera os dois casais de personagens, que vivem quase uma propaganda de vodca em mão dupla: eu sou você amanhã, eu sou você ontem.

Não que Benzinho tenha qualquer chance de virar uma Martha… Talvez faltem-lhe quadris, para usar uma figura do texto. Nem que Nick, por mais inteligente que seja, vá alcançar o grau de sagacidade que se vê no sarcasmo de George. Além disso, Nick e Benzinho não são um casalzinho apaixonado e unido por um amor ainda fresco. Eles se conhecem há anos, casaram-se por uma certa conveniência e a relação dá sinais precoces de desgaste.  Mas ainda se iludem, ainda têm forças para manter trancado o baú de mágoas e ressentimentos que o tempo só faz abarrotar.

A diferença está no fato de que George e Martha já não enfeitam o que vêem. Não por acaso, a frase de abertura, pronunciada ao abrirem-se as portas daquela casa é um teatral:

- Que pocilga!

Talvez eles sintam falta do tempo em que ainda era possível se iludir. E talvez por isso tenham se entregado ao longo dos anos a um jogo particular de ilusão, a uma fantasia absoluta, mas vivida apenas na privacidade do casal. Tornada pública, a fantasia do filho cai na vala comum de todas as outras ilusões imprestáveis. Tornada pública, revela-se irremediavelmente como fantasia. Por isso, é preciso matá-la.

A cena que tenho pela frente – a da “guerra total” -  é uma das mais fortes da peça. (Aí em cima, o trecho, no filme de 1966, com Elizabeth Taylor e Richard Burton). Claro que não vai ficar realmente bom – por mais que eu tenha um ótimo parceiro de cena e por mais que seja uma delícia para quem estuda atuação ficar repetindo e repetindo essa cena um monte de vezes (né, Daniel?????) . Digamos que, sim, eu tenho medo de Virgina Woolf, de “screw” completamente a cena, só para usar uma palavra que a adaptação da peça para o cinema jogou nas grandes telas americans pela primeira vez.

Mas medo é pra se encarar.

Ao menos, uma coisa é certa: na intenção, a cena vai ficar verdadeira. Isso porque, nessas semanas de estudo, o teatro do senhor Albee vem cumprido muito bem, ao menos dentro da minha cabeça, o papel que o autor tanto pretende: não passar despercebido, não ser engolido com facilidade, não ser confortável.

4 Respostas para “Eu ando com muito medo de Virginia Woolf!!!”

  1. Essa idéia, de que na falta da fantasia fresca que anima o casamento, eles entram nessa ilusão destruidora do jogo do filho e do sarcasmo como comprimido diário, foi ótima. E aí então, tornando-se não mais uma fantasia própria e passando a ser ordinária, ela não presta mais, por isso é despedaçada.

    Adorei, Cilene!

    Mandem ver na ceninha mais “light” da peça! rs

  2. Daniel Carneiro Diz:

    Nossa Cilene, uma honra estar fazendo essa cena contigo e dividindo impressões sobre esse autor que vem me encantando desde que tive contato com “A história do Jardim Zoológico” e “A Cabra”. E é verdade: uma delícia repetir, e repetir, e repetir essa cena!
    Ótimo texto!

    • dramaticoblog Diz:

      É hooooje, Dan!!! Não vejo a hora de soltar a fera em cima do George! Vai ser bacana!!! E a honra é totalmente minha!! E não é rasgação de seda, vc sabe.

    • dramaticoblog Diz:

      Obrigada, querida!! Há de dar certo. E essa cena introduz a que você vai fazer com o Gabriel, né? Vão arrebentar, tenho certeza. Bj!!

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